"A Morte de Carlos Gardel", das páginas impressas para uma sala perto de si

Lisboa, 16 set (Lusa) -- António Lobo Antunes deu-lhe carta branca e Solveig Nordlund adaptou ao cinema "A Morte de Carlos Gardel", um romance sobre a culpa publicado em 1994, sobre o qual a cineasta diz: "O maior desafio foi fazer passar a emoção".

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O resultado estreia-se a 24 de setembro nas salas portuguesas mas, antes disso, o filme será exibido em antestreia no sábado, no Teatro São Luiz, em Lisboa, no âmbito de um ciclo dedicado à obra do escritor com que aquele teatro municipal abriu a sua temporada.

Em entrevista à Lusa, a cineasta sueca naturalizada portuguesa explicou a sua escolha, que não é óbvia, até porque, na sua opinião, não se trata de um autor cuja escrita seja particularmente cinematográfica.

"Sou uma admiradora e, como fiz um documentário sobre a obra dele e tenho também o projeto de fazer uma peça de teatro baseada numa obra dele, já estava dentro da sua linguagem e foi bastante natural a escolha", indicou.

Sobre as razões pelas quais quis filmar "A Morte de Carlos Gardel", Solveig Nordlund disse: "Eu achei que era muito emocionante e, de entre os livros, é o que tem uma cadeia de acontecimentos que são mais palpáveis. Normalmente, os livros dele são muito os pensamentos e memórias interiores e aqui, de facto, há uma história, há uma continuação de acontecimentos".

Em "A Morte de Carlos Gardel" estão presentes os tangos do cantor argentino e também a morte -- não a sua, mas a de Nuno (Carlos Malvarez), filho do protagonista, Álvaro (Rui Morrison).

Nuno é um jovem toxicodependente que está em coma no hospital e, durante os dois dias em que está entre a vida e a morte, a família vai visitá-lo, recordando durante as visitas pedaços de cenas do passado, através das quais se entende o seu presente, como desembocou ali.

Todos eles -- os pais divorciados, Álvaro e Cláudia (Celia Williams), com as respetivas novas relações disfuncionais, e Graça (Teresa Gafeira), a tia médica que nunca terá filhos porque é lésbica e vive com Cristiana -- sentem culpa pelo estado de Nuno, pelos desalentos da vida e também pelos sonhos que alimentaram.

E agora o pai, Álvaro, apaixonado por tango, recusa-se a aceitar a morte do filho, deixando-se arrastar numa espiral de delírio que o leva a confundir um imitador, o senhor Seixas (Ruy de Carvalho), com o seu cantor de tango preferido e já falecido, Carlos Gardel.

Trata-se de um projeto que a realizadora já tinha "há bastante tempo" e que, pensa, "está bastante maturado".

"Vai-se aprofundando à medida que o tempo passa. Mas não foi difícil e o António Lobo Antunes deu-me mãos livres e eu escrevi aquilo que entendi", revelou.

"O maior desafio acho que é mesmo fazer passar a emoção. O livro também vive de ser muito emocionante e foi isso que eu também tentei: que as pessoas ficassem agarradas às personagens e compreendessem quem é quem, porquê, etc.", observou.

E o tema central da história, a culpa, "tem muito a ver com uma certa geração em Portugal", opinou.

"Houve muitos casos destes, que são um bocadinho os filhos do 25 de Abril: aqueles que nasceram e eram pequeninos nessa altura, que depois apanharam a liberdade e... Esta história é uma entre muitas, em que os pais não sabiam bem o que fazer, não percebiam, ou sabiam mas não agiam... Por isso, acho que toda a gente sente culpa de não ter feito mais", sustentou.

A cineasta indicou ainda que António Lobo Antunes não quis acompanhar o processo de adaptação e rodagem do filme.

"Ele disse que um filme é um filme e um livro é um livro e, portanto, não se meteu nada nisso", comentou.

O escritor ainda não viu o filme e Solveig Nordlund espera que ele vá no sábado à projeção que decorrerá na sala principal do São Luiz a partir das 21:00, a que se seguirá uma conversa com a realizadora e o produtor da Fado Filmes, Luís Galvão Teles.

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