A música é para todos, ouvintes e surdos, a forma de "ouvir" é que é diferente, diz Mãos Que Cantam
Num dos últimos dias de fevereiro, nem o frio intenso desmotivou os elementos do Mãos Que Cantam a dirigirem-se, ao início da noite, para um dos pavilhões do antigo Mercado do Rato, em Lisboa.
Junto às bancas de venda de produtos alimentares, agora transformadas em expositores de livros, utensílios úteis, ferramentas, etc., que irão ter nova vida nas mãos de pessoas necessitadas apoiadas pelo projeto D. Ajuda, os cantores aproximam-se do computador portátil de Sérgio Peixoto, onde é reproduzido o hino da Jornada Mundial da Juventude.
Ali, vão repetindo à exaustão os gestos que vão transmitir, a quem tiver oportunidade de os ver, as emoções que os ouvintes sentem através da audição.
Débora Carmo, de 43 anos e há 12 no coro, explica à Lusa, com a mediação da intérprete Sofia Figueiredo, que a música, para si, "é sentir e é visual".
"Há sempre aquele rótulo de que a música é somente para pessoas ouvintes, mas na verdade é uma ideia que está errada. A música é para todos. A única diferença que tem é a maneira como se sente: nas pessoas ouvintes é através da audição que o canto lhes chega, que a música chega, a nós é através do sentimento, através da vibração e também através dos nossos olhos, através de uma forma visual do movimento. E nós sentimos desta forma a música" afirma.
E quando está a cantar, será que sente a ligação com o público? Débora é perentória: "Sim, sim. Há sempre ligação a 100% com o público, a expressão do público, tudo isso é emocionante".
"É uma emoção que nos chega e nota-se que as pessoas, na verdade, estão a sentir toda a atuação e ficam muito admiradas: como é que é possível, a música? Porque não imaginam que os surdos podem cantar em Língua Gestual Portuguesa e as pessoas ouvintes podem ouvir e podem visionar, podem ver todo o espetáculo e assimilar tudo isso. É muito emocionante mesmo", assegura.
Esta mulher entusiasta da participação em espetáculos, não esquece um na Fundação Calouste Gulbenkian. "Tínhamos um público imenso e nós, na verdade, estávamos em concerto. Era um concerto nosso e foram várias músicas e aí foi possivelmente aquele que mais me marcou e que mais gostei.
E no fim as pessoas interagiram muito connosco, fizeram muitas perguntas. Foi muito bom, muito bom, na verdade".
Muito boa espera que seja também a participação do Mãos Que Cantam na JMJ.
"Participar na Jornada Mundial da Juventude é um marco muito importante para nós e é também uma grande responsabilidade, porque o mundo vai estar todo de olhos postos em nós. E este projeto é, de facto, um projeto original, pioneiro e, portanto, é uma grande responsabilidade", sublinha, mostrando o orgulho da participação, pela primeira vez, de surdos no coro de uma Jornada.
"Em Portugal, ter este projeto é, de facto, muito inovador e é uma grande marca que fica. E nós temos um orgulho imenso em participar", acrescenta.
Também Carlos Gonçalves, de 59 anos e há seis no Mãos Que Cantam, não esconde que é "uma participação muito relevante".
"A Jornada Mundial da Juventude é um espaço aberto a todas as comunidades. Mas, estarmos presentes enquanto pessoas surdas, poderem visionar, ver-nos, ver a música, aceder através do sentimento, do ritmo, estarmos todos ali em igualdade, com a Língua Gestual Portuguesa, uma forma também artística, estarmos todos em conjunto, em comunhão, é muito importante, e é uma abertura também para que possam ver uma perspetiva diferente de um outro mundo que, antigamente, possivelmente, não se pensava que existia", afirma.
Reconhecendo que, em termos musicais, gosta de rock, do "movimento" que o remete para a juventude, não esconde que no coro tem vindo a aperceber-se de outros registos.
"Tenho gostado muito daquilo que nós fazemos, do estilo que utilizamos", diz Carlos Gonçalves, admitindo que antes de entrar no coro nem cantava muito. "Na verdade, na minha altura, no tempo em que eu era mais jovem, havia música, sentíamos muita vibração e tudo isso e gostávamos muito, em família, de estar juntos, sentir a música de uma forma visual, tentar assimilá-la através do movimento".
Com o passar dos anos, a música foi posta um bocadinho de lado, mas a família, a mulher e as filhas, incentivaram-no a integrar o Mãos Que Cantam: "vai, vai participar, tens muita expressão, és muito expressivo! E pronto, assim foi, entrei no grupo e sinto-me muito bem em participar".
Não esconde que gostaria de ver mais pessoas a integrar o projeto, mas isso "depende sempre do interesse de cada um, da vontade".
"Nós estamos sempre abertos a outras pessoas e vêm-nos ver muito aos espetáculos. É uma forma também de promovermos a língua, o projeto", afirma, antes de mais um momento de concentração para novo ensaio do refrão do hino da Jornada, que será repetido à exaustão para que tudo fique perfeito até agosto.