Uma gota portuguesa no oceano da guerra

O historiador francês Jean-Jacques Becker traça algumas linhas de força maiores do conflito de 1914-1918 e situa nesse contexto as dificuldades da tropa portuguesa, nomeadamente na hora de ser repatriada, das trincheiras e dos campos de prisioneiros.

Tropas aliadas em trincheira
DR
| Portugal na I Grande Guerra



Pergunta: Qual foi a importância da ofensiva de Ludendorff, na primavera de 1918, para a Primeira Guerra Mundial e para os alemães?


Resposta: As ofensivas alemãs da primavera e início do verão de 1918, foram uma parte essencial da guerra. Na realidade, os alemães estavam muito perto de ganhar a guerra, por isso não são batalhas marginais, mas sim batalhas fundamentais.

O problema era que o quartel-mestre general do Exército alemão, o general Ludendorff, que era de facto o verdadeiro líder do exército alemão, era um excelente tático mas um fraco estratega, incapaz de conceber uma estratégia. Em contrapartida, era muito capaz de conceber ataques.

E desde 1914 era praticamente impossível quebrar a frente do inimigo, fossem os franceses contra os alemães ou os alemães contra os franceses. Em todo o lado isso tinha falhado, e Ludendorff encontrou uma maneira de empurrar a frente do inimigo. Ele começou em março contra os ingleses na Picardia, continuou com os portugueses no norte da França. No sul da Bélgica, uma terceira ofensiva ocorreu no Chemin des Dames, mas esta do lado alemão. A quarta e última ofensiva, que foi o um completo fracasso, foi na área de Rheims.

Na verdade, Ludendorff não tinha um plano bem delineado, ele queria empurrar a frente adversára e depois ver o que acontecia - o que foi provavelmente um erro porque cada uma dessas ofensivas, depois de ter começado bem, aos poucos ia sufocando.


Genera lErich Ludendorff - 1914 / Fonte: German Federal Archives


P.: Como podia "sufocar" uma ofensiva que começava bem?


R.: Uma coisa bastante curiosa e praticamente desconhecida, e que no entanto é muito importante, é que os soldados alemães estavam tão mal alimentados, que quando descobriam os depósitos de víveres britânicos - e o mesmo se passou na área portuguesa - era impossível fazê-los avançar até eles terem completamente saqueado o depósito de víveres. Um elemento do qual Ludendorff não se deu conta, de modo que cada uma das suas ofensivas obteve enormes sucessos mas depois rapidamente esmoreceram sem que Ludendorff daí tirasse a vitória, se bem que ela estava muito próxima.

P.: Essas ofensivas estavam relacionadas com a entrada iminente dos americanos na Guerra e a sua chegada a França?

Certamente. Para a Alemanha, após a queda da Rússia, urgia vencer antes da intervenção americana e o comando alemão estava convencido de que podia concretizá-lo. Tentara primeiro fazê-lo a todo o custo através da guerra submarina, mas ainda que os submarinos alemães tenham causado enormes perdas às frotas aliadas e, em especial, à britânica, isso não foi suficiente para ganhar a guerra. Só que na primavera de 1918, os alemães puderam fazer regressar da frente leste um grande número de divisões.


Exército Americano / Fonte: Ilustração Portuguesa

Os soldados americanos, por outro lado, ainda não entraram verdadeiramente na guerra por uma razão muito simples: os comandos francês e inglês esperavam que, à medida que fossem desembarcando, os militares americanos se fossem integrando nas unidades francesas ou britânicas; ora, para o governo e comando americanos, isso era inaceitável: eles queriam que o exército americano combatesse de forma autónoma, o que significa que mesmo que muitos soldados americanos tivessem já desembarcado em França, ainda não eram utilizáveis no vetor essencial.


Fonte: Portugal e a Grande Guerra (Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes)

Os alemães tinham pois de vencer antes que os americanos fossem demasiado numerosos nos campos de batalha. Assim, as ofensivas alemãs da primavera de 1918 estão diretamente ligadas à ideia de que era preciso ganhar a guerra antes que os americanos pudessem desempenhar nela um grande papel.

P.: O que poderia precisamente explicar aquilo a que se chama a batalha de La Lys, a 9 de Abril...


