Álbum "The Fabulous Marceneiro" reeditado em CD com cinco fados extra
Lisboa, 23 dez (Lusa) -- Por ocasião do cinquentenário do álbum "The Fabulous Marceneiro", chega ao mercado esta semana uma edição em CD, com o som remasterizado a partir das bobines originais, incluindo-se cinco fados extra.
David Ferreira, que coordena a reedição, disse à agência Lusa que este é um dos discos mais lendários da história do Fado, por ser a "obra-prima do mais influente dos seus criadores até ao aparecimento de Amália Rodrigues": Alfredo Marceneiro.
De acordo com o responsável, "este foi o primeiro álbum de Marceneiro, que até então receava que o estúdio destruísse a verdade do fado".
"A gravação foi iniciada a meio da noite, depois da hora de fecho das casas de fado onde Marceneiro acabava sempre por cantar, e terminada quando raiava o dia", contou David Ferreira, que referiu um outro pormenor contado pelo técnico de som Hugo Ribeiro: "Só foi conseguida quando o Marceneiro vendou os olhos para se esquecer de que estava num estúdio, local contrário à verdade do fado".
Hugo Ribeiro contou à agência Lusa que, vendo a dificuldade de Alfredo Marceneiro em gravar, pediu licença ao fadista, tirou-lhe o lenço que habitualmente lhe adornava o pescoço (cachené) e com ele tapou-lhe os olhos.
"No final ele tirou o lenço que lhe vendava os olhos e visivelmente satisfeito disse: Foram 12 pratos de sopa", recordou Hugo Ribeiro.
O LP original "The Fabulous Marceneiro", editado em 1961, incluía 12 fados, aos quais a atual edição juntou outros cinco temas: Quatro duetos e o fado "Minha Freguesia", com letra de Armando Neves na música do Fado CUF, de autoria do próprio Marceneiro e gravado em 1962.
Dois duetos são com Fernanda Maria, "Bairros de Lisboa" e "A camponesa e o pescador", gravados em 1960, e um com Fernando Farinha, "Antes e depois", do qual se apresentam duas versões, ambas gravadas em 1962.
Os doze fados que integram o LP original, agora disponível em CD, são "Senhora do Monte", "Lembro-me de ti", "O amor é água que corre", "Mocita dos caracóis", "A viela", "Ironia", "A casa da Mariquinhas", "Amor de mãe", "A menina do mirante", "O lenço", "O bêbado pintor" e "O leilão".
A maioria das melodias fadistas é de Alfredo Marceneiro, como o Fado Laranjeira, Fado Cravo, Fado Louco ou Fado Mocita dos Caracóis.
Alfredo Rodrigo Duarte, de seu nome de batismo, canta letras de João Linhares Barbosa, Gabriel de Oliveira, Augusto de Sousa, Armando Neves, Silva Tavares e Henrique Rêgo.
Na edição em LP, na contra-capa, Carlos Barbosa de Carvalho afirmava: "Eis, finalmente em alta-fidelidade, a voz velada -- e tão dorida que parece por momentosa beira da desintegração -- do grande Alfredo Marceneiro".
O texto é reproduzido na íntegra nesta edição iPlay/Valentim de Carvalho em que se conta "a história toda, desde os tempos (1931) em que o Marceneiro era um quase desconhecido, que condenava a gravação sonora, até às peripécias da própria gravação".
A edição inclui ainda fotos da época, nomeadamente uma do fadista a olhar a montra da antiga loja da Valentim de Carvalho, que expunha o seu disco, acabado de sair, e ainda a reprodução do artigo de Guedes Amorim, da "Ilustração" de 1931, e textos de David Ferreira, intitulado "A construção duma lenda", e do guitarrista José Pracana, amigo de Marceneiro.
A atual edição digital é a de "um disco extraordinário, que ainda hoje é referência para os fadistas mais jovens", atestou David Ferreira.
Alfredo Marceneiro, natural de Lisboa, faleceu nesta mesma cidade no dia 26 de junho de 1982, aos 91 anos.