A vanguarda de Teixeira Gomes e António Patrício esquecida à sombra de Pessoa
Lisboa, 10 fev (Lusa) - António Patrício e Manuel Teixeira Gomes foram hoje evocados no Congresso de Fernando Pessoa como escritores que deveriam estar na vanguarda da literatura portuguesa, mas que ficaram sempre ensombrados pela presença de Pessoa, no panorama literário da época.
O segundo dia do Congresso Internacional de Fernando Pessoa começou com uma discussão em torno dos contemporâneos do poeta, em que o escritor Helder Macedo, professor jubilado do King`s College, em Londres, e o escritor Fernando Pinto do Amaral se debruçaram sobre a obra de escritores que são por vezes "injustamente esquecidos", por estarem na sombra que Fernando Pessoa lançou sobre a sua própria época.
A este propósito, Helder Macedo começou por lembrar que "alguns escritores são lembrados não pela sua criatividade e originalidade, mas como o menos interessante da literatura portuguesa desse tempo".
Não será o caso de Camilo Pessanha, na opinião de Helder Macedo, porque foi lembrado e perpetuado pelo grupo de Orfeu, mas de Raul Brandão, que tinha "uma visão fantasmagórica e onírica que aponta para vias muito próximas de coisas feitas por Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro".
Helder Macedo escolheu, no entanto, debruçar-se sobre dois nomes ainda mais esquecidos: Manuel Teixeira Gomes e António Patrício, este último com "coisas muito interessantes que o podem aproximar de Mário de Sá Carneiro".
"Tem o culto sexual da morte, é obcecado com a morte", afirmou Macedo, dando como exemplo um trecho do "Vilancete da Morte", em que o poeta escreve: "Senhora que me seguis com passos de veludo", sendo esta senhora a morte, ou a peça "D. João e a máscara" em que, uma vez mais, a mulher que D. João procura é a morte.
Fernando Pinto do Amaral introduziu aqui uma achega, para considerar que o "Vilancete da Morte" "quase não parece português", porque há, nesta altura, na Europa, uma obsessão com temas relacionados com o fascínio da morte decadente, cadáveres, putrefação.
"Em Portugal temos só António Patrício, decadentista, no sentido da obsessão pela morte, mas sem o lado pitoresco e folclórico dos cadáveres, mais no sentido da delicadeza e lado estético".
"António Patrício é um belíssimo poeta", complementou Helder Macedo, antes de passar para Manuel Teixeira Gomes, outro escritor esquecido, mas que tem "aspetos muito interessantes, como a transformação da sexualidade e dos corpos em imagens, em especulações alternativas".
Teixeira Gomes teve "três vidas": a de senhor rico, a de político e a de exilado que passou cerca de 15 anos a viver no norte de África, a viajar de autocarro, a viver quase pobremente, escrevendo e contemplando, aquela em que "escreveu a melhor obra".
É o caso de "Miscelânea", uma compilação de cartas, ensaios e pensamentos, que constituem "obra fundamental em termos de literatura e de lembrança", e que Fernando Pinto Amaral comparou ao "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, por ser factual, mítico e onírico, em complemento com imaginação e memória.
Outra obra de Manuel Teixeira Gomes destacada, emblemática do sensualismo e da alucinação, é a novela "A Cigana", uma história "estranhíssima" de uma experiência alucinatória de um encontro erótico-sexual com uma cigana.
"Como se a sexualidade fosse alucinatória, exercida em corpos autónomos, mas intermutáveis", explicou Helder Macedo, sublinhando que o próprio Manuel Teixeira Gomes escreveu que "a alucinação nunca significa sintoma de loucura, é simplesmente imaginar com intensidade, e as coisas tornam-se realidade objetiva".
Na opinião de Fernando Pinto do Amaral, este fragmento sobre as "imagens de alucinações que se tornam reais", lidas por Helder Macedo, e que confessou não conhecer, "poderiam perfeitamente ter sido um fragmento escrito por Fernando Pessoa".
Camilo Pessanha e Raul Brandão foram igualmente trazidos à conversa, o primeiro pelo simbolismo e erotismo presentes na sua obra -- o que o aproxima de Patrício -- e o segundo pela dimensão alucinatória e por aliar o grotesco ao sublime, revelando uma "transposição do eu", que o aproxima de Pessoa.