R.: Sim. Na verdade, após a ofensiva da Picardia, que fora travada antes que os alemães conseguissem tomar Amiens, continuando em direção ao mar - seja como for, empurrando os ingleses em direção ao litoral... - Ludendorff quis desferir um segundo golpe relacionado também com a frente britânica, mas numa determinada secção, na região de Armentières, ou junto ao Rio Lys, defendido pelas divisões portuguesas que tinham chegado a França a partir de 1917.



P.: Porque é que Ludendorff escolheu esse local?

R.: Bem, porque isso permitia, em princípio, alcançar rapidamente a costa flamenga, e depois porque esperava enfrentar tropas menos preparadas, embora as forças britânicas, muito bem treinadas, tivessem sofrido poucas semanas antes uma grande derrota, tal como os franceses iriam ter umas semanas mais tarde. Enfim, a ideia de atacar naquele ponto, prendia-se simultaneamente com a geografia e o facto de os soldados portugueses serem seguramente menos aguerridos que os de outros países.

P.: Quais eram as relações entre os britânicos e as tropas aliadas que estavam sob a sua orientação? Que tipo de missões e de responsabilidades deixavam os britânicos a essas tropas?


R.: Havia evidentemente muitas outras forças britânicas, tropas dos domínios coloniais que eram, no fundo, consideradas inglesas. Nesta zona, só há praticamente soldados portugueses; as relações entre o exército britânico e o português - enfim, os soldados portugueses... - não eram excelentes. A situação era algo complexa porque as unidades portuguesas dependiam do comando britânico e isso nem sempre era desprovido de tensões. O facto de o contacto entre as unidades britânicas e portuguesas não ser o melhor, era pois um elemento agravante.

P.: A dificuldade nessas relações poderia ter também alguma relação com esta ofensiva de 9 de abril?

R.: Sim, há alguma relação, mas na realidade a grave derrota sofrida pelos portugueses em La Lys deve-se sobretudo a dois elementos. Em primeiro lugar, a qualidade das tropas alemãs, pois para estas operações de rotura, Ludendorff utilizava tropas de choque, especialmente preparadas e que empregavam métodos novos; ou seja, em vez de atacar frontalmente o adversário, tentavam envolvê-lo através de incursões nos pontos mais débeis.

Aliás, esta estratégia ofensiva revelou-se tão eficaz contra os ingleses como contra os portugueses, ou os franceses, etc.. Não é, portanto, específico.


Terra de ninguém após bombardeamento de artilharia / Fonte: Ilustração Portuguesa

Em segundo lugar, é verdade que as divisões portuguesas tinham pouca experiência de combate; como tal, eram pouco aguerridas. Além disso, foi talvez muito má ideia enviar soldados portugueses, habituados a um certo tipo de clima, para a Flandres, um território húmido, cinzento, frio...



P.: Além da qualidade da instrução militar, havia também problemas com o moral das tropas?

R.: Havia também outras razões pelas quais estes soldados portugueses não estavam entre os melhores possíveis; desde logo, o facto de os seus oficiais serem, na sua maioria, monárquicos. Ora os monárquicos portugueses não gostavam da República que fora instituída e não percebiam muito bem por que razão os tinham mandado combater em França; eles eram, sobretudo, germanófilos.

Quanto aos soldados, muitos deles não sabiam efetivamente por que motivo combatiam. Os soldados franceses sabiam porque estavam ali, ainda que isso não signifique que estivessem satisfeitos por lá estar... mas enfim, conheciam a razão.

Portanto, temos por um lado tropas alemãs que estavam entre as melhores, contra combatentes que não sabiam muito bem por que razão estavam ali. O resultado foi a derrota sofrida pelas tropas portuguesas quando da batalha de La Lys.

P.: No que diz respeito às tropas francesas, quais eram as condições, qual era o quotidiano que viviam na frente da Flandres?


R.: As condições de vida dos soldados franceses nas trincheiras eram das piores, muito simplesmente porque o comando francês nunca admitira o papel defensivo das trincheiras; para ele, esta era uma situação provisória, havia que sair das trincheiras para atacar a frente inimiga.

