Hospitais brasileiros "à beira do colapso"

A ocupação de unidades de cuidados intensivos para a Covid-19 está em "situação extremamente crítica", com 15 das 27 capitais brasileiras a superar os 90 por cento, alerta um relatório do Instituto Fiocruz.

Cristina Sambado - RTP /
Espaço improvisado para receber doentes com Covid-19 num hospital em Brasília Ueslei Marcelino - Reuters

O instituto, com sede no Rio de Janeiro, revela ainda que 80 por cento das camas em UCI estão ocupadas em 25 das capitais.

Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo estão entre as 15 capitais que ultrapassaram os 90 por cento de ocupação. Já Belém e Maceió, apesar de estarem na zona de alerta intermédio, apresentam uma ocupação acima dos 70 por cento.


Na terça-feira, o Brasil - que tem 212 milhões de habitantes - registou um novo recorde diário de óbitos por Covid-19, com 1927 mortes. E não há nenhum sinal de que a pandemia esteja a abrandar. Isto num país onde o sistema hospitalar está sobrecarregado e a vacinação a decorrer lentamente.

Nos últimos sete dias, a média é de 1573 mortos por dia, um número que tem aumentado continuamente nas últimas duas semanas.Estão em alerta máximo as capitais de Porto Velho (100 por cento), Rio Branco (99 por cento) Manaus (87 por cento), Boa Vista (80 por cento), Macapá (90 por cento), Palmas (95 por cento), São Luís (94 por cento), Teresina (98 por cento), Fortaleza (96 por cento), Natal (96 por cento), João Pessoa (87 por cento), Recife (85 por cento), Aracajú (86 por cento), Salvador (85 por cento), Belo Horizonte (85 por cento), Vitória (80 por cento), Rio de Janeiro (93 por cento), São Paulo (82 por cento), Curitiba (96 por cento), Florianópolis (97 por cento), Porto Alegre (102 por cento), Campo Grande (106 por cento), Cuiabá (96 por cento), Goiânia (98 por cento) e Brasília (97 por cento).

Para o Instituto Fiocruz o atual quadro aponta para a sobrecarga e colapso do sistema de saúde e frisa que “é necessário ampliar e fortalecer as medidas de prevenção à transmissão da doença, com o distanciamento social, o uso de máscaras e a higienização das mãos”.

“Nos municípios e Estados que já se encontram próximos ou em situação de colapso, a análise destaca a necessidade de adoção de medidas mais rigorosas de restrição de circulação e das atividades não essenciais. Além disso, é ´necessário o reforço das ações de vigilância, que incluem a testagem rápida de casos suspeitos e os seus contactos”, avança o portal Agência Brasil.

Segundo o Instituto Fiocruz, os números apontam para uma “sobrecarga e até mesmo colapso dos sistemas de saúde”.

“A luta contra a Covid-19 foi perdida em 2020 e não há a possibilidade de reverter esta tragédia no primeiro semestre de 2021”, afirmou o epidemiologista Jesem Orellanam do FioCruz à AFP.
Segundo Jesem Orellanam, “o melhor que podemos fazer é esperar o milagre da vacinação em massa ou uma mudança radical na administração da pandemia. Hoje o Brasil é uma ameaça a céu aberto, onde a impunidade na gestão parece ser a regra”.

No início de março, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, apelou ao país para que adotasse “medidas agressivas” contra a pandemia.


“Se o Brasil não levar isto a sério, vai afetar todos os seus vizinhos. Não se trata apenas do Brasil, diz respeito a toda a América Latina”, acrescentou o epidemiologista.

Desde o início da pandemia de SARS-CoV-2 há um ano, foram reportados no Brasil 286.370 óbitos e 11,1 milhão de infetados. Na terça-feira, o Brasil registou 70 mil novos casos de infeção, um aumento de 38 por cento em relação à semana anterior. O aumento foi atribuído à propagação de uma nova variante mais contagiosa.

Apenas 8,6 milhões de pessoas (4,1 por cento da população) receberam a primeira dose da vacina contra a Covid-19, e 2,9 milhões a segunda dose.


O Brasil está a administrar as vacinas do laboratório chinês Sinovac e a vacina da sueca-britânica AstraZeneca/Oxford.

O Ministério da Saúde afirma que está em “negociações” com outros laboratórios e reconhece que “a campanha nacional de vacinação pode ser interrompida por falta de doses”.
“Vão ficar chorando até quando?”
No entanto, o Presidente brasileiro continua a desvalorizar a pandemia e apelou à população para “parar de choramingar”.

Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos que enfrentar os problemas. Quanto mais tempo mais vai ficar em casa e fechar tudo? Ninguém aguenta mais. Lamentamos as mortes, mas precisamos de solução ”, afirmou Bolsanaro na passada semana.
O Presidente brasileiro recusou, já esta semana, decretar um novo lockdown a nível nacional e acrescentou que não vai enviar o exército para a “obrigar o povo a ficar em casa”.

"Alguns querem que eu decrete lockdown. Não vou decretar. E podem ter certeza de uma coisa: o meu Exército não vai para a rua para obrigar o povo a ficar em casa. O meu Exército, que é o Exército de vocês. Fiquem tranquilos no que toca a isso. Agora, vamos ver até onde o Brasil aguenta esse estado. Eu quero paz, tranquilidade, democracia, respeito às instituições. Mas alguns estão se excedendo", afirmou na segunda-feira Bolsonaro a apoiantes, em Brasília.

Referindo-se às novas restrições impostas por vários governadores e prefeitos em todo o país, para travar a disseminação da doença e de novas variantes, como a detetada no Amazonas (P.1), considera pelo próprio Ministério da Saúde brasileiros como "três vezes mais contagiosa" do que a original, Bolsonaro acrescentou: "Parece que está a voltar a onda, o lockdown.. Se coloque no lugar do chefe de família que não tem o que levar para casa".

"Tem um grupo da elite brasileira, de esquerda, me denunciando na ONU, Tribunal Penal Internacional, como genocida, dizendo que o Brasil é uma câmara de gás. (...) Agora, eu pergunto: quem é que obrigou o pessoal a ficar em casa, destruiu milhões de empregos?", criticou ainda Bolsonaro, referindo-se a um manifesto de religiosos e intelectuais que assinaram a “carta aberta à humanidade” denunciando a situação atual do Brasil.
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