Cultura
A obra literária total de Modiano
Sempre discreto e modesto nas suas declarações e entrevistas e relativamente desconhecido fora do mundo francófono, Patrick Modiano não tem agora como escapar à posteridade da sua obra, marcada por uma falsa nostalgia da infância e pelas memórias da Ocupação Nazi.
Quando em 1957 Albert Camus era distinguido pela Academia Real da Suécia com o prémio Nobel da Literatura, Patrick Modiano tinha 12 anos e vivia a adolescência nos subúrbios de Paris, período que tanto tem inspirado a sua profícua escrita. Hoje considera “irreal” ser laureado com o mesmo prémio que distinguiu o escritor que admira desde aquela altura.
Os escritores gauleses são, aliás, os que mais vezes foram distinguidos pelos prémios Nobel desde 1901. Ao todo, são 15 os autores de nacionalidade francesa que o comité sueco nomeou, incluindo Jean-Paul Sartre, que se recusou a receber o prémio, em 1964.
A procura incessante de um tempo perdido
Este é o tema recorrente das obras de Modiano. Em Rue des Boutiques Obscures, o autor dá vida a um homem parisiense que procura a personalidade que perdeu durante a ocupação nazi. As marcas deixadas pela Segunda Guerra Mundial na memória coletiva repetem-se nas páginas de Voyage de Noces, onde a noção de tempo e espaço aparece indefinida e desordenada, de um homem que decide partir em busca de uma realidade passada, e abandona abruptamente o trabalho e a mulher. Na viagem encontra os “oásis” da costa francesa, onde o mundo ignora a guerra que acontece à sua volta sem que disso se aperceba.
As relações da França com os nazis conquistaram um papel central nos romances de Modiano, muito por influência das próprias origens do escritor, descendente de pai judeu e mãe flamenca, que se cruzaram pela primeira vez durante a Ocupação da França durante a II Grande Guerra.
Discípulo do escritor surrealista Raymond Queneau, as obras de Modiano apresentam as temáticas da memória, esquecimento, identidade e perda, um ponto de contato com outros históricos franceses. A própria Academia Sueca apresentou-o como “o Marcel Proust dos nossos tempos”.
Peter Englund, representante do comité que escolheu o laureado, comentava depois do anúncio desta quinta-feira: “Todos os livros que escreveu estão em correspondência uns com os outros, e acho que isso é único”. Destaca a escrita estilisticamente curta e económica, e acrescenta que o recurso constante aos mesmos temas não cansa: “estes tópicos não podem ser esgotados”.
Versões diferentes, o mesmo livro
É o próprio Modiano que questiona a decisão do júri responsável pela atribuição do Nobel. Em conferência de imprensa, na sede da editora que o representa, a Gallimard, o escritor reagia esta quinta-feira com incredulidade à distinção da Academia Sueca, e confessava-se espantado por uma decisão estranha: “Tenho a sensação de estar a escrever o mesmo livro há 45 anos”.
Numa entrevista dada ao jornal espanhol El País em 2009, o autor fala precisamente das obsessões que aguçam o espetro das suas personagens repetitivas, quase autobiográficas, e justifica a procura do desconhecido por ser um autor “do século XX e do século XXI”, uma época em que “tudo é fragmentado” e o anonimato está constantemente presente.
Um anonimato e descaraterização que procura também na cidade onde cresceu, onde é difícil fazer a separação do centro parisiense, cheio de monumentos. Por isso mesmo, a ação decorre frequentemente no 16º arrondissement, região suburbana onde muita gente era dada como desaparecida durante a infância de Modiano. “É um bairro anónimo e banal onde cada um pode criar coisas”. Os outros bairros, explica, bloqueariam a imaginação por via da própria História.
Os escritores gauleses são, aliás, os que mais vezes foram distinguidos pelos prémios Nobel desde 1901. Ao todo, são 15 os autores de nacionalidade francesa que o comité sueco nomeou, incluindo Jean-Paul Sartre, que se recusou a receber o prémio, em 1964.
A procura incessante de um tempo perdido
Este é o tema recorrente das obras de Modiano. Em Rue des Boutiques Obscures, o autor dá vida a um homem parisiense que procura a personalidade que perdeu durante a ocupação nazi. As marcas deixadas pela Segunda Guerra Mundial na memória coletiva repetem-se nas páginas de Voyage de Noces, onde a noção de tempo e espaço aparece indefinida e desordenada, de um homem que decide partir em busca de uma realidade passada, e abandona abruptamente o trabalho e a mulher. Na viagem encontra os “oásis” da costa francesa, onde o mundo ignora a guerra que acontece à sua volta sem que disso se aperceba.
As relações da França com os nazis conquistaram um papel central nos romances de Modiano, muito por influência das próprias origens do escritor, descendente de pai judeu e mãe flamenca, que se cruzaram pela primeira vez durante a Ocupação da França durante a II Grande Guerra.
Discípulo do escritor surrealista Raymond Queneau, as obras de Modiano apresentam as temáticas da memória, esquecimento, identidade e perda, um ponto de contato com outros históricos franceses. A própria Academia Sueca apresentou-o como “o Marcel Proust dos nossos tempos”.
Peter Englund, representante do comité que escolheu o laureado, comentava depois do anúncio desta quinta-feira: “Todos os livros que escreveu estão em correspondência uns com os outros, e acho que isso é único”. Destaca a escrita estilisticamente curta e económica, e acrescenta que o recurso constante aos mesmos temas não cansa: “estes tópicos não podem ser esgotados”.
Versões diferentes, o mesmo livro
É o próprio Modiano que questiona a decisão do júri responsável pela atribuição do Nobel. Em conferência de imprensa, na sede da editora que o representa, a Gallimard, o escritor reagia esta quinta-feira com incredulidade à distinção da Academia Sueca, e confessava-se espantado por uma decisão estranha: “Tenho a sensação de estar a escrever o mesmo livro há 45 anos”.
Numa entrevista dada ao jornal espanhol El País em 2009, o autor fala precisamente das obsessões que aguçam o espetro das suas personagens repetitivas, quase autobiográficas, e justifica a procura do desconhecido por ser um autor “do século XX e do século XXI”, uma época em que “tudo é fragmentado” e o anonimato está constantemente presente.
Um anonimato e descaraterização que procura também na cidade onde cresceu, onde é difícil fazer a separação do centro parisiense, cheio de monumentos. Por isso mesmo, a ação decorre frequentemente no 16º arrondissement, região suburbana onde muita gente era dada como desaparecida durante a infância de Modiano. “É um bairro anónimo e banal onde cada um pode criar coisas”. Os outros bairros, explica, bloqueariam a imaginação por via da própria História.