"Afrocalipse", novo romance de Mário Lúcio Sousa, expõe "desmandos" dos ditadores africanos

"Afrocalipse", novo romance de Mário Lúcio Sousa, expõe "desmandos" dos ditadores africanos

"Afrocalipse", novo romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, é uma viagem aos "desmandos" e aos "absurdos" do poder em África, num país nunca nomeado, onde um ditador permanece por mais de 40 anos.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"A minha intenção era mostrar o apocalíptico que nós vivemos, mostrar as desgraças, os desmandos, os absurdos que estão a acontecer. Infelizmente, que a palavra África nos permitiu encontrar uma palavra nova, fácil de leitura e de várias leituras. Mas a ideia fundamental é mostrar o apocalipse que nós vivemos em África e esse apocalipse tem a ver com os ditadores", explica, em entrevista à Lusa.

Para a editora Maria do Rosário Pedreira, este é o "mais político" e mais "corajoso" romance do autor, ousando revelar que afinal os ex-colonizados podem fazer pior do que o colonizador.

"Os personagens estão lá, existem, eu não nomeei nenhum personagem e não me inspirei em nenhum personagem. Eu vi os factos históricos, vivi os factos históricos, li os factos históricos e achei que, independentemente do nome A ou B, aquela figura chamada presidente da república e outro que se chamou imperador em vários lugares da África e do mundo também, são a mesma figura", sublinha o escritor.

Uma espécie de retrato-robô do ditador africano, que o autor ficciona depois de guiar o leitor por uma "bússola de eventos", onde fixa nomes, lugares e a história, e que vão de Angola ao Zaire, do Ruanda à Libéria, da Guiné-Bissau à República Centro Africana.

"Os indivíduos têm a mesma conduta, a mesma paranoia, a mesma obsessão pelo poder, a mesma insanidade e desrespeito pelos seus semelhantes. É isso que o livro trata", esclarece.

O escritor, que sempre disse que nunca sairia uma vírgula das suas mãos sobre os ditadores, explica a fórmula encontrada para a reflexão que propõe aos leitores com a nova ficção editada este mês em Portugal pela Leya.

"Eu disse que não escreveria a biografia ou uma história sobre nenhum desses ditadores em particular, mas coloquei-os todos no mesmo saco, utilizando intencionalmente essa palavra sobre a figura de um magistrado e escrevi sobre ele, porque realmente não merecem que seja eu o romancista a tratar disso", esclarece.

Convencido que a verdade obedece à pesquisa dos historiadores, e que estes "farão melhor" do que o escritor, Mário Lúcio Sousa confessa o gosto por explorar os vários lados das personagens, inspiradas, neste caso, pelos factos, que expõe com a ironia que lhe é reconhecida.

Do Supremo que "vai fazer cocó ao mato", ao chefe que forra a piscina a diamantes, outro que manda aviões a Paris todas as manhãs para trazer os croissants do pequeno-almoço, aos golpes de Estado e ao genocídio no Ruanda, ou ao assessor que é branco e que se chama Preto, "Afrocalipse" retrata a natureza humana com um desconcerto capaz de nos fazer sorrir.

"Deixando esse trabalho de pesquisa sobre a verdade histórica - os historiadores o farão melhor que eu -, gosto, nos meus romances, de ver vários lados dos personagens e que nem sempre é muito agradável falar deles com nomes e apelidos. Eu não os vou fixar na história, por isso, achei que a única vez que podia utilizar o nome verdadeiro de uma pessoa, é quando a senhora Ellen Sirleaf é eleita a primeira mulher presidente da África", conta.

A mulher que governou a Libéria (2006/2018) representa a mudança em que o escritor acredita. Mulheres cansadas de décadas de medo, abuso e resignação, que lideram a transformação de um país marcado pelo delírio do poder.

"Isto no romance deu-me muito prazer, o facto de que não é fácil poupar, da primeira à quase última página, sem citar o nome de ninguém, para que, quando se citasse o nome, o livro praticamente fosse dedicado a ela. Ela dita amor, era mesmo uma dama africana, cheia de maternalismo, cheia de compreensão, de compaixão e de coragem", conclui.

Com ironia, poesia e uma linguagem profundamente inventiva, "Afrocalipse" fala de feridas políticas e humanas, mas também da possibilidade de romper o ciclo.

O escritor e também musico cabo-verdiano, antigo ministro da cultura, é também autor de "O Novíssimo Testamento" (Prémio Carlos de Oliveira 2010), "Biografia do Língua" (Prémio Miguel Torga 2015 e Prémio PEN Clube de Narrativa 2016), "O Diabo Foi Meu Padeiro" (2019), "A Última Lua de Homem Grande" (finalista do Prémio LeYa 2022 e do Prémio Oceanos 2023) e "O Livro Que Me Escreveu" (2024).

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