Assim, as trincheiras francesas foram sempre mais básicas do que as britânicas que eram, em todo o caso, um pouco mais confortáveis do que as alemãs, etc. As trincheiras francesas foram sempre das mais desconfortáveis, das menos trabalhadas entre todos os beligerantes.

P.: E qual foi a instrução militar, a preparação militar recebida pelas tropas francesas para esta guerra?

R.: Quando a guerra começou, ninguém estava preparado para este tipo de conflito. Aliás, todos os exércitos pensavam que tudo terminaria ao fim de algumas semanas, de alguns meses, no máximo. Foi só ao longo da guerra que os soldados foram ganhando combatividade pela sua permanência nas trincheiras, pelos ataques, pelos bombardeamentos sofridos, etc.. O essencial foi, de facto, a formação no terreno, digamos assim.

É evidente que comparadas com as portuguesas, as tropas francesas - tal como as britânicas, mas sobretudo as francesas - tinham uma experiência muito maior ao fim de quatro anos de guerra do que as forças que iam chegando ao terreno; nesse sentido, todas as preparações não valem a experiência dada pela participação na guerra.

Passa-se o mesmo com os soldados americanos. Estes deram prova de assinalável dinamismo, de um entusiasmo no combate, de uma vontade de lutar deveras extraordinários. A sua experiência era, porém, muito fraca e o resultado é que os americanos, apesar de só terem participado, grosso modo, em quatro ou cinco meses de guerra, sofreram baixas extremamente pesadas, pois ainda não tinham, evidentemente, a experiência dos soldados dos outros países e, aliás, tiveram grandes problemas.

P.: Porque foi esta guerra tão diferente daquelas que a precederam?

R.: Há duas razões. A primeira é que os comandos militares acreditavam, antes da guerra, que a solução e decisão do conflito dependeriam da vontade ofensiva. E foi por isso que, por exemplo em 1914, os soldados franceses atacaram e, para vos dar um elemento de reflexão, só no dia 22 de agosto de 1914, num único dia, 40 mil soldados franceses perderam a vida na Lorena. No dia 22 de agosto e em escassos dias subsequentes...

A segunda razão para o número de mortos e de mutilações, de ferimentos pavorosos, prende-se com o papel da artilharia. Esta guerra foi, na essência, uma guerra de artilharia - artilharia de campanha mas também artilharia pesada; as baixas deveram-se sobretudo, e nos dois campos, à artilharia, e não apenas aos combates de infantaria. Era a primeira vez, na história humana, que a artilharia desempenhava um tal papel. Isso explica não só as baixas, extremamente pesadas, mas também a gravidade dos ferimentos infligidos.

Outra das razões é a duração do conflito, a duração da guerra... ninguém acreditara que uma guerra pudesse prolongar-se quatro anos e mais. Então, porquê? Bom, porque muito rapidamente houve um equilíbrio - falo aqui da frente ocidental... Houve um equilíbrio entre os franco-britânicos de um lado e os alemães do outro, e ninguém era capaz de romper esse equilíbrio. Isso só aconteceu no final da guerra, em particular graças à chegada dos americanos que eram, de todo o modo, uma fonte inesgotável de novos efetivos - isto quando os antigos beligerantes já não sabiam onde encontrar homens para continuar a guerra.

P.: E houve também, a nível técnico-militar, novidades nesta guerra: os submarinos, por exemplo, mas também os aviões...

R.: Sim, os submarinos já existiam mas em número muito reduzido. E, se os alemães decidem, em janeiro de 1917, desencadear a guerra submarina em larga escala, é porque possuíam, à época, submarinos suficientes para o fazer. Portanto sim, existiam submarinos e a arma submarina foi de facto utilizada durante a guerra.

Mas a grande inovação da guerra é, efetivamente o desenvolvimento da aviação. No início do conflito existiam aviões, mas eram sobretudo aparelhos para reconhecimento. Foi só ao longo da guerra que as partes beligerantes criaram forças aéreas consideráveis. O número de aviões construídos foi enorme porque muito rapidamente, e devido aos progressos técnicos, os aviões fabricados uns meses antes eram ultrapassados pelas novas técnicas.


