Arara é nome para arte colada nas paredes
Porto, 17 set (Lusa) -- São cartazes de um grafismo ousado, umas vezes anunciam eventos, outras vezes coisa nenhuma, e são já uma marca distintiva nas paredes do Porto, produtos da Oficina Arara, coletivo de artistas que quer colar a sua arte nas paredes.
É de um pequeno armazém escondido junto à estação de Campanhã que saem os cartazes irrequietos que têm animado as paredes da Invicta. Uma ave em chamas, onde se pode ler "é o diabo que me chama", uma cabeça que é uma mão, mas que também é um cifrão, não se referem a nenhum evento, enquanto os cartazes para o festival Matanças, para os 10 anos dos Maus Hábitos ou para o Flea Market, são parte mais institucional do percurso de um ano da Oficina Arara.
Miguel Carneiro, Marta Baptista, João Alves, Dayana Lucas e Dário Cannatá, todos com um percurso académico pelas Belas-Artes, criaram, com a Oficina Arara e os seus cartazes em serigrafia, "um espaço de contágio", conforme explica Miguel Carneiro à Lusa: "Tentamos criar um espaço que contrariasse a maior parte do lixo gráfico que anda aí, as abordagens muito superficiais, com uma estética muito viciada. Quisemos restaurar a aura do cartaz, que eles se distinguissem por si, até pela impressão mais analógica que fazemos".
Pelo menos quando se integram na Oficina Arara, os seus seis elementos fogem da imagem robot do gráfico, agarrado ao computador Apple, para voltarem a sujar as mãos. "Estamos muitos saturados de passar muitas horas em frente ao computador e pelo menos este desgaste é mais físico porque a própria serigrafia obriga-nos a pensar como conseguir a plasticidade que não conseguimos no computador", sustenta Miguel Carneiro.
Muita "discussão prévia", muita "luta com os materiais" (que podem ser antigos cartazes recolhidos junto dos serviços camarários) até chegar à fase de impressão na máquina que apelidaram de "Brutemberger", em homenagem ao inventor da imprensa. Objeto essencial para facilitar o trabalho braçal que foi comprada em segunda mão com a ajuda do sétimo elemento do grupo, um engenheiro de nome Luís Silva, transformado em improvisado mecenas.
A serigrafia é uma técnica de impressão em que se deixa passar várias camadas de tinta por telas de rede, previamente sujeitas a uma sensibilização, que pode ser feita através de processo fotográfico. É muito utilizada por artistas para produzirem séries de obras numeradas, mais acessíveis ao público geral que um original.
"Tentamos, ao máximo, tornar a serigrafia um objeto artístico em si e não uma reprodução fidedigna de um original" contrapõe Miguel Carneiro. "Sempre que podemos arriscamos, fazemos o máximo de variações" acrescenta o artista que trouxe para a Oficina Arara anterior uma experiência de trabalho na Le Dernier Cri, editora de Marselha que faz livros inteiramente serigrafados.
A Oficina Arara aceita encomendas para cartazes, mas procura divulgar projetos de que sejam "cúmplices". Parafraseando um conhecido lema, Miguel Carneiro é assertivo: "A vida é demasiado curta para fazer maus cartazes e para alimentar maus eventos".
Os cartazes da Oficina Arara vão estar em breve visíveis num sítio renovado, a inaugurar este mês (para já é http://www.oficina-arara.org/) e podem ser encontrados em algumas galerias do Porto, como a Gesto. Mas os elementos do coletivo são muitas vezes abordados para os vender diretamente e, nessa ocasião, praticam preços entre os 20 e 30 euros.
A rua, porém, é o seu meio natural. "A rua é uma das coisas que mais nos fascina porque é um espaço comum que ainda não está demasiado manipulado, que ainda tem uma margem de intervenção", afirma Miguel Carneiro, que acrescenta: "Por isso podemos divulgar eventos mas também provocar as pessoas. Por arte na rua é obrigar as pessoas a olhar, a restaurar os sentidos..."
DP
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