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Transfusões de plasma sanguíneo podem combater o novo coronavírus?

Transfusões de plasma sanguíneo podem combater o novo coronavírus?

Os números de infetados pelo novo coronavírus aumentam a cada dia e, enquanto não há uma vacina, é necessário encontrar tratamentos eficazes para os doentes. Segundo novas investigações, terapêuticas com plasma de pessoas que recuperaram da Covid-19 podem ser uma solução.

RTP /
Andreas Gebert - Reuters

Neste momento, os profissionais de saúde recorrem aos tratamentos disponíveis para garantir que aliviam os sintomas dos doentes mais graves, enquanto o sistema imunitário destes tenta reagir e combater a infeção do novo coronavírus. Mas os investigadores pensam que a solução para tratar do doentes de Covid-19 seja o sangue dos pacientes recuperados.

O uso de plasma como tratamento não é novidade: a transfusão plasmática já foi diversas vezes usada no tratamento de infeções virais. E agora está a ser testada como uma solução no tratamento de doentes com Covid-19, pelo menos até haver uma vacina eficaz.

Além dos tratamentos já em curso, várias multinacionais do setor farmacêutico e terapêutico, a nível internacional, juntaram-se para encontrar um tratamento para a Covid-19, que passa por recolher plasma sanguíneo de pessoas que tenham contraído a doença e estejam totalmente recuperadas.

Para acelerar o desenvolvimento de uma terapêutica hiperimune contra a doença provocada pelo novo coronavírus, vai ser necessária a doação de plasma dessas pessoas que tenham recuperado e cujo sangue contenha anticorpos capazes de combater o novo coronavírus.

O plasma sanguíneo é, basicamente, a parte líquida do sangue e corresponde a 55 por cento do volume sanguíneo total. A sua principal função é o transporte de nutrientes, hormonas e proteínas até às células, sendo que aproximadamente 20 por cento das proteínas encontradas no plasma sanguíneo são anticorpos - produzidos para combater e inativar os agentes patogénicos no organismo.

Depois de o sangue ser colhido de um paciente recuperado, o componente plasmático que contém estes anticorpos é separado dos restantes componentes e administrado através de transfusão a pessoas hospitalizadas e com sintomas graves da Covid-19.

De acordo com os investigadores, os doentes que desenvolvem sintomas mais graves com a infeção pelo novo coronavírus, principalmente a nível do trato respiratório, podem ter o sistema imunitário mais baixo e, por isso, demoram a produzir os anticorpos necessários ao combate desta doença, contrariamente às pessoas que desenvolveram sintomas leves ou são assintomáticas.

A ideia é, assim, usar os anticorpos desenvolvidos pelos pacientes já recuperados nas pessoas ainda doentes e com sintomas graves.
Anticorpos de recuperados podem tratar doentes?

O uso do plasma sanguíneo de pacientes recuperados funciona, uma vez que pessoas que recuperam de uma doença ficam com anticorpos, gerados pelo seu sistema imunitário no plasma. Ao isolar estes anticorpos, pode-se fornecer uma "imunidade passiva" às pessoas que ainda estão doentes.

Já no mês de março foi publicado um estudo com resultados ainda preliminares que revelava que cinco doentes com Covid-19 em estado grave receberam transfusões de plasma convalescente retirado do sangue de doentes recuperados e terão manifestado sinais de melhoria no seu estado clínico.

Na verdade esta técnica é antiga, e com a descoberta de medicamentos, antibióticos e outros tratamentos, acabou por ser pouco usada. No entanto, em 2003 voltou a ser usada na China, no tratamento de algumas pessoas infectadas com a síndrome respiratória aguda grave (SARS), outro coronavírus, assim como no surto de ébola entre 2014 e 2016 na Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa.

Para muitos investigadores esta pode ser a solução até existir uma vacina contra o novo coronavírus. O diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral, Fernando Maltez, considera que os testes com plasma apontam para um tratamento promissor.

Em entrevista à Antena 1, o médico afirmou que já há alguns doentes tratados com esta terapêutica. Contudo, reconheceu que não é um tratamento isento de riscos.

Este tratamento é apenas uma parte da solução, "não é o substituto de uma vacina", esclareceu.

A vantagem deste tratamento é que favorece um tipo de imunidade de ação imediata, ou seja, a disponibilidade de anticorpos no organismo do doente logo após a administração do soro. No entanto, a existência destes anticorpos no sangue do doente é temporária e apenas uma vacina pode conseguir uma imunização ativa e produzida pelo próprio organismo.

A utilização do plasma no tratamento de doentes infetados com covid-19 já começou em diversos países como a China, a Itália, a Alemanha e os Estados Unidos.

Em Portugal, os ensaios clínicos com plasma de doentes recuperados de Covid-19 têm início previsto para o próximo mês de maio, segundo anunciou esta semana o secretário de Estado da Saúde.

"Existe uma vontade grande por parte de diversas instituições de o fazer em termos de ensaios clínicos numa fase inicial", disse António Lacerda Sales.

"Há toda uma tecnologia que tem de ser previamente avaliada", frisou, explicando que vai ser definido um grupo para que se possa avaliar e validar o início destes ensaios clínicos, que podem começar com doentes "moderados e graves".

"Estes ensaios clínicos começarão por doentes moderados e graves, e não muito graves como muitas vezes tem sido transmitido para a opinião pública. Será um pouco esta a estratégia que utilizaremos. Queríamos ver se até ao final do mês podíamos ter toda esta uniformização perfeitamente contemplada para iniciarmos estes ensaios clínicos", disse ainda.

Embora já esteja a ser usada como tratamento, ainda não há dados e estudos suficientes para tirar conclusões sobre a eficácia da transfusão de plasma. Mas os investigadores acreditam que é uma boa solução antes de haver a vacina contra a Covid-19.
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