Antologia evidencia faceta de compositor de Alfredo Marceneiro

O CD "Tudo canta Alfredo Marceneiro", nas discotecas esta semana, procura evidenciar a faceta de compositor do fadista, que compôs vários fados considerados hoje "tradicionais".

Agência LUSA /

O estudioso de fado Luís de Castro salientou à agência Lusa "a importância dos fados de Marceneiro, a ponto de hoje serem conhecidos pelos seus primeiros nomes e não pelo seu autor".

Surgem assim o "Fado CUF", "Fado Versículo", "Fado Cravo", "Fado Bailarico", entre outros, que "revelam o poder criativo de Alfredo Marceneiro".

"Esta criatividade surge na medida da capacidade do próprio Alfredo Marceneiro em conferir o seu estilo e criar dentro de uma mesma harmonia novos fados", explicou Luís de Castro.

Os novos fados criados por Marceneiro, afirmou Luís de Castro, "surgem directamente da harmonia dos considerados fados matriciais - Menor, Corrido e Mouraria - permitindo encaixar na sua melodia vários poemas".

Carlos do Carmo, por exemplo, interpreta o Fado CUF com o poema de Manuel Barbosa du Bocage, "à memória de Anarda", Amália Rodrigues interpreta um poema seu, "Estranha forma de vida" no Fado Bailado.

Amália, Camané e João Ferreira-Rosa são os únicos fadistas que bisam a sua participação nesta antologia, que reúne 14 fados compostos por Alfredo Marceneiro.

Outros nomes são Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Teresa Tarouca, Mafalda Arnauth, Manuel de Almeida, Fernando Maurício, Mariza e Mariana Silva, que na década de 1950 foi considerada "Rainha do Fado Menor".

A fadista interpreta no Fado Mocita dos Caracóis o poema "A voz do coração" de Alberto Rodrigues, uma gravação de 1961, sendo esta a gravação mais antiga digitalizada neste CD.

A mais recente, que data de 2001, é "Até logo meu amor", de Mário Raínho, que Mafalda Arnauth interpreta no Fado Versículo.

De 2000 há duas gravações, "Há festa na Mouraria", de Gabriel de Oliveira, que Mariza interpreta no Fado Marcha do Marceneiro e Camané, que canta "Não posso" de Júlio Dinis no Fado Laranjeira.

Além do Fado Bailado, Amália canta "Maldição" de Armando Vieira Pinto, na música do Fado Cravo, aquela que, segundo revelou Luís de Castro, "a fadista mais gostava de cantar".

"Este CD ao abrir e fechar com o Fado Cravo, mas interpretados por Amália e Ferreira-Rosa, evidencia como uma mesma melodia pode ser interpretada de maneiras absolutamente distintas, demonstrando não só a mais valia criativa do fado como a importância do estilar, isto é, de cada indivíduo impregnar a sua própria marca", disse Luís de Castro.

Entre os acompanhantes dos vários fadistas há nomes de referência na história do fado, como "o histórico conjunto de guitarras de Raul Nery" que acompanha João Ferreira-Rosa e Teresa Tarouca, o viola baixo Joel Pina, ou os guitarristas Fontes Rocha e José Nunes.

Alfredo Duarte tomou artisticamente o nome da sua profissão, Marceneiro. Nasceu em Lisboa em 1891 e morreu nesta mesma cidade em 1982. Durante todo o seu percurso artístico foi considerado uma das "figuras tutelares do fado" e como afirmou Luís Castro, "todas as noites se canta Marceneiro nas casas de fado".

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