Cultura
António Lobo Antunes fala no México do início da sua vida literária
O escritor português António Lobo Antunes afirmou sábado em Guadalajara, México, que um dos seus avós, um militar, julgava que ele era "maricas" por o ver, aos sete anos, a ler com avidez as novelas de Corin Tellado.
"Essa foi a minha iniciação literária, porque estava sozinho numa aldeia, não tinha nada que fazer e já tinha descoberto que, colocando as palavras umas à frente das outras, isso fazia sentido, justificava a minha vida e divertia-me muitíssimo", disse o escritor numa sessão da Feira do Livro de Guadalajara.
O autor de "Fado Alexandrino" explicou às centenas de pessoas que se juntaram para o ouvir numa das conferências promovidas pela Feira Internacional do Livro de Guadalajara que o seu avô, que tinha o seu nome, detestava os livros, como bom militar que era.
Num dia, ao vê-lo mais uma vez embrenhado na leitura dos livros de Corin Tellado, manifestou de forma clara o seu desgosto.
"Chamou-me, fez uma cara muito séria e perguntou-me se eu era maricas () porque escrever e ler Corin Tellado era sinónimo de mariquice. Eu não sabia o que era (ser) maricas, mas a sua cara era tão séria que lhe respondi: não, não, não, não, não", contou Lobo Antunes.
Por entre os risos dos participantes na sessão, o escritor disse que, face à sua resposta, começou a conversar com o seu avô para saber exactamente o que era um maricas.
"A explicação foi tão confusa e prolífica que não compreendi muito bem o que queria dizer", acrescentou.
Pouco antes, António Lobo Antunes revelara que o seu primeiro contacto com a literatura aconteceu com a página de necrologia do jornal que o seu avô comprava diariamente.
"A morte era uma fonte de alegria para o meu avô, porque uma coisa que só acontecia aos idiotas", recordou.
António Lobo Antunes disse que depois descobriu Flash Gordon e as personagens de Walt Disney, que o entusiasmaram.
Os seus primeiros escritos, disse, foram os obituários do rato Mickey, do Pato Donald e do mágico Mandrake, com que se entreteve durante dois anos até descobrir as novelas baratas e românticas de Corin Tellado.
Confessou que desde cedo desistiu de enveredar pela poesia, porque dera-se conta de que o que escrevia era muito mau, pelo que era melhor inclinar-se para os romances, o género que mais cultivou.
Aos 15 anos tinha dois leitores reunidos numa única pessoa, que era ele próprio: "Um que pensava que era um génio e outro que pensava que eu era uma merda. Eu cá estava mais inclinado a ter a opinião do segundo. Ambos chamavam-se António Lobo Antunes", acrescentou.
O escritor disse ser favorável a que os livros não incluam o nome do autor na capa, mas sim o do leitor, por que no final de contas são estes que fazem o livro, com a sua leitura e interpretação próprias.
E para detectar um bom livro, explicou, os melhores são aqueles que causam insónias, os que atraem a atenção e começam a "brilhar na obscuridade" quando alguém se levanta a meio da noite e passa perto da biblioteca".
O autor de "Fado Alexandrino" explicou às centenas de pessoas que se juntaram para o ouvir numa das conferências promovidas pela Feira Internacional do Livro de Guadalajara que o seu avô, que tinha o seu nome, detestava os livros, como bom militar que era.
Num dia, ao vê-lo mais uma vez embrenhado na leitura dos livros de Corin Tellado, manifestou de forma clara o seu desgosto.
"Chamou-me, fez uma cara muito séria e perguntou-me se eu era maricas () porque escrever e ler Corin Tellado era sinónimo de mariquice. Eu não sabia o que era (ser) maricas, mas a sua cara era tão séria que lhe respondi: não, não, não, não, não", contou Lobo Antunes.
Por entre os risos dos participantes na sessão, o escritor disse que, face à sua resposta, começou a conversar com o seu avô para saber exactamente o que era um maricas.
"A explicação foi tão confusa e prolífica que não compreendi muito bem o que queria dizer", acrescentou.
Pouco antes, António Lobo Antunes revelara que o seu primeiro contacto com a literatura aconteceu com a página de necrologia do jornal que o seu avô comprava diariamente.
"A morte era uma fonte de alegria para o meu avô, porque uma coisa que só acontecia aos idiotas", recordou.
António Lobo Antunes disse que depois descobriu Flash Gordon e as personagens de Walt Disney, que o entusiasmaram.
Os seus primeiros escritos, disse, foram os obituários do rato Mickey, do Pato Donald e do mágico Mandrake, com que se entreteve durante dois anos até descobrir as novelas baratas e românticas de Corin Tellado.
Confessou que desde cedo desistiu de enveredar pela poesia, porque dera-se conta de que o que escrevia era muito mau, pelo que era melhor inclinar-se para os romances, o género que mais cultivou.
Aos 15 anos tinha dois leitores reunidos numa única pessoa, que era ele próprio: "Um que pensava que era um génio e outro que pensava que eu era uma merda. Eu cá estava mais inclinado a ter a opinião do segundo. Ambos chamavam-se António Lobo Antunes", acrescentou.
O escritor disse ser favorável a que os livros não incluam o nome do autor na capa, mas sim o do leitor, por que no final de contas são estes que fazem o livro, com a sua leitura e interpretação próprias.
E para detectar um bom livro, explicou, os melhores são aqueles que causam insónias, os que atraem a atenção e começam a "brilhar na obscuridade" quando alguém se levanta a meio da noite e passa perto da biblioteca".