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COVID-19
"Perdemos a nossa visão". O território onde a pandemia é desconhecida
Os habitantes do extremo oeste de Myanmar podem nunca ter ouvido falar da pandemia de Covid-19 porque lhes foi cortado o acesso à Internet há um ano. O Governo justifica o corte como uma medida para controlar o conflito que se vive no país, mas esta revelou-se uma estratégia falhada. O apagão resultou num aumento do número de mortes e milhares de habitantes não têm acesso a cuidados de saúde.
Em junho de 2019, o Governo de Myanmar impediu o acesso à Internet em nove municípios entre preocupações de que estivesse a ser utilizada para alimentar conflitos entre militares e insurgentes do país.
A Human Rights Watch e a Amnistia Internacional consideram que o corte ao acesso à Internet está a colocar vidas em risco, não só porque impede as pessoas de denunciar possíveis abusos aos direitos humanos, mas também porque suspendeu campanhas de saúde pública sobre a atual pandemia de Covid-19.
“Com o conflito armado entre os militares de Myanmar e o Exército Arakan (AA) no Estado de Rakhine, a meio de uma pandemia, é fundamental que a população obtenha as informações necessárias para se manter segura”, defende Linda Lakhdhir, consultora jurídica da Human Rights Watch na Ásia, em comunicado. Os dados oficiais do Ministério da Saúde de Myanmar registavam, na segunda-feira, seis mortes e 292 casos de infeção no país.
Uma grande parte dos casos foi detetada nos municípios de Maungdaw e Buthidaung, a norte de Rakhine, onde mais de 100 mil muçulmanos rohingya – a quem autoridades negam cidadania e qualificam como "imigrantes bengali" – vivem em campos de refugiados sobrelotados e sem acesso a cuidados de saúde.
Vítimas de perseguições e de repressão militar em 2017, à qual o Governo justificou como um ataque a rebeldes Rohingya, centenas de milhares de muçulmanos desta minoria fugiram para estes campos onde, desde então, permanecem confinados. A Organização das Nações Unidas (ONU) acusou Myanmar de cometer “crimes contra a humanidade” no Estado de Rakhine e o Tribunal Internacional de Justiça considerou mesmo que os muçulmanos rohingya continuam “em sério risco de genocídio”.
Um novo conflito surgiu entretanto, entre o exército e os rebeldes do grupo étnico budista Rakhine, que representam a maioria desse Estado. Muitos membros deste grupo ficaram igualmente sem abrigo e vivem também nestes campos.
“Não têm medo da Covid-19 porque não sabem o que é”
À medida que a pandemia proliferava pelo mundo no início deste ano, o Governo de Aung San Suu Kyi lançou uma campanha de informação sob o mote “nenhuma pessoa é deixada para trás” sobre prevenção de doenças, referindo, nomeadamente, a importância do distanciamento social.
No entanto, milhares de pessoas não têm conhecimento sobre os cuidados especiais a tomar nesta altura, uma vez que não têm acesso aos avisos de saúde pública que circulam nas redes sociais ou nas páginas governamentais.
“Quando pergunto às pessoas do meu círculo eleitoral se elas estão cientes da Covid-19, tenho de lhes explicar a pandemia global desde o começo”, disse à CNN o deputado Htoot May que representa a Liga Nacional de Democracia Arakan no Parlamento da União da Câmara de Myanmar.
“Eu tenho de lhes explicar o que é o distanciamento social e como higienizar as mãos de forma apropriada”, acrescentou May, lamentando que não tenha possibilidade de informar toda a gente devido às restrições de circulação.
“Eles não têm medo da Covid-19 porque não sabem o que é. Nesta fase, eles estão muito mais preocupados com o conflito”, concluiu o deputado.
“Como se tivéssemos perdido a visão”
Myo Swe, diretor-geral do Ministério dos Transportes e Comunicações, que ordenou o corte à Internet, justificou a sua decisão com o argumento de que “a Internet pode incentivar a instabilidade e atividades destrutivas”.
No entanto, grupos de direitos humanos dizem que este é o maior apagão de internet em todo o mundo e que resultou ainda num aumento do número de mortes na região ao negar informações em tempo real à população. Residentes dizem que é muito mais difícil obter informações sobre os conflitos entre os militares e os insurgentes do AA, que buscam maior autonomia para o Estado de Rakhine. De acordo com a ONU, mais pessoas foram mortas e ficaram feridas este ano do que em 2019. Para além disso, centenas de milhares de pessoas foram deslocadas.
Os habitantes vêm os seus negócios arruinados e são obrigados a fazer viagens arriscadas para zonas de conflito de forma a conseguirem ter acesso a informação, nomeadamente sobre a pandemia, e os médicos reclamam o corte ao acesso a serviços de saúde e a impossibilidade de procurarem na Internet medicamentos para ajudar a população doente.
“É como se tivéssemos perdido a nossa visão”, disse à agência Reuters Ray Than Naddy, de 22 anos, residente em Buthidaung, um dos nove municípios com acesso cortado à Internet.
Um cidadão rohingya, estudante de medicina, estava a aprender inglês através do YouTube e dava conselhos médicos através de vídeos que publicava nas redes sociais, mas desde que lhe foi negado o acesso à Internet, não conseguiu mais desempenhar estas atividades.
“Seria muito mais fácil se eu tivesse Internet”, revelou à agência Reuters.
Críticas na resposta à pandemia
Como em muitos outros países, Myanmar introduziu um toque de recolher obrigatório, proibiu aglomerações e decretou um período de quarentena obrigatória para aqueles que chegavam do exterior para tentar travar a propagação do novo coronavírus.
O Governo aplicou também sanções para aqueles que não cumpriam as medidas de restrição, incluindo sentenças prisionais para quem violasse as ordens de quarentena. De acordo com a CNN, pelo menos 500 pessoas, incluindo crianças, foram condenadas a penas de prisão desde um ano.
A resposta do país parece ter travado a reprodução da Covid-19, mas a estratégia foi alvo de críticas.
A estratégia adotada para combater a pandemia pode revelar-se um ponto contra Aung San Suu Kyi, conselheira de Estado de Myanmar, num ano em que o país se prepara para ir a eleições.