Tanques franceses / Fonte: Ilustração Portuguesa

Outra inovação considerável é a dos blindados, aquilo a que nós chamamos blindados mas que eram, à época, chamados sobretudo tanques, porque quandos os ingleses começaram a construir carros de combate, deram-lhes um nome de código que era sinónimo de reservatório - daí o "tanque". Foi por essa razão que amiúde se lhes chamava "tanques".

O papel dos blindados foi considerável em 1918; antes desse ano, a sua utilização nem sempre foi bem-sucedida. É, todavia, uma das grandes inovações. Mas é interessante notar que os alemães não acreditaram neles e, assim, no fim da guerra não tinham praticamente tanques, isto quando os franceses e britânicos contavam com centenas ou milhares de carros de combate.


Feridos ingleses após ataque de gases / Fonte: Imperial War Museums

Uma outra inovação é a dos gases asfixiantes; eles não desempenharam um grande papel, salvo a terrível provação para os combatentes de terem de usar máscaras permanentemente. Mas foi uma inovação da guerra, uma inovação condenada pelos acordos internacionais, porque envenenava o adversário. Juntemos também o grande papel assumido pelas metralhadoras que, embora já existissem, se tornam aqui uma das armas essenciais desta guerra.

P.: Quais eram as condições dos prisioneiros de guerra?

R.: As condições dos prisioneiros de guerra eram regidas por leis internacionais. Se atentarmos no caso dos prisioneiros na Alemanha, bom... eram condições duras, porque eram muito mal alimentados, à imagem também da população alemã porque o bloqueio impedia o reabastecimento na Alemanha. Foi essa, pois, uma das principais dificuldades para os prisioneiros na Alemanha.

Em França, as condições dos prisioneiros de guerra foram rapidamente bastante boas, pois os camponeses precisavam de mão de obra e, ao fim de algum tempo, uma grande parte dos prisioneiros alemães foi utilizada na agricultura francesa. No início, ninguém queria alemães nas suas casas, mas depois foram-se apercebendo de que eram bons trabalhadores e os camponeses acabaram por disputar os prisioneiros alemães.


P.: Como foi feito o repatriamento dos franceses, dos aliados, tanto dos soldados que estavam longe de casa, como dos prisioneiros de guerra, após o armistício?

R.: No que respeita aos prisioneiros franceses, o seu repatriamento foi bastante rápido. Era uma das cláusulas do armistício e, de facto, não havia problemas especiais: bastava organizar comboios e trazê-los de novo para França.

P.: Mas para os portugueses não houve comissão de repatriamento, as coisas não correram muito bem e eles ficaram muito tempo sem saber como regressar...

R.: Sim, o problema dos soldados portugueses é que, no fundo, não eram autónomos relativamente ao exército britânico, e suponho que este não se preocupou especialmente com os portugueses. É o problema de uma pequena potência envolvida numa guerra destas: não há muitos a interessarem-se por ela, o que explica a sorte adversa dos prisioneiros portugueses, enquanto para a França o repatriamento dos seus prisioneiros foi uma prioridade imediata.


Regresso das tropas portuguesas / Fonte: Ilustração Portuguesa

P.: Mas já que a guerra terminara, eles podiam ter tido mais autonomia e encontrado condições para os repatriar, não ...?

R.: Sim, mas neste tipo de coisas o peso dos países é considerável. É óbvio que o peso de Portugal relativamente à Alemanha era fraco comparado com o peso da França ou da Inglaterra. E depois, nestes casos, entra sempre o egoísmo nacional: os cidadãos de um país passam sempre à frente dos de outros. Não é muito ético, não é muito aceitável, mas infelizmente é assim que as coisas se fazem.

Seja como for, após a batalha de La Lys, continuou a haver tropas portuguesas, sobretudo unidades de artilharia: contudo, depois dessa batalha, os portugueses já não desempenham um grande papel...

Eram obviamente muito poucos no princípio. No início, havia 60 mil soldados portugueses. Uma grande parte foi morta ou feita prisioneira. Então, se considerarmos que de cada parte havia vários milhões de combatentes, como é evidente isso não tinha grande importância.

Tradução de Luís Silva Reis

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