"Anathema", peça de José Luís Peixoto, na Culturgest

O assalto ao teatro Dubrovka, em Moscovo, deu o mote à peça "Anathema", um texto de José Luís Peixoto que reflecte sobre o terrorismo e será representado pela companhia belga STAN, na Culturgest, a partir de domingo.

Agência LUSA /

Em 2002, um comando tchecheno tomou de assalto um teatro moscovita onde estava em cena um musical e fez reféns centenas de pessoas que assistiam ao espectáculo.

Apesar de a peça estar ligada a este acontecimento real, isso "nunca está explícito no texto, apenas são dadas algumas pistas", disse à Lusa José Luís Peixoto, autor do texto, o primeiro que fez para teatro, em resposta a um convite do actor Tiago Rodrigues e dos STAN, uma companhia que aposta na criação colectiva.

"O que se pretende é falar de temas: o terrorismo, o medo, o papel do Estado e dos indivíduos nestas situações", acrescentou o escritor.

Este espectáculo é essencialmente "um exercício de imaginação", apontou Tiago Rodrigues, um dos dois actores em palco. "O desafio lançado ao público" é imaginar-se refém num teatro.

A peça começa com os dois actores a representar uma cena romântica de Romeu e Julieta, mas pouco depois estes personagens assumem que afinal são terroristas e estão ali para uma outra missão.

Até onde se pode ir em defesa de um ideal? Que meios podem ser postos ao serviço de uma causa? Como responder à violência que é exercida sobre nós? São algumas questões colocadas na peça.

O espectáculo é também "uma viagem poética em que vamos descobrindo estes dois personagens", acrescentou o actor português, que há vários anos tem colaborado com a companhia belga fundada por Jolente De Keermasker (a outra actriz em palco), Damiaan De Schriver, Waas Gramser e Frank Vercruyssen.

Na definição da companhia, que trabalha sem encenadores e associando-se a processos de escrita com autores contemporâneos, tg quer dizer "toneelspelersgezelschap" (companhia de actores) e STAN "Stop Thinking About Names".

A peça estreou-se no Outono passado no Théâtre de la Bastille, em Paris, e foi representada já este ano em Bruxelas.

Domingo será o primeiro de quatro espectáculos em Lisboa, onde o texto será representado em francês, com legendas, mas inclui pequenas histórias contadas por Tiago Rodrigues em português.

Depois de "Anathema", Peixoto, 32 anos, que recebeu em 2001 o Prémio Literário José Saramago pelo romance "Nenhum olhar", já escreveu "à manhã", que esteve em cena no São Luiz e está a escrever mais duas peças.

Uma delas tem estreia prevista para o final de Maio, também no teatro de São Luiz, com Beatriz Batarda, Nuno Lopes e Gonçalo Waddington, numa encenação de Marco Martins, realizador de cinema.

A outra criação destina-se ao Teatro Nacional D. Maria II e vai juntar em palco personagens femininas de várias obras de Shakespeare.

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