A atualidade de "Se isto é um homem", de Primo Levi, em cena no teatro municipal de Almada

Lisboa, 28 nov 2019 (Lusa) -- O "sentido poético, filosófico e humano" de "Se isto é um homem", de Primo Levi, levou o encenador Rogério Carvalho a pôr o texto em cena, a partir de sexta-feira, na sala Experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

Lusa /

"Aquele texto tem uma escrita própria. Tem tudo aquilo que nós em teatro consideramos necessário para tornar as coisas profundas", disse Rogério Carvalho, numa entrevista à agência Lusa, a propósito da apresentação da peça estreada em julho último, no âmbito da 36.ª edição do Festival de Almada, onde foi apresentada com lotação quase sempre esgotada, e que agora regressa integrada na programação regular do teatro.

A mensagem que o químico e escritor italiano de origem judaica, prisioneiro dos campos de extermínio nazis, sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, deixou para as gerações vindouras naquela obra autobiográfica foi outro dos motivos que levou Rogério de Carvalho até à obra.

O encenador concebeu assim um monólogo, aqui interpretado por Cláudio da Silva, no qual o ator incorpora personagens que vão do narrador (autor), a companheiros de prisão, mas também aos "carrascos" nazis.

O início da peça estabelece desde logo o contexto da ação: "Foi uma sorte para mim ter sido deportado para Auschwitz só em 1944, depois de o governo alemão, devido à crescente escassez de mão-de-obra, ter decidido prolongar a vida dos prisioneiros a eliminar", afirma o ator em cena.

A partir daqui, 11 etapas se sucedem, desde "A viagem", quando Primo Levi foi capturado pela milícia fascista, em 13 de dezembro de 1943, como membro de uma pequena brigada de `partigiani`: "No fundo", "O vestíbulo do Inferno" (como o autor lhe chama no texto, onde os prisioneiros eram fechados), "Ka-be" (a enfermaria), "As nossas noites", "Exame de química", "Os acontecimentos do Verão", "Outubro de 1944", " Die drei leute vom labor" ("Os três detidos escolhidos para o laboratório"), "O último" e "História de dez dias".

Rogério de Carvalho decidiu trazer "Se isto é um homem" para os palcos portugueses, pela primeira vez, depois de "não ter ficado agradado" com o que viu da peça feita por autores estrangeiros (em inglês, feita por Antony Sher, e na Suécia, encenada por Lars Norén), como disse à Lusa.

Entre a captura de Primo Levi pelas milícias fascistas, em 1944, e 27 de janeiro de 1945, quando as tropas russas chegam ao campo de extermínio e libertam os prisioneiros, Cláudio da Silva vai-se transfigurando à medida que vai interpretando um ror de personagens, num texto que considera de uma intensidade psicológica incomensurável e que, depois de o dizer, "sente uma espécie de esvaziar, de libertar".

"Tenho a sensação de que, às vezes, fico um bocado vazio no fim, pela experiência que vivo em palco", disse o ator à Lusa.

Este não é o primeiro monólogo de Cláudio da Silva. O ator esteve sozinho em cena com "O papagaio de Céline", de João Samões, a partir da "Viagem ao Fim da Noite", de Céline e, no cinema, assumiu o "Filme de Desassossego", de João Botelho, a partir do "Livro de Desassossego", de Fernando Pessoa/Bernardo Soares.

Nesta peça, à semelhança do que já aconteceu noutros casos, o ator confessa viver "uma experiência humana, com pessoas, várias, que vêm ver um acontecimento humano".

"É isto que o teatro pede", frisou o ator, sem deixar de sublinhar a atualidade da obra, e como "se apresenta como uma memória imprescindível", face ao momentos que vivemos.

"Num tempo em que vivemos o crescimento da intolerância, o crescimento do fascismo, do nacionalismo, da discriminação, penso que este texto nos coloca num lugar de perguntar o que é um ser humano", sublinhou.

"E se estas pessoas ainda eram seres humanos", já que, entre outras coisas que lhes foram retiradas de forma brutal, disse, também lhes foi retirada "a linguagem". E impõe-se a questão "se queremos que isto venha a acontecer outra vez".

"Porque há pessoas que querem que isto volte a acontecer, e isso é preocupante", afirmou o ator à Lusa.

Durante "muito tempo, essas pessoas não se manifestavam com essas intenções, e cada dia [que passa] está mais evidente, parece mais desbocada essa intenção", sublinhou, enfatizando ainda a forma como "isso é dito e não é punido, nem rechaçado, quase como se tivéssemos medo de dizer que não a isso".

"Porque vamos aceitando... Os Trumps começam a crescer, os Bolsonaros, os Erdogans... Em Portugal começam a crescer os `chegas` e as pessoas começam todas a manifestar-se contra os refugiados e isso não é rechaçado, e aí tona-se preocupante, porque é fácil essas coisas imporem-se", prosseguiu.

"E não se pode usar o argumento de se ser democrático para se aceitar tudo. Porque o que é `anti-tudo` não pode ser aceite dentro do tudo", concluiu Cláudio da Silva.

Em cena até 15 de dezembro, "Se isto é um homem" tem espetáculos às quartas-feiras, às 19:00, às quintas-feiras e sábados, às 21:00, e, aos domingos, às 17:00.

Numa cenografia de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, com tradução de Simonetta Neto, luz de Guilherme Frazão, som de Miguel Laureano, pintura de cena de Diogo Costa, e com Marcos Trindade na assistência de encenação, Cláudio da Silva `mergulha`, ao longo de hora e meia, em vários registos.

E para sair de um registo, desde o inicial, de narrador, até chegar ao fim da peça, "é preciso estar mesmo empapado da lama toda", disse Rogério de Carvalho, num elogio ao trabalho do ator "que dá a palavra" de Primo Levi a ouvir.

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