Aristides Sousa Mendes e o Museu do Holocausto

A 8 de Agosto de 1941, o jornal judaico nova-iorquino Der Tag publicou a carta de um leitor que queria contar ao mundo como um diplomata português salvou dezenas de milhares de judeus dos campos de concentração nazis.

Agência LUSA /

Em plena Segunda Guerra Mundial, o rabino Chaim Kruger, um refugiado acabado de chegar a Nova Iorque, pretendia dar a conhecer imediatamente aos judeus de todo o mundo o acto heróico de Aristides de Sousa Mendes, homenageado no Museu do Holocausto, em Jerusalém.

Em poucas linhas, Kruger contou na carta que, um ano antes, estava com a mulher e as cinco filhas no meio de uma multidão de refugiados reunida no largo da sinagoga de Bordéus, desesperados para conseguir os vistos que lhes permitiriam escapar aos soldados alemães, quando lhe apareceu à frente Aristides de Sousa Mendes, que tinha conhecido anos antes como cônsul-geral de Portugal em Anvers.

Sousa Mendes, então no consulado de Bordéus, tinha saído para uma volta de reconhecimento pelas ruas da cidade, pejadas de refugiados, e de imediato se ofereceu para receber os Krugger na sua residência e para lhes conceder vistos de trânsito para Portugal.

O rabino agradeceu mas, segundo o seu relato, apontou para a multidão que o rodeava e disse que não podia separar-se da sorte dos companheiros de fuga, ao que Sousa Mendes respondeu com instruções para que formasse uma fila à porta do consulado porque ele não abandonaria ninguém às mãos das tropas nazis.

Até hoje, os historiadores não conseguem chegar a acordo quanto ao número de vistos que Sousa Mendes emitiu durante aqueles fatídicos três dias.

Foram dezenas de milhar e vários relatos indicam que, a partir de certa altura, o cônsul deixou de perder tempo a fazer registos e, mesmo quando dois funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros o foram buscar por desobedecer a ordens expressas de Salazar, Sousa Mendes ainda escreveu vistos, pelo seu próprio punho, no posto fronteiriço de Hendaia.

Na altura em que a carta foi publicada, o mundo confrontava-se com problemas graves e o modesto relato publicado pelo rabino Krugger no Der Tag passou quase despercebido.

Passados 27 anos, em finais de 1968, quando em Portugal tinha já chegado ao fim o regime de Salazar, a redacção do jornal britânico Jewish Chronicle pediu ao seu correspondente em Lisboa um artigo resumido sobre a relação dos judeus com a ditadura em Portugal.

Ignorando, como quase todo o mundo, a história do cônsul de Bordéus, o jornalista mencionou, nomeadamente, que no tempo de Salazar a nação portuguesa deu asilo a muitos milhares de refugiados judeus.

Logo após a publicação do artigo, a redacção do Jewish Chronicle recebeu uma carta de Nova Iorque, assinada por Joana Mendes, reclamando com o que considerava "um artigo encomendado por Salazar".

Joana Mendes explicava, na carta, que quem salvou os judeus foi o seu pai, Aristides de Sousa Mendes, e que, por isso, "Salazar matou-o".

O jornalista, surpreendido, procurou informar-se junto do então vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Elias Baruel, que lhe confirmou os factos, acrescentando todavia que não era ainda possível falar sobre eles.

Só não era verdade que Aristides tinha sido morto pelo regime.

Fora antes demitido e morrera na miséria, doente e desalentado.

Segundo Baruel, a pequena comunidade judaica, assoberbada como estava com a assistência que tinha de prestar a tantos refugiados, desprovidos de tudo, procurou ajudar o diplomata e a sua família dentro das suas possibilidades.

Sempre que se encontravam em Lisboa, por exemplo, os Sousa Mendes comiam na Cozinha Económica da Comunidade Israelita de Lisboa, juntamente com os refugiados. E a Comunidade ajudou alguns dos 13 filhos do cônsul, nascidos nos Estados Unidos, a emigrarem e a juntarem-se ao exército norte-americano na Europa.

Mas Joana Mendes não se contentou com a confirmação da sua versão. Fez fotocópias do artigo do Jewish Chronicle e da troca de correspondência e enviou-as a vários destinatários.

Um deles, o cônsul-geral de Israel em Nova Iorque, fez chegar a carta ao Yad Vashem, o organismo israelita que perpetua a memória das vítimas do Holocausto.

Assim, graças ao artigo do Jewish Chronicle e à carta de Joana Mendes, aquele organismo abriu um processo em nome de Aristides de Sousa Mendes e remeteu-o para um grande número de entidades com um pedido de testemunhos das acções humanitárias do diplomata português.

Além do rabino Chaim Kruger, dezenas de outros refugiados enviaram os seus relatos e louvaram a bondade e a coragem de Sousa Mendes.

Não apenas judeus, mas também refugiados políticos e até a Grã- Duquesa do Luxemburgo, cuja família foi salva da prisão, ou o oficial às ordens do Arquiduque Otto de Habsburgo, a quem Sousa Mendes concedeu, às dez da noite, nove vistos para toda sua comitiva, que incluía a famosa imperatriz Sissi.

Yad Vashem decidiu conceder uma medalha a Aristides de Sousa Mendes, a título póstumo, e plantar uma árvore em sua memória, na Avenida dos Justos, em Jerusalém, junto ao seu Museu, o Museu do Holocausto.

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