Afinidades culturais de Portugal com a Roménia além da latinidade
As afinidades culturais entre Portugal e a Roménia ultrapassam a latinidade comum, sustentou o filósofo e ensaísta romeno Horia-Roman Patapievici, presidente do Instituto Cultural Romeno em Bucareste, que se prepara para inaugurar hoje uma extensão em Lisboa.
Entrevistado pela Agência Lusa por ocasião da sua vinda a Portugal, o pensador romeno afirmou que, embora possa parecer "uma retórica fácil", Portugal é visto na Roménia como "um irmão distante", devido, "evidentemente, à latinidade comum", mas defendeu que as afinidades culturais entre os dois povos "vão além disso".
"Apesar de o nome de Fernando Pessoa e o fado estarem entre as primeiras coisas que nos vêm ao espírito quando se fala de Portugal, os conhecimentos que os romenos cultos têm da cultura lusitana não acabam aí", indicou.
Segundo Patapievici, o site da Internet do Instituto Camões de Bucareste enumera 75 títulos de obras de autores portugueses traduzidas para romeno, alguns dos quais publicados depois de 1990, e escritores como António Lobo Antunes e José Saramago "têm, não só muitos leitores e crónicas na imprensa, como também verdadeiros fãs".
Quanto ao panorama cultural da Roménia actual, o responsável classificou-o como "simultaneamente diverso e móvel".
A adesão da Roménia à União Europeia (UE), no início deste ano, foi - reconheceu - um processo histórico de grande envergadura que implicou "uma procura, evoluções, algumas `turbulências` de identidade, que se reflectem nas formas de expressão que formam aquilo a que se chama a `cultura` de um país".
"[A entrada para a Europa comunitária foi] a concretização de uma aspiração nacional que surgiu há mais de 15 anos, com o derrube de um dos regimes comunistas mais opressivos da Europa e do mundo", sustentou.
Esse passado totalitário "continua, ao mesmo tempo, a assombrar a agenda cultural e artística" e vê-se que "a necessidade de memória - e também de esclarecimento, quer se trate do comunismo ou do período de transição, que tem as suas nebulosas - se confronta com um desejo de distanciamento", admitiu.
O Instituto Cultural Romeno de Lisboa (ICRL), que o filósofo romeno inaugura hoje, quer organizar não só eventos culturais mas também científicos, para - explicou - "ter uma abertura muito ampla e diversificar a sua oferta, de modo a criar um público fiel, interessado em conhecer o mais possível sobre a Roménia".
"Além dos eventos organizados nas instalações do ICRL - conferências, mesas-redondas, exposições, projecções de filmes romenos, serões literários e musicais - o Instituto pretende ainda reforçar a sua colaboração com várias outras instituições de cultura e universidades" portuguesas, adiantou.
Actualmente, há 15 institutos culturais romenos, 13 dos quais na Europa, além do de Lisboa, que vai agora abrir, o dobro do número existente há dois anos, o que demonstra, de acordo com Horia-Roman Patapievici, "uma tomada de consciência: darmo-nos a conhecer não é algo de acessório, mas uma necessidade".