A "profunda escuridão" e a extrema felicidade de Madre Teresa de Calcutá
Lisboa, 10 Mar (Lusa) - Escritas ao longo de décadas, as cartas e reflexões de Madre Teresa de Calcutá revelam a "profunda escuridão" da sua vida espiritual e, segundo o seu desejo, deveriam ter sido destruídas. Foram reunidas num livro hoje apresentado em Portugal.
Brian Kolodiejchuk, postulador da causa de canonização da "santa dos pobres", publicou no ano passado "Vem, sê a minha luz", o livro que reúne cartas escritas por Madre Teresa aos seus directores espirituais e que lançou a discussão sobre a sua fé em Deus.
Instalado em Lisboa num pequeno quarto da casa das Missionárias da Caridade - a congregação que Madre Teresa criou em 1950 -, o padre canadiano vem agora apresentar a edição portuguesa deste livro.
"São reflexões que mesmo as irmãs mais próximas dela não conheciam. Antes de as publicar, li-lhes as cartas e foi uma surpresa total. Houve irmãs que choraram. São muito emocionais e expressam verdadeiro sofrimento", conta.
Em 1999, estava em Calcutá a recolher documentos para o processo de canonização de Madre Teresa, quando teve acesso a cópias das cartas por ela redigidas. "Uma verdadeira revelação", conta.
Curiosamente, explica o padre Brian, "as cartas do período de preparação para a entrega a Deus e à fé, nos anos 40, mostram uma enorme união com Cristo". Só depois revelam a "escuridão espiritual".
Aquilo que Madre Teresa dizia ser a maior pobreza - não se sentir amado nem cuidado por ninguém - era na verdade aquilo que ela própria sentia na sua relação com Deus.
"Partilhava assim o desespero dos pobres que ajudava", observa Brian Kolodiejchuk, que conheceu a Madre Teresa quando tinha 21 anos e com ela privou durante duas décadas.
No pequeno quarto da casa que a própria Madre Teresa inaugurou quando passou por Portugal em 1986, Brian olha a edição inglesa do livro que tem sobre a cama e pega nele.
Baixando o tom de voz, lê uma passagem: "Jesus, se a minha dor e sofrimento, a minha escuridão e separação te dá uma gota de consolação, faz comigo o que queiras, todo o tempo que desejes. Imprime na minha alma e vida os sofrimentos do teu coração. Não olhes aos meus sentimentos, não olhes sequer à minha dor. Se a minha separação de ti permite que outros se aproximem e tu encontres alegria e deleite no seu amor e companhia, quero de todo o coração sofrer o que sofro, não só agora, mas pela eternidade, se for possível".
Madre Teresa tinha pedido que as suas cartas fossem destruídas, mas as mais importantes foram conservadas e são agora dadas a conhecer em Portugal.
"Eram importantes para a sua família religiosa, para os seus seguidores. Mas agora ela é santa: é importante que toda a igreja as conheça", justifica o padre Brian. "Nós conhecíamos o seu trabalho e a sua vida. Conhecíamos o exterior da Madre Teresa. Mas não conhecíamos o interior, a vida espiritual."
Brian considera que estas reflexões mostram a profundidade da sua fé, "uma fé pura e cega". Por outro lado, considera, mostram que era extremamente feliz.
"Não era fingimento ou hipocrisia quando a víamos animada e a sorrir. Nos primeiros dez anos ela aceitou o seu sofrimento sem o compreender. Mas percebeu que este era o lado espiritual do seu trabalho, de união com cristo na cruz e com os pobres", recorda.
"A vulnerabilidade faz parte do amor, sabemos que há sempre um risco quando amamos alguém", explica o autor do livro.
Madre Teresa costumava dizer "Calcutá é em todo o lado".
"A nossa missão está muitas vezes ao nosso lado, na nossa família, e em acções muito simples: um sorriso ou apenas estar com alguém", diz Brian. "Hoje estamos tão envolvidos no nosso mundo que não vemos os outros. É impressionante ver no metro as pessoas tão próximas e ao mesmo tempo tão distantes."
Madre Teresa também costumava dizer que as pessoas devem "fazer as coisas ordinárias com um amor extraodinário".
É isso que as quatro Missionárias da Caridade de Lisboa, muito reservadas nas palavras, procuram fazer. A sua casa fica em Chelas na avenida João Paulo II, o papa que beatificou Teresa de Calcutá em 2003, apenas seis anos após a sua morte.
"Há por todo o mundo pobreza espiritual, aquela que não se pode ajudar com um bocado de pão. Aqui acolhemos idosos muito pobres, visitamos famílias e damos assistencia espiritual e material, fazendo-os sentir que há alguém que os ama", conta a Irmã Maria do Carmo.
"Estas cartas de Madre Teresa inspiram-nos para o dia-a-dia", conclui o padre Brian. "É ao mesmo tempo muito heróico e muito humano. A sua vida é algo que podemos não só admirar, mas imitar."
Para Brian, um santo é alguém que viveu a sua vida de cristão de forma exemplar.
"Todos nós procuramos os nossos heróis: no desporto, no cinema... Para nós, cristãos, os nossos heróis são os santos".
FZP.
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