Alunos em Leiria aprendem a transformar badaladas de sinos em música

por Paulo Jorge Agostinho (texto) e Paulo Cunha (fotos), da Agência Lusa

Quando os sinos da Igreja tocam em Leiria não é sinal de procissão nem casamento. O som denuncia antes o retomar de uma tradição antiga e transforma as aulas de carrilhão para jovens num concerto para toda a cidade.

A Escola de Carrilhão de Leiria é a primeira em Portugal e pretende retomar uma tradição antiga que foi perdendo importância, como prova o facto de apenas existirem três instrumentos do género no país.

"A música de carrilhão foi perdendo importância e muitos foram- se degradando com os anos e com a falta de pessoas com conhecimentos nesta matéria", explica Abel Chaves, carrilhanista do Palácio Nacional de Mafra e professor da escola de Leiria, que integra nove alunos.

Ao contrário de outros instrumentos, um concerto de carrilhão é tudo menos intimista, já que o público é tudo o que circunda a torre da igreja ou da catedral e qualquer erro é ouvido por milhares de pessoas.

"É um instrumento que impressiona pela sua grandiosidade de volume sonoro, mas, por outro lado, existem algumas dificuldades de audição no local, já que o som é demasiado alto", considerou Abel Chaves.

Não são muitos os sinos que compõem o novo carrilhão da Sé de Leiria, apenas 23, mas chegam para produzir melodias raramente tocadas, aproveitando a sonoridade única das pesadas peças de metal.

Depois da inauguração do novo carrilhão, a 14 de Novembro de 2004, a Escola de Artes da Sociedade Artística Musical Pousense (SAMP) propôs à Diocese a criação de uma escola para jovens, reactivando o gosto por aquele instrumento.

"A nossa proposta foi quase imediatamente aceite", recorda Paulo Lameiro, director da Escola de Artes, e promotor deste projecto.

O trabalho seguinte foi convencer alunos de outras turmas da SAMP para se inscreverem nas aulas, que são dadas num simulador, uma grande consola de órgão em que cada tecla produz o som de um sino.

José Sousa tem 11 anos, reside na Boa Vista, Leiria, e tocava percussão na Escola de Artes até ser convidado para aprender a tocar sinos.

O talento de percussionista, ninguém lho tira, como o demonstra a destreza na forma como pressiona as teclas, mas a articulação das mãos parece ser mais difícil, reconhece Paulo Lameiro.

A maior parte dos alunos frequentava aulas de percussão ou de piano, pelo que é normal que sintam dificuldades na pressão sobre as teclas ou na elaboração das melodias, explicou.

"Do ponto de vista técnico, está entre as duas situações", explicou este responsável, salientando o empenho e o gosto dos jovens por este instrumento único.

"É como se fosse uma caixinha de música gigante", em que "só a sua dimensão impressiona qualquer um", considerou.

Exemplo disso é José Sousa, que confessou ter ficado surpreendido com a possibilidade dos sinos "fazerem melodias tão bonitas", embora às vezes os sons produzidos sejam "difíceis de controlar".

Para tentar limitar estes problemas, o carrilhão inclui várias molas que compensam os pesos diferentes dos sinos, dispostos com teclas de madeira que são pressionadas como se de um teclado de 23 letras se tratasse.

O maior sino deste carrilhão pesa 640 quilos e foi oferecido pelo Santuário de Fátima, existindo outras peças doadas por particulares, empresários e instituições da região.

As aulas são quinzenais e pretendem relançar os carrilhões como instrumento de massas em Portugal, à semelhança do que sucede noutros países, onde é frequente existirem concertos regulares em catedrais.

Actualmente, só existem três carrilhões, o de Leiria, o de Mafra (uma referência mundial nesta área, com 53 sinos) e o da Torre dos Clérigos (49 sinos), estando prevista a inauguração, dentro em breve, de um quarto instrumento, na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca (com mais de 60 sinos).

No caso de Leiria, além do carrilhão, ainda existe um jogo de sinos, à semelhança de muitas outras igrejas portugueses, e Abel Chaves espera preparar futuros músicos neste parente mais pobre.

"Existem, espalhados por todo o país, jogos de sinos que têm cabos, de forma ordenada, capazes de produzir música", explicou.

Este jogo de sinos inclui oito peças, uma delas com mais de três séculos, resistindo, sem qualquer reforço adicional, ao passar dos anos.

"Com o sangue novo de novos músicos vão aparecer novos carrilhões", confiou o organista do Mosteiro de Mafra.

Em Leiria, falta ainda resolver o problema da posse do carrilhão, disputado por três entidades, sem entendimento de nenhuma das partes.

A torre pertence à Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais, o relógio, localizado num piso intermédio, é da Câmara Municipal de Leiria, restando os sinos ao Cabido da Sé.

Por outro lado, a torre da igreja localiza-se a algumas dezenas de metros do edifício, caso único em catedrais portuguesas, já que o templo, de traça neoclássica, foi construído num vale junto ao morro do castelo de Leiria.

Então, foi construída uma torre sineira fora do edifício da igreja, junto ao monte do castelo, alargando o alcance dos sinos, uma medida que ainda vem aumentar o número potencial de assistentes.

"Estamos a falar de uma coisa que é única e qualquer som produzido é multiplicado por muitos quilómetros, o que nos coloca mais vulneráveis a uma crítica", concluiu Abel Chaves.

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