A ciência na Rússia bolchevique e na URSS

por Nuno Patrício - RTP
Foto: Direitos Reservados

Volodymyr Tkach, cientista da Universidade Nacional de Chernivtsi, Ucrânia, traçou em entrevista à RTP o balanço controverso do período iniciado com a subida dos bolcheviques ao poder.

Tkach, doutorado em Físico-Química, autor de mais de 90 publicações nessa área, estuda o desempenho eletroanalítico de várias substâncias modificadoras com vários analitos, bem como o desenvolvimento de novos sistemas eletroanalíticos eficazes.

Ele é também um profundo conhecedor da história da ciência soviética, e por ocasião do centenário da Revolução de Outubro concedeu ao online da RTP uma entrevista sobre o tema.

O nosso olhar, hoje, sobre o balanço científico da revolução deve partir da constatação de que as revoluções e as guerras, do ponto de vista humano, são destrutivas, mas são também estas, na grande maioria, o combustível necessário para o avanço da ciência.

Neste campo o período pós revolução russa não foi exceção, e foi em grande parte pela má experiencia adquirida durante a participação na Primeira Grande Guerra que a Rússia deu mais valor à ciência.

Na Primeira Grande Guerra, a situação interna russa era calamitosa: falta de mantimentos para a população, sobreexploração dos trabalhadores (urbanos e rurais) e forte contestação ao poder do czar Nicolau II.

Nos campos de batalha os soldados russos eram obrigados a racionar as munições e sofriam com a superioridade bélica dos inimigos. A Rússia não tinha condições financeiras e materiais para manter os seus combatentes na guerra.

Em outubro de 1917 a chamada Revolução Russa vive um dos seus momentos decisivos, após a subida dos bolcheviques ao poder, que leva à saída de uma Rússia derrotada num conflito mundial desigual.

Vladimir Lenine fica ao leme de um território pré-industrializado, com uma enorme massa camponesa, em grande parte desmoralizada.

Saídos da guerra mundial e feridos no seu orgulho, os russos sentem necessidade de se reerguer e mostram-se ao mundo com uma filosofia de vida baseada no socialismo. Em 1922, forma-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, regime que durou até 1991.
Socialismo acima de Deus e da ciência
Com todo o processo introduzido pela revolução russa em 1917, o desenvolvimento científico na antiga União Soviética criou algumas dicotomias.

Se, por um lado, o governo de então apoiava fortemente o desenvolvimento na área das ciências fundamentais, deparava-se com limitações no que dizia respeito aos agentes científicos.

Exemplo disso é o caso dos estudos genéticos, durante os anos 30 e 40 do século XX, muitos deles estavam interligados com os estudos teológicos e bizantinos.

Como o governo soviético se desvinculou de um credo religioso, que tinha por pilar durante a governação de Nicolau II, parte das faculdades de teologia foram extintas, mas não só.

O controlo sobre as academias universitárias soviéticas era notório, de tal forma que se assistiu à transferência de algumas universidades para locais com maior peso demográfico e político.

Segundo Volodymyr Tkach, “houve muito progresso nas áreas de matemática e ciências físico-químicas. Mesmo assim houve retrocessos, principalmente na questão tecnológica e informática".

"Como é natural, para fazer ciência de boa qualidade é preciso um regime democrático para soltar a mente. E isso vale não só na União Soviética, como para os ex-países soviéticos, e para o mundo todo.”

O controlo do ensino superior até meados dos anos 80 do século XX exigia dos estudantes e investigadores uma forte disciplina doutrinária assente nas teorias marxistas-leninistas, obrigando muitos dos investigadores, por falta de oportunidades, à resignação e estagnação científica.

Poucos foram os que, aproveitando as raras conferências internacionais, conseguiram escapar ao sistema impositivo soviético, conseguindo desta forma prosseguir as investigações consideradas indesejáveis ou mesmo proscritas.

“Houve fuga de alguns cérebros. Andre Geim e Konstantin Novoselov laureados pelo prémio nobel, em 2010, pela descoberta do grafeno, representam um bom exemplo. Geim e Novoselov, nos anos 70, saíram da União Soviética para a Holanda porque a sua convicção política estava indo contra o que estipulava o governo.”

O atraso científico que se escondia ao ocidente
“O segredo é a alma do negócio”, diz o povo. Palavras populares que eram seguidas à letra pelo sistema governamental russo.

Muito embora a investigação científica, em sistema aberto, fosse incentivada, todo o conhecimento final tinha de desembocar nas teorias académicas pré-concebidas com base na doutrina socialista. Se assim não acontecesse, não teria aval positivo.

Na conversa com a RTP, Volodymyr Tkach confessa que o principal medo do sistema soviético era sobre a fuga de informação e conhecimento, que de alguma forma revelasse o atraso e as obrigações políticas a que os investigadores estavam sujeitos.

