SARS-CoV-2. Índia identifica variante com dupla mutação

A Índia detetou uma nova variante com dupla mutação do SARS-CoV-2, revelou o ministro da Saúde. A descoberta surge numa altura em que o país enfrenta o maior número diário de novos casos. Na quarta-feira foram reportados 47.362 casos de infeção e 275 óbitos.

Cristina Sambado - RTP /
Dylan Martinez - Reuters

A nova variante com dupla mutação do novo coronavírus e 771 outras foram detetadas em amostras recolhidas em 18 Estados indianos.

Das 10.787 amostras recolhidas, 736 deram positivas para a variante do Reino Unido, 34 para a variante da África do Sul e uma para a variante brasileira.


Para já, o Governo descarta a ligação entre o aumento de novos casos e essas variantes.

O Consórcio Indiano em Genómica, que junta dez laboratórios sob alçada do Ministério da Saúde, realizou o sequenciamento genómico das amostras. Trata-se de um processo de teste para mapear todo o código genético de um organismo.

O código genético do vírus funciona como um manual de instruções. As mutações nos vírus são comuns, mas a maioria é insignificante e não causa qualquer alteração na capacidade de transmitir ou causar doenças graves. Mas, em algumas mutações, como as das variantes do Reino Unido ou da África do Sul, podem tornar o vírus mais infeccioso e, em alguns casos, mais letal. A Índia tornou-se o quinto país do mundo a sequenciar o genoma do novo coronavírus depois de o ter isolado em alguns dos primeiros casos em janeiro de 2020.

O virologista Shahid Jameel explicou à BBC que uma dupla mutação ocorre quando “duas mutações que se unem no mesmo vírus”.

“Uma dupla mutação nas principais áreas da proteína spike do vírus pode aumentar esses riscos e permitir que o vírus escape do sistema imunológico e se torne mais infeccioso”, acrescentou.

O proteína spike é a parte que o vírus utiliza para penetrar nas células humanas.

Segundo o Governo indiano, uma análise das amostras recolhidas no Estado de Maharashtra, no oeste do país, revela “um aumento na fração de amostras com as mutações E484Q e L452R”, em comparação com dezembro de 2020.

“Essas mutações [duplas] conferem um escape imunológico e aumentam a infectividade”, revelou o Ministério da Saúde em comunicado.

O virologista Shahid Jameel acrescentou que “pode existir uma linhagem separada em desenvolvimento na Índia com as mutações L452R e E484Q a unirem-se”.

“Embora VOCs [variantes preocupantes] e uma nova variante com dupla mutação tenham sido encontradas na Índia, não foram detetados em número suficiente para estabelecer uma relação direta ou explicar o rápido aumento de casos em alguns Estados”, acrescenta o Governo que nega que o aumento de novos casos esteja relacionado às mutações.

O relatório surge depois de vários especialistas apelarem ao Executivo de Narendra Modi para intensificar os esforços de sequenciamento do genoma.

Shahid Jameel defendeu, no início do mês, que é necessária “uma monitorização constante para garantir que nenhuma das variantes se espalhe pela população. O facto de não estar a acontecer agora não implica que não possa acontecer num futuro próximo. Temos que ter a certeza de que conseguiremos as evidências”.

O último surto da pandemia de Covid-19 na Índia – que começou este mês – ocorre numa altura em que os especialistas afirmam que o país está numa “fase delicada”, com o sistema de saúde exausto depois de um ano de batalha contra o novo coronavírus.

Alguns Estados indianos já começaram a reintroduzir restrições, incluído o toques de recolher e bloqueios periódicos, para tentar travar a disseminação do vírus.

Duas grandes cidades, a capital Nova Deli e Bombaim, pediram testes rápidos aleatórios em aeroportos, estações de comboios e em áreas lotadas, como os centros comerciais.
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