Arquitetura deve ser portadora do direito à beleza nas favelas, diz Jorge Mario Jáuregui

Os projetos de urbanização e arquitetura nas favelas devem ser portadores do direito à beleza, disse à Lusa o arquiteto argentino radicado no Brasil Jorge Mario Jáuregui.

Lusa /

"Para que as nossas cidades sejam melhores, mais visíveis, mais bonitas, desejáveis de serem vividas precisamos fazer com que a elaboração arquitetónica, urbanística e paisagística de cada objeto que se insere na cidade seja altamente elaborado", afirmou Jáuregui.

O arquiteto participou no debate "Arquitetura na Favela", inserido na programação do 27.° Congresso Mundial de Arquitetos, que decorre desde março a partir do Rio de Janeiro.

"Na favela, a responsabilidade se duplica porque nenhum morador vai poder contratar particularmente um arquiteto, então, a função social do arquiteto é redobrada. Ele é o portador do direito à beleza", acrescentou.

Autor de uma intervenção urbanística que reconfigurou parte do complexo de favelas de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, dentro de uma iniciativa chamada Favela-Bairro, e do projeto do teleférico do Alemão, Jáuregui explicou que a urbanização nas comunidades pobres `cariocas` além de atender necessidades urgentes dos moradores também atua na separação entre o público e privado.

"Na favela não existe nominalmente espaço público, ninguém está no espaço público porque tudo que não é privado não é de ninguém. O projeto [urbanização] vem justamente instaurar a noção de espaço público. Quando terminamos a urbanização, por contrato, temos que apresentar às autoridades como foi construído, o que ficou", explicou.

"Este plano implica separar o público do privado. A casa de qualquer um, seja individual ou coletiva, do resto de espaço que passa a ser espaço comunitário, espaço público. A partir daí há um limite claro", apontou.

Segundo Jáuregui, o espaço público está configurado pela interface da fachada urbana que delimita de um lado o privado, a privacidade, o mundo particular, e do outro lado o espaço coletivo.

"Por isto, a enorme responsabilidade [da arquitetura] de configurar, de formalizar de espacializar esta pele que pode ter espessuras variáveis, entre o público e privado. A noção de espaço público passa a existir formalmente e as pessoas passam a saber o que é espaço público depois dos projetos configurados [nas favelas]", frisou.

O arquiteto lembrou que a rua já é um espaço muito usado nas comunidades e favelas `cariocas`, mas ainda falta nestes lugares a função social do arquiteto de garantir o direito ao belo como acontece em outras partes da cidade.

"A gente quer que este limite entre o individual e o coletivo seja, além de funcional, bonito. Isto tem relação com direto a beleza (...). Esta membrana, esta superfície que constitui o limite entre o público e o privado, o individual e coletivo, tem que ser portadora de uma ideia de representatividade", destacou.

Vencedor do Grande Prémio da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em 1999 e do "Sixth Veronica Rudge Green Prize" em Desenho Urbano da Universidade de Harvard, em 2000, o arquiteto argentino radicado no Brasil também foi responsável pela criação do teleférico do Alemão, obra que colocou as favelas no circuito turístico do Rio de Janeiro, a cidade mais visitada do Brasil.

Inaugurado em julho de 2011, o teleférico do Alemão ligava através de 3,5 quilómetros de cabos várias partes do complexo urbano formado por 17 favelas, mas acabou fechado logo após as Olimpíadas, em 2016, e está há quase cinco anos sem funcionar.

Questionado sobre como se sente ao ver o teleférico que já descreveu como uma "possibilidade mágica de observar a vida nas favelas de maneira positiva" desativado, Jáuregui explicou que o abandono do teleférico reflete a falta de coordenação entre urbanismo e segurança cidadã no Rio de Janeiro.

"[O projeto do teleférico] deu certo, é um folclore dizer que não. É só voltar a funcionar que dará certo de novo. Ele foi abandonado pelo poder público que usou o argumento de que o tráfico [de drogas] tinha tornado o lugar inseguro", explicou.

"O tráfico existia enquanto o teleférico funcionava, mas havia as UPP [Unidade de Polícia Pacificadora, projeto de segurança que existiu em algumas favelas do Rio] no complexo do Alemão, que impunham alguma ordem. Desde o momento em que as UPP foram abandonadas, sucateiras, o tráfico voltou de novo a tomar conta do lugar onde estão os teleféricos", concluiu Jáuregui.

O 27.º Congresso Mundial de Arquitetos esteve inicialmente previsto para decorrer em 2020, mas foi adiado para 18 a 22 de julho de 2021, devido à pandemia de covid-19, decorrendo apenas em formato `online`, em Semanas Abertas de debates, entre março e junho, a partir do Rio de Janeiro.

Em julho, o congresso terá sete palcos digitais com atrações simultâneas, entre as quais apresentações de 20 oradores principais. Todo o conteúdo estará disponível na plataforma exclusiva aos inscritos por dois anos.

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