Outra das questões, diz Tkach, era a questão das revistas científicas cuja credibilidade era duvidosa. Muitos pagavam aos editores para de alguma forma autopromoverem investigações que não tinham validade científica.

“Na União Soviética havia muitas revistas científicas e naquela altura quase todas as universidades tinham os seus próprios anais, mas para publicar um trabalho numa revista internacional, para dar relevo aos seus trabalhos, primeiro era preciso publicá-los internamente, e só depois de serem bem analisados (censura), é que eram enviados para fora. O que contrariava as diretrizes dos autores de qualquer publicação científica mundial.”

Durante os anos 30, foi criada uma entidade comissionária que supervisionava e atestava as teses e investigações produzidas. Toda a ciência produzida nas repúblicas soviéticas tinha de passar por este crivo.

Caso as linhas orientadoras não estivessem de acordo com as linhas políticas existentes, autores e investigações eram basicamente excluídos. Se porventura os investigadores prosseguissem com as investigações, numa clara demonstração de validar as mesmas, a justiça política ditava que estes seriam opositores ao regime, condenando-os juridicamente a penas que poderiam ir até à prisão perpétua.
Uma ciência livre em corpo recluso
No final dos anos 30 e com uma ofensiva bélica a ameaçar as fronteiras, a União Soviética enfrentava-se com um novo dilema: como continuar a mostrar a doutrina impositiva para dentro, e como demonstrar a resistência do sistema ao exterior.

Se por um lado não podia ceder no campo científico académico oficial, por outro não podia permanecer parada perante a necessidade de uma evolução bélica urgente.

A solução passava então pelo aproveitamento das mentes oprimidas pelo sistema. Enclausurados os cientistas, era a própria ciência que agora permitia ao poder político-militar a criação de novas formas de superioridade.

Sob um regime escondido, as investigações e a criação científica decorria sem ter de dar resposta a ideologias e crenças políticas, desde que servissem os intuitos militares, como explica Volodymyr Tkach, à RTP.

“Em 1944, o professor Zavoisky inventou o método de identificação de radicais livres por ressonância eletrónica magnética, mas foi num laboratório dedicado à pesquisa militar, quando o exército soviético estava a precisar de novo esforço militar e tecnológico".

"É possível concluir que neste caso o setor bélico movia o progresso. Muito deste esforço científico foi criado antes da Segunda Guerra Mundial, ainda durante a vida de Estaline.”

Da ciência da guerra ao espaço
Muita da ciência produzida na URSS não provinha apenas das mentes nacionais. São os investigadores mais oprimidos, alguns deles emigrantes, que aproveitavam a componente bélica para criar as suas obras científicas.

Nomes com Igor Sikorsky, construtor dos primeiros aviões e helicópteros modernos, Vladimir Zworykin, inventor da televisão, o químico Ilya Prigogine, conhecido por seu trabalho sobre estruturas dissipativas e sistemas complexos, entre muitos outros.

Dentro das invenções russas ligadas às tecnologias bélicas podemos destacar Nikolai Benardos que desenvolveu a soldadura, Gleb Kotelnikov que inventou o páraquedas de mochila, Evgueni Tchertovsky com a introdução do traje pressurizado.

Mas também na indústria civil se destacam nomes como os de Alexander Lodiguin e Pavel Iablotchkov, pioneiros da iluminação elétrica, e Mikhail Dolivo-Dobrovolski, que introduziu os primeiros sistemas trifásicos de energia elétrica, ainda usados nos dias de hoje.

Um dos feitos mais notáveis da ainda URSS foi cometido durante a fase designada como Guerra Fria. A ciência virava-se agora para o espaço, não tanto como conquista de novos territórios, mas sim como factor de supremacia militar e tecnológica.

Neste sentido um dos mais promissores cientistas soviéticos foi Konstantin Tsiolkovsky, considerado ainda hoje pai da astronáutica teórica, dando à URSS a primazia na conquista espacial.

Volodymyr Tkach confirma esses avanços científicos, mas não entrega todos os louros às mentes soviéticas: “Como eles obtiveram os esquemas dos mísseis? Obtendo os documentos da Alemanha nazi, do V-2. Melhorando esses esquema,s conseguiram os primeiros foguetões”.

Apesar da evolução dos tempos e da demonstração prática de que a ciência se faz com liberdade, a opressão da mente científica na salvaguarda de interesses políticos continua a fazer parte do atual regime político russo.

Muitos dos investigadores russos continuam subjugados ao poder politico, restringidos pelo poder económico debilitado, ainda muito ligado aos fantasmas do passado de um século iniciado com a revolução.
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