Quim e Manecas, os mais populares heróis da BD portuguesa

Foi com as personagens de Banda Desenhada (BD) Quim e Manecas, criadas pelo artista gráfico Stuart Carvalhais, que Portugal mudou a forma de fazer desenho crítico. Os irmãos nasceram em janeiro de 1915 e foram mais tarde adaptados ao suplemento O Século Cómico, do jornal homónimo.

| Portugal na I Grande Guerra

Até junho de 1916 a publicação sob formato tabloide era autónoma, mas em julho desse ano as tiras de BD foram integradas na Ilustração Portuguesa, em formato de revista. Nasciam assim as intrépidas aventuras de Quim e Manecas - um conjunto com mais de 500 episódios espalhados por vários jornais e revistas que durou até 1953.


Hemeroteca Nacional de Lisboa

Mas foi especialmente no período da I Grande Guerra que estes dois “míticos heróis” se aventuraram em nome da Primeira República e de Portugal, contra os impiedosos alemães. Uma aventura que veria a primeira série terminada logo a seguir ao Armistício, em novembro de 1918.

Esta obra de Stuart Carvalhais não só revoluciona a banda desenhada portuguesa como também a coloca na vanguarda da BD europeia.

Considerada como a banda desenhada republicana, visto ter nascido ainda na jovem república portuguesa, reflete com humor e muito sentido crítico acontecimentos, posicionamentos e interpelações profundamente ligados a esse período da história política de Portugal. E é neste contexto político, social e cultural que os irmãos Quim e Manecas, apoiantes de Afonso Costa, por quem são condecorados - (O Século Cómico, n.º 916, 27 de maio 1915) -, participam na Grande Guerra, dando um forte contributo decisivo para a vitória dos Aliados.


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Conjuntamente com a conceção gráfica de Stuart, aos desenhos associam-se à utilização sistemática de balões narrativos, nas primeiras 27 pranchas, que contaram com a participação de Acácio de Paiva, diretor d'O Século Cómico.

Frases e expressões dotadas de um humor que transparece não só do texto e dos diálogos mas das próprias personagens, das situações, da ação, da ternura das figuras principais, que fazem de Quim e Manecas uma das mais significativas obras da arte portuguesa do início do modernismo.



Stuart, o criador de Quim e Manecas
A I Grande Guerra eclodiu em 1914 após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, e da esposa, a arquiduquesa Sofia, em Sarajevo, a 28 de junho desse ano.

O conflito desencadearia várias hostilidades, em várias frentes, durante os quatro anos seguintes. Portugal envolver-se-ia na guerra em 1916.

Curiosamente e sem uma ligação direta, uma outra “revolução” chegou a Portugal, mudando a perspetiva de como se exercia o desenho humorístico da época. Decorria então o ano de 1915 Na vanguarda desta “revolução” criativa e artística estava José Stuart Carvalhais.

José Herculano Stuart Torrie d’Almeida Carvalhais, filho de um português e uma inglesa, nasceu em 1887 na localidade de Vila Real de Trás-os-Montes.

Como ilustrador, Stuart começa por participar em algumas mostras coletivas e não se poupava nos desenhos e caricaturas críticas. Em 1915 cria as figuras de Quim e Manecas, apresentando-as num formato original e fora do contexto utilizado na época em Portugal.

Nasce assim a banda desenhada portuguesa.


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Já em 1916 e depois de ter passado pelo jornal satírico monárquico O Papagaio Real, Stuart traz a banda desenhada e introdu-la no suplemento humorístico O Século Cómico.

As célebres Aventuras do Quim e do Manecas permitem-lhe retratar a época, com todas as poses burguesas personificadas em tipos populares e miseráveis.

Stuart aproveitou também a dinâmica da banda desenhada para, em período de Grande Guerra, transformar as personagens Quim e Manecas em “heróis” ao serviço da jovem república, sempre contra aos “boches”, que tudo faziam para ganhar a guerra.

Stuart Carvalhais tornou-se desta forma não só um dos maiores criadores da BD portuguesa, mas um dos pioneiros da BD moderna europeia. Um género criativo artístico do género do par de "miúdos terríveis", como Max e Moritz e os Katzenjammer Kids antes deles, ou de Quick e Flupke, mais tarde.

Os irmãos Quim, o mais velho e quase sempre de chapelinho, Manecas, o mais novo, com o bibe às bolinhas, foram a expressão mais consistente e duradoura que Stuart Carvalhais criou no mundo de imagens para miúdos. Mas com um sentido crítico muito apurado para os mais crescidos.
Quim e Manecas e a declaração de guerra


A saga dos irmãos “Quim e Manecas e a declaração de guerra”, aqui reproduzida, surgiu nas edições d’O Século Cómico nos dias 23 e 30 de março de 1916.

A aventura desenhada por Stuart mostra como os dois irmãos, ao receberem a notícia de que Portugal entrara na Grande Guerra, se disponibilizam para ajudar a pátria contra o exército alemão.

Com habilidade e mestria prontificam-se a construir um veículo, em formato de bala gigante, que os leva à frente de batalha.

Já em campo inimigo e munidos de algumas armas, Quim e Manecas descobrem que estão junto a um campo de aviação alemão e esperam pelo momento certo para roubarem um avião, que lhes servirá para “mimosear” o inimigo com algumas “ameixas” (balas).

Esta aventura dividida em duas partes integra as cerca de 500 tiras de banda desenhada composta por Stuart Carvalhais durante o período da Grande Guerra. As duas personagens resistiram até ao armistício, assinado em 1918.




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