Fotografia de Joshua Benoliel Arquivo Militar

Como se faz uma trincheira

Nos primeiros dias após a declaração de guerra da Alemanha, o entusiasmo foi galvanizado pela propaganda do governo. André Brun fala do que viu em Lisboa. Uma grande agitação, pontuada por conflitos entre populares, entre aqueles que entendiam a mobilização como um dever e aqueles que a viam como uma imposição sem nexo e espalhavam desânimo e boatos de terror.

Fosse como fosse, cerca de 20.000 homens, de todas as condições sociais, foram mobilizados e acabaram enviados para Tancos, para receberem treino militar.


Ilustração Portuguesa - Hemeroteca Municipal de Lisboa

O Polígono Militar de Tancos era ideal para o treino devido à sua localização, entre o Tejo e o Zêzere, ambos abundante fonte de água. A linha do comboio estava igualmente próxima, pormenor essencial ao transporte dos soldados e de todo o equipamento e apoio de que necessitavam.

Um aspeto do Polígno de Tancos de acordo com uma planta de 1866, mostrando do Rio Tejo e do Rio Zêzere como vantagem estratégica para acampamento e treino.
Planta cedida pelo Arquivo Histórico Militar.

O grande acampamento ficou conhecido como “cidade de Paulona”, nome derivado das estruturas frágeis construídas para abrigar os soldados. A Espanha comprou-se material para as tendas, aos EUA 300 camiões, à Argentina 4000 cavalos. A “velha aliada” Grã-Bretanha forneceu armas, rações de combate e depois o próprio transporte para França.



Fotografias de Joshua Benoliel - Arquivo Militar

O esforço foi comandado pelo então ministro da Guerra, general Norton de Matos, assessorado pelo general Tamagnini e acabou conhecido como ‘Milagre de Tancos’ – uma expressão cunhada do próprio Norton de Matos nos seus relatórios -, já que em escassos três meses, milhares de civis transformaram-se, oficialmente, em garbosos soldados prontos para a batalha.

...e a propósito de Tancos, não há dúvida de que nos podemos envaidecer pelo nosso exército. Tudo ali, no dizer dos visitantes, que têm sido milhares, é perfeitíssimo; em poucos dias preparou-se parte desse exército para a guerra moderna, pelo poder de adaptação que é uma das mais notáveis qualidades do português, matéria-prima eminentemente própria para todas as grandezas. E se acontece que uma ou outra vez a obra sai aleijão, a culpa não é da matéria, de plasticidade admirável: é dos moldadores.” (in nº541 de 03 julho 1916 da Revista Portuguesa)

No mesmo número pode ler-se uma extensa reportagem entusiasmada como a vida no Polígono.








Ilustração Portuguesa - Hemeroteca Municipal de Lisboa

A realidade era diferente da propaganda. O ‘Milagre’ foi um misto de organização/improvisação. O maior problema vinha dos próprios militares, pouco entusiasmados com a ideia da guerra europeia e falhos de disciplina e coesão. A própria instrução militar era muito difícil, uma vez que 48 por cento dos mobilizados eram analfabetos e apenas 0,6 por cento tinha instrução secundária.

De acordo com José Martinho Gaspar, professor e Mestre em História, e natural de Abrantes, “o aprontamento de uma força para França começou com a deslocação de uma Missão Militar Portuguesa à Grã-Bretanha e a França, em Outubro de 1914. Composta pelos capitães Iven Ferraz, Fernando Freiria e Eduardo Martins, esta delegação do governo português teve como finalidade estudar com o estado-maior inglês a organização de uma força expedicionária que tenha de ser enviada ao teatro de guerra.”

“No mês seguinte desse mesmo ano é criada a chamada Divisão Auxiliar Portuguesa, mas sem qualquer consequência prática. Aliás, foi preciso caírem governos e formalizar-se a declaração de guerra à Alemanha – em 9 de Março de 1916 – para que existisse algum empenho efetivo na preparação da Divisão Auxiliar. Ou seja, em 1915 decidiu-se pela concentração de uma Divisão de Instrução no polígono de Tancos mas a concretização, no terreno, só aconteceu em Maio e Julho do ano seguinte”, prossegue o mesmo autor.



Fotografias de Joshua Benoliel - Arquivo Militar

“Foi um trabalho dificílimo devido essencialmente à resistência passiva e muitas vezes ativa de oficiais em vir a intervir na guerra da Europa. Para o estado em que o exército se encontrava o que se conseguiu realizar em Tancos neste período de três meses só podia ser classificado como um autêntico milagre. Na teoria, e por milagre, Portugal passou a ter a sua força expedicionária pronta para embarcar.”

Na verdade, após três meses de instrução, os homens regressaram aos campos e às cidades e só foram chamados para embarcar seis meses depois, em 1917. Perdeu-se assim o pouco “Espírito de Corpo” que se tinha conseguido criar no escasso tempo de treino.

Um artigo sobre a mobilização, publicado no site Momentos de História, explica como tudo se processou para realizar o ‘milagre’.

Fotografia de Joshua Benoliel - Arquivo Militar

“A instrução preliminar dos soldados do CEP foi dada numa primeira fase de forma geograficamente dispersa: nos quartéis da 2ª Divisão (Viseu), da 5ª Divisão (Coimbra) e da 7ª Divisão (Tomar), e só depois foi efetuada a concentração em Tancos. Mesmo assim, as unidades não ficaram concentradas nas cidades dos quartéis divisionais, tendo sido dispersas por regimentos conforme as especialidades”.

Fotografia de Joshua Benoliel - Arquivo Militar

“A instrução militar ministrada não estava desenhada de forma a criar a camaradagem e a disciplina necessárias para num contexto de guerra desgaste físico e psicológico. O plano de instrução apresentava longos períodos de descanso, em contraste com as poucas horas diárias de instrução. Ao domingo, alguns que viviam em Lisboa pediam licença para irem a casa, outros passeavam pelas redondezas do quartel” refere o mesmo texto.

Depois de uma primeira parte da instrução militar básica, iniciou-se outro período, mais de acordo com o que então se passava na Europa: a guerra de trincheiras. É nesta fase que surge este postal, ficcionado, sobre um descendente que recorda em Tancos de agora o que viveu ali um seu avô, há 100 anos e como eram as trincheiras que aprendeu ele a fazer.


“Era essencial ensinar os soldados portugueses a construir aquelas que seriam as suas fortalezas na guerra. A instrução consistia em cavar trincheiras segundo um traçado de uma frente de combate imaginária, de acordo com os regulamentos adotados na França e de acordo com a topografia do terreno. Cada companhia executava a sua trincheira e introduzia de seguida melhoramentos e comodidades. Nesta instrução os homens trabalhavam à vontade sob a direção de sapadores e entre as companhias existia uma competitividade para apresentar a melhor trincheira”, explica o artigo sobre a mobilização do Momentos de História.

“Mesmo introduzindo exercícios táticos virados para a guerra nas trincheiras, a instrução militar praticada em Tancos não se encontrava adaptada às necessidades e exigências, uma vez que não foi capaz de incutir disciplina suficiente nas praças e nos oficiais. Podemos considerar que a disciplina é o meio de obter um objetivo e não o objetivo em si, mas seja qual fosse o nível que se pretendesse dar, não foi conseguido. Falhou o processo de mentalização, falhou a construção do "Espírito de Corpo" e foi insuficiente o treino físico” conclui o artigo.