Saída de Flávio Bolsonaro para os EUA deixa direita brasileira sem projeto claro diz socióloga

Saída de Flávio Bolsonaro para os EUA deixa direita brasileira sem projeto claro diz socióloga

A socióloga Débora Messenberg considerou hoje que a direita brasileira está "muito fragilizada" e terá de se dissociar do bolsonarismo para sobreviver, após a saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Eva Marie Uzcategui - Reuters

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), Messenberg, que estuda a extrema-direita no Brasil e no mundo há dez anos, avaliou que a direita brasileira enfrenta dificuldades para reorganizar a liderança após a derrota de Flávio para Lula da Silva na segunda volta das presidenciais no passado domingo.

A socióloga afirmou que a carta divulgada quarta-feira pelo senador, na qual se apresenta como líder da oposição brasileira a partir dos Estados Unidos e questiona o resultado das eleições, integra uma estratégia da extrema-direita de manter a sua base eleitoral permanentemente mobilizada.

"Eles precisam agitar a sua audiência", afirmou Messenberg, acrescentando que a estratégia "não é aleatória" e corresponde a uma forma de atuação adotada por líderes da extrema-direita internacional.

Segundo a especialista, a carta também reproduz uma narrativa de não aceitação da derrota e de conspiração, sem apresentar provas das acusações feitas pelo senador sobre o processo eleitoral brasileiro.

"Eles não aceitam a derrota. E é sempre uma construção de uma narrativa de não aceitação e de conspiração", afirmou, salientando que a extrema-direita mantém uma estratégia de "agitação contínua" da base eleitoral.

Na carta, o senador afirmou: "Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece".

Para Messenberg, porém, a tentativa de exercer uma liderança política brasileira a partir dos EUA não encontra suporte na realidade e o máximo que Flávio poderia fazer seria pressionar a bancada do Partido Liberal (PL) no Congresso.

"Como ele pode imaginar que vai ter algum tipo de interferência nos Poderes no Brasil?", questionou a socióloga, admitindo que o senador poderá tentar "arregimentar obstruções no Congresso".

A especialista considerou que Flávio "perdeu uma grande oportunidade de se posicionar como liderança da oposição", ao optar pela estratégia adotada após a derrota eleitoral.

A saída do senador ocorre num momento em que setores da direita procuram preservar espaço político sem permanecer totalmente associados ao bolsonarismo, segundo Messenberg.

A socióloga apontou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como um possível líder mais agregador da direita não bolsonarista, mas afirmou que ele aderiu ao projeto bolsonarista para garantir a própria reeleição.

"Tarcísio, que seria um líder possível, aderiu a esse projeto", afirmou, acrescentando que o governador não enfrentou a escolha de Flávio como candidato presidencial, mesmo sendo uma alternativa mais agregadora.

Após a publicação da carta de Flávio, Tarcísio voltou a reconhecer o resultado da eleição e afirmou que "agora é preciso olhar para a frente".

Para Messenberg, a direita liberal brasileira não dispõe atualmente de um projeto político claro, enquanto o parlamento saiu das eleições com forte presença do centro e da extrema-direita.

"A direita brasileira mais liberal, na verdade, ela uniu-se ao bolsonarismo como a ponte de salvação da sua sobrevivência inicialmente", afirmou.

A investigadora avaliou que a necessidade de afastamento do bolsonarismo é inevitável para a sobrevivência de setores da direita, mas considerou difícil prever os próximos passos da extrema-direita brasileira.

A socióloga considerou que o reconhecimento do resultado eleitoral pelo candidato a vice de Flávio, Alfredo Gaspar, e pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, enfraquece internamente o senador.

O senador que coordenou a campanha presidencial de Flávio, Rogério Marinho, reuniu-se com membros do partido na quarta-feira à noite e disse que esperava que ele "assumisse esse papel de liderança" e que não foi consultado pelo aliado sobre sair do Brasil.

Hoje, em rápida declaração à imprensa, Valdemar Costa Neto disse "não gostei" em resposta à pergunta sobre o que achou da carta de Flávio Bolsonaro.

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