A palavra e a imagem no "Navio de Espelhos" de Mário Cesariny em Madrid
A relação entre a palavra e a imagem e entre a inovação e o inconformismo domina a exposição "Navio de Espelhos", do artista português Mário Cesariny, a partir de hoje no Círculo de Belas Artes em Madrid.
Baptizada com o nome de uma das obras do artista (o poema "O Navio de Espelhos", que é projectado na parede da escadaria de acesso à Sala Minerva), a mostra pretende, segundo os promotores, destacar as outras facetas de Cesariny, escondidas sob o génio da sua poesia.
Na prática, "Navio de Espelhos" é um retrato da exposição que esteve patente, em 2004, em Lisboa e que representou a primeira apresentação ao grande público das obras plásticas de Cesariny, sobretudo conhecido pelo seu trabalho literário.
João Pinharanda, da Fundação EDP e comissário da exposição, disse à Lusa que a mostra integra as obras mais antigas de produção plástica e de desenho de Cesariny, no período entre 1946 e a década de 50 e, como tal, "muito ligadas ao desenho, escrita e à relação palavra- imagem".
Segundo o comissário, o critério foi marcar a relação de Cesariny com as traduções poéticas e a literatura, mas ao mesmo tempo assinalar um período em que o artista "rompe simultaneamente com o neo- realismo e com o surrealismo mais ortodoxo e figurativo".
"A mostra é marcada por algumas pinturas relacionadas com o mar, que é muito forte na poesia de Cesariny. Há muito desenho, muita colagem, muitos poemas visuais e algumas pinturas antigas", disse.
Juan Barja, director do Círculo de Belas Artes de Madrid, destacou hoje as várias facetas de Cesariny, um "artista no sentido mais global do tempo", aludindo a componentes da exposição como o desenho ou a pintura, marcada pelo "sempre presente relacionamento entre palavra e texto".
Barja destacou as seis fotografias de "altares votivos" que Cesariny teve, em algum momento, em sua casa e que, numa fusão de objectos "misturam o profano e o sagrado, o rito e o culto, a poética e a profética".
Pinharanda referiu a coincidência de, na mesma altura, estarem patentes exposições de dois outros surrealistas reconhecidos internacionalmente, Hans Arp e Henri Michaux.
"Isso permitirá demonstrar que Cesariny está a par de artistas como o Arp e o Michaux em inovação", observou.
Apesar de ser mais reduzida do que a mostra que esteve patente em Lisboa, Pinharanda considera que a exposição permitirá "marcar o lugar de Cesariny na história do surrealismo", demonstrando que "a cronologia da sua obra precede até cronologias internacionais, ainda que isso não seja reconhecido na história da pintura internacional".
Esta opinião é partilhada por Barja, que aludiu igualmente à coincidência desta mostra com as de Michaux e Arp e realçou o cariz inovador da obra do português.
A mostra é complementada por um catálogo novo, bilingue, em que são reproduzidas as obras que não vão estar presentes, e duas antologias, uma poética e uma de textos de Cesariny sobre artes plásticas.
As obras foram traduzidas por Perfecto E. Cuadrado, especialista em literatura portuguesa que lecciona na Universidade de Palma de Maiorca e que hoje, na apresentação da exposição, saudou "o maior génio vivo da poesia portuguesa".
"Cesariny é uma personagem pública. Com 83 anos, muitos dias e sobretudo muitas noites de Lisboa. Interventivo, provocador, afectivo, diabolicamente inteligente", disse.
Para José Manuel dos Santos, responsável da Fundação EDP, a exposição marca a abertura das criações menos conhecidas de Cesariny, que "estiveram um pouco escondidas pela poesia".
Citando Cesariny, que um dia disse querer "ser poeta da própria existência, da vida", Manuel dos Santos assinalou que as obras escolhidas permitem ajudar a entender "o próprio conceito de arte" do artista português.
Cesariny, que nasceu em Lisboa a 09 de Agosto de 1923, é considerado o mais importante poeta português da escola Surrealista.
No início de sua produção literária, mostra-se influenciado por Cesário Verde e pelo futurismo de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, mas, ao integrar-se ao Grupo Surrealista, muda o seu estilo, trazendo para sua obra o "absurdo", o "insólito" e "o inverosímil".
Além de poeta, ensaísta e dramaturgo, Cesariny dedicou-se também às artes plásticas, sobretudo à pintura.
A exposição, que estará patente até Novembro e é patrocinada pela EDP, ficará ainda marcada pela exibição, no dia 28 de Setembro, do documentário "Autografia", sobre Cesariny, realizado por Miguel Gonçalves Mendes.