"A tentativa de anular as artes é uma moda perigosa"

O filme “Paixão” esteve em exibição no cinema King, em Lisboa - a realizadora e autora do argumento destaca a violência da história e o exercício de poder envolvido. Em entrevista à RTP, Margarida Gil explica a relação do cinema com outras artes. A também presidente da Associação Portuguesa de Realizadores considera que está em curso uma “tentativa para anular as artes” e defende o cumprimento das diretivas europeias para apoiar a criação em Portugal.

Raquel Ramalho Lopes, RTP /
"A situação é muito perigosa e assim como há vergonha das artes, tenho a sensação da existência de um rancor permanente contra o cinema" RTP

Referiu que o filme foi feito “com a máxima concentração de meios”. Quer explicar?

A situação entre os protagonistas (Ana Brandão e Carloto Cotta) é tão forte, a guerrilha entre eles é tão intensa que, quando se mexe com material tão explosivo, tem de ser concentrar o mais possível. O filme conta a história de um homem (João Lucas) aprisionado por uma mulher (Maria Salomé), ambos belas criaturas, num prédio que está a ser demolido, no centro de Lisboa.

Foi esta a aposta que fiz com o produtor, o máximo de concentração num único décor, com o exterior muito reduzido. Acho que isso intensificou bastante o clima de ameaça e de violência entre os dois, que é uma violência amorosa.

Por outro lado, há uma concentração no tempo, tive um mês e meio para filmar, e meios financeiros muito escassos. Tive uma equipa muito pequena, mas que se motivou imenso. Devo agradecer a músicos, atores e técnicos que aplicaram anos de formação neste filme.

A violência, implicada na perda da protagonista (o marido e a filha morrem) e no aprisionamento do escritor, contrasta muito com a beleza das imagens…

Claro que contrasta, e também com a beleza do texto e da música. A beleza é fundamental e apostei muitíssimo neste fator, precisamente dada a crueldade do assunto.

A beleza está muito associada à paixão mas também à dor, ao misticismo relacionado com a renúncia e a submissão. Esta ideia está muito presente na cultura católica, em que as relações sado-masoquistas são muito valorizadas: os mártires, as santas místicas que se esvaem em sangue, o São Sebastião que é alvo de setas e fica com ar doloroso e fica com ar mortificado, a Mater Dolorosa... Há coisa mais bela do que o sofrimento de uma mãe a pegar no filho moribundo? Isso é o máximo da beleza! Está associado aos nossos mitos mais profundos, que são católicos!

É uma paixão que mais parece uma via sacra?


Penso que sim, mas não foi muito deliberado. O facto de eu ter tido uma família e uma educação católicas, apesar de eu não o ser, gera um efeito inconsciente no processo criativo. Mesmo que eu não queira, vou sempre parar à “via dolorosa” (risos).

Os diálogos neste filme são muito pouco explicativos e só muito tarde é que ajudam para o avanço da narrativa. Porquê esta opção?

Foi uma opção muito consciente; para isso contribui muito o trabalho com a escritora Maria Velho da Costa. O diálogo é um valor em si, não tem de ser narrativo, nem explicativo.

Aquela situação não se explica, vê-se. Temos um homem que é aprisionado por uma mulher, que o quer capturar, a sua beleza, a sua vitalidade, o seu amor, a sua alma. Isto não se explica!

O texto tem de ter um valor autónomo, não no sentido convencional, mas antes um texto elaborado porque tem um valor “per si”. Tem sido dito que o filme parece pintura, é o valor plástico. Também os enquadramentos e a música têm valor por si. São valores que o cinema contém.

O cinema abdicou ultimamente deste valor plástico e está na moda fazer coisas muito feias. Mas porque seguir a mesma moda dos outros? Não quero.

Neste filme existem registos de música e de dança. Mas não se veem marcas da literatura.

Ainda bem que diz isso porque fiz o filme com a grande escritora Maria Velho da Costa. Normalmente, a literatura não faz bem ao cinema. Tinha esse perigo com os diálogos. Aliás, corro sempre perigo porque gosto muito de texto que tenha valor e não seja apenas uma muleta para comunicar. É um valor como os outros, como a iluminação, como se nota no filme. A literatura está lá, só que de uma forma contornada.

