Armando José Fernandes, um compositor "injustamente desconhecido"

Armando José Fernandes, cujo centenário de nascimento se celebra este mês, foi um compositor talentoso, de grande refinamento e com harmonias requintadíssimas, sendo todavia, injustamente, um desconhecido, afirmou à Lusa o musicólogo Alexandre Delgado.

Agência LUSA /

A divulgação da sua obra através da edição das partituras e a gravação de CD devia ser, segundo o musicólogo, uma das apostas destas celebrações.

Armando José Fernandes, falecido em 1983, deixou uma "obra relativamente pouco vasta, mas tudo o que fez vale a pena", salientou Alexandre Delgado, que, como violetista, gravou do compositor a Sonata para viola e piano, em recente edição da etiqueta Coriolan.

Para o músico, "é injusto o esquecimento a que foi votada a obra de Armando José Fernandes, o que é um anátema português", mas a tal não será alheio o facto de o compositor ser "de uma timidez excessiva".

"Era uma pessoa - descreveu - extremamente tímida e modesta, nunca teve grande afirmação nos meios de comunicação, nomeadamente com artigos de opinião".

Professor de composição no Conservatório de Lisboa, de 1953 a 1976, Fernandes integrou o Gabinete de Estudos Musicais da Emissora Nacional em 1942, "onde foi um dos seus compositores paradigmáticos", sublinhou.

Neste gabinete, lembrou Delgado, Fernandes compôs parte substancial da sua produção orquestral e de câmara.

Todavia, nunca foi "um compositor de regime", e, se o compararmos a Fernando Lopes Graça, ele está "no outro extremo".

Lopes Graça, de que se assinala também este ano o centenário do nascimento, constituiu com Armando José Fernandes, Pedro do Prado e Jorge Croner de Vasconcelos o "Grupo dos Quatro", que "trouxe um refrescamento de ideias ao meio musical português na década de 1930".

"Ao contrário do empenhamento cívico e político de Lopes Graça, Armando José Fernandes está no outro extremo, pois era um músico totalmente apolítico, nunca fez comentários políticos, se era a favor ou contra", explicou Delgado.

"Sendo a mais abstracta das artes, a música não tem de estar ligada à política", observou o musicólogo, chamando a atenção para o facto de Armando José Fernandes se ter dedicado em absoluto à composição musical e cultivado "o gosto pelas formas clássicas".

"Por natureza - qualificou - é um neo-clássico, criou temas e melodias de contornos límpidos, propícios a estruturas nítidas, especialmente oriundas da forma-sonata".

Delgado precisou, nesta sequencia, que o compositor privilegiou "a forma sonata, concerto e suite, desenvolveu uma música pura, na medida em que é despojada de qualquer inspiração extra- musical" e "interiorizou modelos clássicos que lhe eram caros", transpondo-os para o século XX.

O bailado "O homem do cravo na boca" (1941), criado para os Bailados Verde Gaio, é uma das raras melodias com uma inspiração extra- musical, pois se baseia numa lenda popular.

O seu gosto "extremamente aristocrático, distinto e refinado" afastou-o de um certo folclorismo cultivado pelo Estado Novo (1933- 1974).

Na avaliação de Delgado, "aproveitava os temas de folclore com muito bom gosto e com graça".

Ainda a este propósito, o musicólogo recordou "Fantasia sobre temas populares portugueses, para piano e orquestra", escrita quando (José Fernandes) esteve em Paris. "É uma vergonha não estar ainda editada em disco", afirmou.

Armando José Fernandes foi para Paris em 1934 como bolseiro da Junta nacional da Educação, tendo nessa altura estudado "com a nata da nata" e sido o único aluno português de Igor Stravinsky e de Nadia Boulanger. Recebeu ainda lições de Paul Dukas e Roger Ducasse.

Na sua música, José Fernandes mostra grande ligação com compositores franceses, nomeadamente Gabriel Fauré, Francis Poulenc e sobretudo Maurice Ravel, "provavelmente o compositor que mais admirava".

Delgado considera ter sido na música de câmara e na música concertante que se concentrou o melhor do talento de Armando José Fernandes.

Destacou nesta área, as três sonatas que Armando José Fernandes dedicou entre 1944 e 1946 ao violoncelo, à violeta e ao violino, com acompanhamento de piano, e que "formam um conjunto de surpreendente qualidade, numa época em que raros compositores conseguiam insuflar vida nas velhas formas instrumentais".

Concretamente, o "larghetto" da sonata para violino é "uma das inspirações mais pessoais e pungentes do compositor, de uma angústia absoluta e profunda, sem patetismos, um dor entranhada, expressa com uma contenção maravilhosa".

Por outro lado, o "Concerto para violino" (1948) é, segundo Delgado, é um dos melhores concertos para violino, escritos por portugueses, ao lado do de Luís Freitas Branco.

A sinfonia foi o único género orquestral que Armando José Fernandes não cultivou.

A última obra do compositor data de 1980, uma encomenda da Secretaria de Estado da Cultura, ""Sonata a 3 para violino, violoncelo e piano".

Na década de 1970 a produção do compositor foi reduzida, até porque "foi-se cavando o fosso entre a sua estética e aquelas direcções extremamente renovadoras de que o Jorge Peixinho é o nome chave - a música de vanguarda, experimental, a música tonal, concreta".

"Armando José Fernandes - assinalou - estava nos antípodas de tudo isto e sentia-se um homem fora do seu tempo".

Para este centenário, Alexandre Delgado aponta como essencial a edição das partituras das suas obras fundamentais. Não há, por exemplo, uma única obra de orquestra editada.

O investigador reputa de "fundamental" editar as obras concertantes, o resto da música de câmara e gravar em disco o que ainda não está.

"No mínimo - enfatizou - a `Suite orquestrante para piano e orquestra`, a `Fantasia para piano e orquestra` e o `Concerto para violiono`".

Do ponto de vista conceptual, Armando José Fernandes criou "um universo seu, específico, que corresponde a ele próprio e espelha o seu ser".

Musicalmente, Delgado realça a "importância do refinamento tímbrico na sua obra, além das harmonias que encontrava no piano e que são requintadíssimas, sempre tonal ou tonal/modal".


PUB