A detenção de Calouste Gulbenkian pela PIDE
Calouste Gulbenkian foi detido, em 1942, pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, antecessora da PIDE), por recusar ceder ao Governo quartos que tinha alugado no hotel onde vivia, em Lisboa.
O episódio, incluído numa cronologia da Fundação Calouste Gulbenkian sobre os principais factos da vida do fundador, revela que a detenção aconteceu no dia 17 de dezembro de 1942 e durou quatro horas.
"Depois apareceu o advogado. Foi uma coisa de um dia ou assim. Mas isto é interessante como episódio, porque mostra como tudo podia ter corrido mal e ele, pura e simplesmente, ter desistido de fazer o testamento a favor de Portugal", disse à agência Lusa a historiadora Irene Flunser Pimentel.
Calouste Sarkis Gulbenkian estava alojado no Hotel Aviz, onde tinha vários quartos reservados, para si e para os funcionários mais próximos que o acompanhavam, quando o Governo português requisitou as instalações para "uma missão diplomática espanhola", de acordo com a informação disponível na Fundação.
"No final desse ano, vem uma delegação da Espanha franquista a Portugal", recordou a historiadora, referindo que Gulbenkian acabou por autorizar a cedência dos quartos, depois de ser "muito pressionado".
Tudo aconteceu antes de Calouste Gulbenkian obter a autorização de residência em Portugal, em 1951.
"Ele estava a pensar instalar-se aqui ou em Londres e tinha muitas coisas em Paris, aliás o grosso das obras", recordou Irene Pimentel, em entrevista à Lusa, no âmbito dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, que se assinalam em julho.
No percurso de Gulbenkian, filho de uma abastada família arménia, havia já uma detenção, em 1916.
Ao atravessar o Canal da Mancha, foi detido pelas autoridades britânicas, "sob o pretexto de continuar a ser consultor financeiro do Império Otomano", segundo os registos da Fundação.
Calouste Gulbenkian (1869 -- 1955) acabou por ficar em Portugal, numa altura de incerteza, em plena II Guerra Mundial (1939-1945). "Ainda não se sabia sequer se Portugal podia ser ocupado pela Alemanha", recordou.
"Foi muito importante, quando ele morre, em 1955, que o testamento acabe por deixar as coisas em Portugal. Mas podia ter sido o contrário, porque um tipo que é preso!", afirmou a historiadora.
"Na altura [da detenção], ele ficou muito ofendido", referiu Irene Pimentel, para quem o advogado e primeiro presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão, terá tido um papel na decisão de Gulbenkian. "Depois, o Estado português fez tudo também para que as coisas ficassem aqui", acrescentou.
No testamento datado de 1950, o empresário estabeleceu que o destino a dar às obras de arte que colecionava deveria passar pela distribuição da coleção por diferentes museus, que trabalhariam em articulação, ou pela concentração do espólio numa instituição central, a criar, "conhecida por Fundação Calouste Gulbenkian", com fins educativos, artísticos e de beneficência.