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A história da cidade de Santiago e da irmã gémea Alcatrazes

A história da cidade de Santiago e da irmã gémea Alcatrazes

A Cidade Velha, em Santiago, candidata a património mundial e considerada a primeira cidade de Cabo Verde, tem uma irmã gémea, Alcatrazes, da qual apenas restam pedaços de uma igreja.

Agência LUSA /

Localizada na parte oriental da ilha de Santiago, perto de uma baía desolada, Alcatrazes teria sido a segunda povoação de Cabo Verde, desenvolvida ao mesmo tempo que Ribeira Grande (Cidade Velha), mas rapidamente abandonada devido à aridez do local.

Hoje, do local, restam os escombros de uma igreja, que o padre António Cachada procurou reconstruir nos anos 70, colocando de pé da melhor forma que soube paredes que tinham ido parar ao mar e dando alguma dignidade a um lugar que apenas servia para as cabras exercitarem os seus saltos.

Mais tarde, mesmo ao lado da velha construção, fez-se uma nova igreja.

Do conjunto resultou uma aberração arquitectónica e os vestígios históricos de Alcatrazes correm o risco de desaparecer completamente.

Para António Cachada é grave se tal acontecer. É uma parte importante da história do país que desaparece.

Uma história que começa em 1460, quando as ilhas de Cabo Verde foram encontradas, ainda no tempo do Infante D. Henrique, por António de Noli (genovês ao serviço da coroa portuguesa) e Diogo Gomes, navegador português (as ilhas do Barlavento - Santo Antão, São Vicente e São Nicolau foram encontradas depois).

O reino decidiu então povoar a maior ilha, Santiago, dividida em duas capitanias. António de Noli recebeu a Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, e Alcatrazes, hoje Nossa Senhora da Luz, ficou com Diogo Afonso, que descobrira as ilhas do Barlavento.

António de Noli chegou à Ribeira Grande como capitão-donatário dois anos depois da descoberta, com família, amigos e trabalhadores contratados, estabelecendo aí o primeiro povoado.

Mas logo a seguir, provavelmente no mesmo ano de 1462, Diogo Afonso começava a edificar Alcatrazes, que segundo documentos históricos começou a ser gradualmente abandonada cerca de 50 anos depois.

Ilídio do Amaral, no livro "Santiago de Cabo Verde, a Terra e os Homens", escreve que Alcatrazes, "situada sobre uma achada árida e pedregosa", começou a ver desaparecer as primeiras casas em 1516, com os habitantes a mudarem-se para a Ribeira Grande, uns, e outros para uma nova povoação que estava a surgir, Praia.

"Da povoação (...) parece restar a pequena e singela capela de Nossa Senhora da Luz, muito semelhante na sua traça geral a outras capelinhas dos primeiros tempos de colonização", diz o livro, fazendo referência a um escudo com as armas de D. Afonso V no alto da parede norte do altar.

O escudo ainda lá está, de facto, mas já não na igreja, colocado agora na parede de uma pequena capela "de memória" que o antigo padre da localidade António Cachada mandou construir. "Para o proteger", justifica hoje.

Aliás, diz, tudo o que fez naquela que será a segunda mais antiga igreja de Cabo Verde foi para a proteger, porque "a parte norte caiu toda", bem como o arco em ogiva, bem como parte do altar.

"Mas juntamos tudo com pedra seca (sem massa) para que se fosse preciso, em termos de preservação de monumentos, poder tirar-se", justifica, explicando que a pequena capela que mandou construir ao lado da antiga igreja também serviu para guardar as pedras tumulares que foram encontradas degradadas em frente da antiga igreja.

António Cachada já não é hoje pároco em Nossa Senhora da Luz, mas tal como o actual responsável pela igreja, o padre Fernando, gostaria de ver o monumento preservado, até porque foi dos primeiros a ser construído em Cabo Verde.

Aliás, defende, Alcatrazes foi porto de abrigo dos primeiros marinheiros que chegaram às ilhas, que só depois levantaram ferro para chegar à Ribeira Grande, provavelmente desencantados com a aridez do local.

E quando ali se estabeleceu uma povoação foi até construída, além da igreja, uma capela, a capela de Santana, da qual ainda existiam alguns restos nos anos 60 e 70.

Outros tempos. Hoje nem sobrevive a antiquíssima pia baptismal que existia entre os restos da igreja de Alcatrazes, rebentada no ano passado pelo calor de velas acesas que lhe puseram dentro.

E dos azulejos que adornavam as paredes ficaram meia dúzia, hoje dentro de uma pia de água benta, aparentemente também quinhentista, numa arrecadação.

E se calhar, além dos padres, ninguém se importa. Quando se vê, aos domingos, os que chegam à nova igreja, caminhando descalços ou de chinelos por caminhos pedregosos, com os sapatos na mão para não os estragar, entende que deve haver prioridades mais importantes do que azulejos e pedras de há 500 anos.

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