Último banquete do "homem do gelo" era rico em gordura

| Ciências

Investigadores voltam a revelar novos dados sobre o "homem do gelo".
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A história de Ötzi, como foi batizado, remonta a 1991. Tudo começou quando um grupo de caminhantes na região alpina italiana de Venoste (Öetztal) tropeçou num cadáver. Inicialmente julgou-se ser mais um caso de um alpinista aventureiro que não teria resistido aos frios alpinos, mas após uma autópsia e uma análise mais profunda verificou-se que este corpo mumificado no gelo tinha cerca de 5300 anos.

Exames minuciosos passaram a pente fino toda a estrutura de Ötzi desde a roupa que trazia vestida, tatuagens, utensílios, causa de morte, colesterol e até ao próprio genoma - matéria que deu lugar a estudos e trabalhos jornalísticos e científicos.

Mas as análises não ficaram por aí. Em 2002, uma análise detalhada do DNA do intestino delgado do “homem do gelo” sugeriu que Ötzi teria ingerido carne de cervo vermelho, cabra e leguminosas antes de morrer.

Nas observações feitas por biópsia do estómago de Ötzi, os pesquisadores viram evidências de fibras musculares de animais. Os pesquisadores também notaram que as partículas de carne do estómago repeliam a água, indicativas de alto teor de gordura.

Em 2011, novos exames radiológicos revelaram que o conteúdo estomacal da múmia ainda estava intacto e voltaram a concentrar-se de forma mais profunda nesse conteúdo.Ötzi não morreu com fome 

A múmia preservada pelo gelo alpino durante mais de cinco mil anos, continua a dar informação aos investigadores. Após novas análises ao estômago do "homem do gelo", os investigadores chegaram à conclusão que Ötzi não morreu com fome, pois dentro do aparelho digestivo, e preservada pelo gelo existia ainda muita comida que tinha sido ingerida pouco antes de morrer.
Análises ao DNA dos alimentos ainda presentes e não digeridos no estômago, indicaram que cinquenta por cento eram resíduos polisaturados de gordura, provenientes do consumo de veado e cabra.
De acordo com uma publicação de julho, na revista Current Biology, os cientistas voltaram a analisar o antigo DNA, proteínas e outras substâncias químicas preservadas no seu conteúdo estomacal. E constataram que os resíduos de gordura que o DNA indicava provinham do consumo de veado e cabra, que fazia parte de 50 por cento do total de alimentos não digeridos no estômago.

Mas Ötzi não era apenas carnívoro. Pertencente a uma classe agrícola sedentária, registada na região, esta sociedade humana durante o período invernoso enfrentava temperaturas muito frias. Era um período em que os seus elementos teriam de recorrer à caça e recolha de alimentos por não os conseguirem plantar.


E um dos factos que comprova esta dieta é que dentro do saco estomacal do "homem do gelo" também se encontrou trigo einkorn (Triticum monococcum) e outros grãos domesticados. O mais curioso foi o vestígio no estômago de uma baga samambaia tóxica (Pteridium aquilinum), que poderia servir como remédio caseiro para uma dor de estômago, embora o mais provável é que fizesse parte da refeição.
Ötzi era alto e tinha uma estrutura física de um homem que realizava muitas e duras caminhadas. Apresentava a parte superior do corpo não muito musculada, sem presença de gordura, e ainda tinha todos os dentes.
Mas quem já tirou a conclusão que Ötzi morreu de congestão, de ataque cardíaco, devido às gorduras, ou intoxicado por uma baga tóxica, enganou-se. Este homem foi morto por uma seta que ainda estava presente e cravada no corpo congelado no tempo.

Enquanto a refeição inclui proteínas, carboidratos e ácidos graxos, a gordura representa cerca de 46 por cento do conteúdo estomacal. E a maior parte dessa gordura veio da carne de cabra. Experimentos de teste de cozinha sugerem que a carne foi consumida fresca ou fumada lentamente.

Dieta rica em gordura para combater os períodos mais frios

A gordura corporal é atualmente sinónimo de obesidade e mau comportamento alimentar. Mas, se hoje isso é verdade, face à melhoria das condições de vida no planeta, há cinco mil anos, muito embora já houvesse a preocupação do uso de roupagem para proteção do frio, nas zonas alpinas, onde vivia o “homem do gelo”, tudo o que servisse como auxiliar contra o frio era bem-vindo e a gordura corporal ajudava.

Motivo este que não espantou os investigadores ao encontrarem uma vasta presença de carnes gordas no interior da múmia achada na região dos Alpes de Venoste.

Existem algumas múmias no mundo tão antigas, mas nenhuma tão bem preservada. Foto: Dmitry Kostyukov - NYT/DR

Como era Ötzi quando morreu
Quanto mais os cientistas aprendem, mais reconhecível se torna Ötzi. De acordo com os investigadores, o “homem do gelo” tinha um metro e oitenta e cinco centímetros de altura (altura média para o seu tempo), pesava 110 quilos, tinha olhos castanhos e cabelos castanhos escuros na altura dos ombros. Ötzi rondaria os 45 anos, uma idade respeitável e velha para o final do período neolítico, mas ainda em seu auge.

Ötzi tinha uma estrutura física de um homem que realizava muitas e duras caminhadas, mas apresentava a parte superior do corpo não muito musculada, sem muita presença de gordura. Tinha todos os dentes, e entre os dois dentes superiores da frente havia uma brecha de 3 milímetros, uma condição hereditária conhecida como diastema, que Madonna e Elton John também têm.



Tópicos:

DNA, Homem do Gelo, Itália, Múmia, Venoste (Öetztal), cadáver, Ötzi,

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