A protagonista, que está a sofrer com uma perda, consegue cantar, enquanto o protagonista que é aprisionado não consegue escrever. Porquê?

Existe uma certa vampirização. A protagonista é um pouco sinistra. Ao raptá-lo está a praticar um ato que considera ignóbil. Rapta um ser, na sua maturidade, na sua vida. É como capturar um belo pássaro, ninguém tem o direito de fazer isso.

Quando escrevi este guião, apareceu que a austríaca Natascha Kampusch e falou-se muito do Síndroma de Estocolmo, da ligação entre carrasco e vítima, uma relação que nunca se quebra. Esta promiscuidade é indissolúvel do processo amoroso, do processo de paixão.

Ele é realmente a vítima; é enclausurado e deixa de ter os instrumentos de criação. Mesmo quando pode sair, não consegue.

A música parece estar em sintonia com a iluminação. Evocam mesmo um determinado período artístico (o barroco).

Eu gosto muito de música e ouço permanentemente. A minha família tem uma forte tradição musical. Para mim, o filme organizava-se à volta da “Chaconne”, de Bach. Tal como uma aranha que começa a tecer a sua teia por um ponto, eu comecei por esta peça.

As restantes peças foram escolhidas de acordo com a cravista Jenny Silvestre, que ajudou (deu aulas de canto) a Ana (Brandão). A atriz foi escolhida porque sabia cantar, embora estivesse mais centrada no jazz. Era muito importante que a personagem principal feminina cantasse. Os músicos fazem partes dos personagens, estão dentro do filme, o que é uma interação.

Todos os protagonistas estão relacionados com as artes. Era importante?

Porque não? É preciso ter orgulho nas artes e não a vergonha que agora se verifica. Esta tentativa de anular as artes é uma moda perigosa.

Nunca se deu tanta importância às artes e, ao mesmo tempo, se teve tanto rancor por elas. É uma contradição em que é preciso pensar. Existe uma necessidade de mau trato da arte, de a tornar feia. Não vejo motivo para que a beleza não seja um valor da própria arte.

É presidente da Associação Portuguesa de Realizadores. Como vê o contexto da produção de cinema em Portugal?

Vejo com pânico. A situação é muito perigosa e assim como há vergonha das artes, tenho a sensação da existência de um rancor permanente contra o cinema. Se pudessem acabavam simplesmente com a prática de cinema em Portugal. Estão a tentar, mas claro que não é possível que tal aconteça.Uma vida no cinema

Na filmografia de Margarida “Paixão” sucede a “Perdidamente”, que obteve o prémio de melhor argumento no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Independente de Nova Iorque.

Com “Adriana” (2005) venceu prémios, em Roma e em Lisboa. Outros prémios foram arrecadados por “O Anjo da Guarda” (1999), em 1999, em Roma, Figueira da Foz e Fantasporto.

A realizadora, de 61 anos, também acumula experiências na escrita de argumento (“Rosa Negra”, 1992; “Daisy: Um Filme para Fernando Pessoa”, 1991), produção (“Relação Fiel e Verdadeira”, 1987) e representação (“Relação Fiel e Verdadeira, 1987).

É presidente da Associação Portuguesa de Realizadores e docente na Universidade Nova de Lisboa.


As associações uniram-se todas para lutar pela participação na elaboração da lei de cinema, que foi lançada a discussão pública. Mas não chega. É preciso obrigar as operadoras de telecomunicações a participar no financiamento, à semelhança do que acontece em todos os países da Europa.

Somos europeus para umas coisas e não somos para outras. É preciso que se cumpram as leis europeias. Neste momento, verifica-se na Europa um fortalecimento das normas e diretivas para apoiar o cinema e a cultura. Portugal não pode continuar a ignorar isso.

É preciso que a nova televisão digital tenha, na sua legislação, os apoios ao cinema e ao audiovisual. Por isso, neste momento de grande perigo devemos ter muito claro o que é preciso defender. Defendemos, junto do Ministério da Educação, a formação de públicos.

É preciso que as chefias de vários sectores se cultivem, para saber o que estão a fazer à cultura. Se uma pessoa ignorante, mas ocupa um cargo importante, considera que não precisa da arte, porque irão outros ter essa necessidade? Constato que existe um rancor da ignorância, misturado com inveja, em relação às artes.
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