Cultura
Arquivo da embaixada mexicana em Lisboa revela histórias da Guerra Civil de Espanha
A Secretaria de Relaciones Exteriores do México permitiu ao diário espanhol El Pais que consultasse pela primeira vez o acervo documental de Embaixadas mexicanas que participaram no salvamento de refugiados da Guerra Civil de Espanha. Entre essas encontra-se a Embaixada em Lisboa, que aí teve papel fundamental. Eis portanto um arquivo que certamente interessará a todas as pessoas que em Portugal se dedicam à investigação histórica.
O artigo, da autoria de Luis Prados, hoje publicado no diário espanhol, relata vários casos de republicanos que se refugiaram em Portugal, com abundância de detalhes e de histórias de vida impressionantes, e que acabaram por salvar-se graças ao decisivo apoio da Embaixada mexicana. Esses refugiados receberam também alguma ajuda da organização humanitária norte-americana USC (Unitarian Service Committee), criada para apoiar refugiados judeus em fuga perante o nazismo.
O USC trabalhou clandestinamente com a Embaixada mexicana para salvar refugiados da Guerra de Espanha iludindo a vigilância hostil das autoridades portuguesas.
A política de Salazar contra os refugiados espanhóis Com efeito, o Governo de Salazar por via de regra entregava à vizinha ditadura de Franco todos os republicanos fugidos, com plena consciência do risco de vida que isso implicava, e com conhecimento dos muitos casos em que significou uma efectiva execução de condenações à morte.
Rara excepção a essa regra foi a ajuda que deu Salazar a Claudio Sánchez-Albornoz, o antigo embaixador republicano em Lisboa. Em 1936, este vira-se expulso pelo ditador e refugiara-se em Bordéus, donde fugiu por mar após a invasão alemã. Após uma viagem acidentada, com escala em Marrocos, viria parar a Lisboa. Aí, Salazar, que se diz ter sido admirador da obra de Sánchez-Albórnoz como académico lusitanista, terá tentado redimir-se da feroz campanha contra o embaixador republicano facilitando ao estudioso a viagem para o México. Albornoz viria mais tarde a ser o presidente do governo republicano no exílio.
A política francesa contra os refugiados espanhóis Também em França, muitos dos refugiados espanhóis se viram confinados ao campo de concentração de Argelès, em condições degradantes. Casos de pessosas biografadas a partir do acervo agora acessível exemplificam um procedimento de deportação de França para Espanha. Um desses casos é o de Ángel Ansareo Grandas, entregue pelas autoridades francesas à ditadura franquista, fugido da cadeia, recapturado em 1940, condenado à morte, indultado em 1943, guerrilheiro na fronteira luso-galega, refugiado clandestino em Lisboa em 1946 e depois exilado no México.
Era conhecida a actividade humanitária de vários diplomatas mexicanos em França, mas, apesar dos exaustivos trabalhos do historiador Patrick von zur Mühlen, supunha-se em versões correntes até agora que essa actividade resultava de iniciativas individuais, ao ponto de se lhes ter atribuído o cognome colectivo de "os Schindler mexicanos". Uma das novidades que a investigação de Luis Prados reflecte é o apoio que os diplomatas tiveram, afinal, do Governo mexicano da altura, presidido por Lázaro Cárdenas.
Esse apoio não diminui, em todo o caso, a coragem pessoal de que por vezes tiveram de dar provas, numa França directa ou indirectamente dominada pelos nazis, sendo conhecido o empenhamento que estes tiveram pela vitória de Franco e o apoio quase solitário que o México concedera à República espanhola.
As personagens do enredoÉ certo que o apoio aos refugiados não era uma atitude dos diplomatas mexicanos independente de filiações políticas. Embora esse apoio se estendesse a outros antifascistas europeus e a refugiados judeus, vindo a ser homenageado posteriormente por organizações judaicas, não deixa de contrastar com a atitude face ao exílio de Trotsky no México de Narciso Bassols, embaixador em França no ano de 1939. Embora Bassols se tenha empenhado no apoio aos refugiados republicanos nesse ano decisivo do seu êxodo para França, ele opôs-se ao exílio do revolucionário russo no México, vindo mesmo a romper com Cárdenas por esse motivo.
Luís Rodriguez, que foi depois embaixador em França no lapso curto mas decisivo entre Julho e Dezembro de 1940, conseguiu a muito custo obter do governo colaboracionista de Pétain salvo-condutos para vários políticos republicanos espanhóis. Rodriguez foi também protagonista de um episódio que o enfrentou com o autarca pétainista de Montauban, decidido a fazer enterrar sob a bandeira franquista o presidente da República espanhola falecido no exílio Manuel Azaña. Rodríguez protestou escandalizado contra essa "blasfémia" e, à falta de poder impor a bandeira da República espanhola, cobriu Azaña com a bandeira mexicana. Anos mais tarde, em 1973, Rodríguez foi a enterrar no México sob a bandeira republicana que Azaña não pôde ter no seu funeral.
Outro diplomata mexicano com uma acção notável em França foi o cônsul-geral em Paris, Gilberto Bosques. Após a capitulação francesa em Junho de 1940, Bosques mudou o consulado para Marselha, na França não ocupada. Aí alugou um castelo onde alojou 850 refugiados espanhóis e outro onde alojou 500. Bosques inspirou uma das personagens do famoso romance Transit, da escritora alemã Anna Seghers, que retrata a luta angustiante, em Marselha, por vistos de trânsito pela Espanha e Portugal, com destino ao México.
Quando o México declarou guerra à Alemanha, a Legação mexicana em França foi invadida pela Gestapo e Bosques foi enviado para uma prisão em Bad Godesberg, na Alemanha. Aí permaneceu durante um ano, até ser deportado para o México.
Gilberto Bosques, o protagonista do capítulo portuguêsNo fim da Segunda Guerra Mundial Gilberto Bosques foi nomeado embaixador em Portugal, e depois em vários países europeus, vindo a concluir a sua carreira em Cuba, onde assistiu no posto à revolução de 1959.
Foi ele o protagonista das mais dramáticas histórias de apoio a refugiados espanhois no nosso país. Sobre essa fase da sua carreira, disse mais tarde que foi encarregado de "auxiliar os refugiados espanhóis que atravessavam a fronteira entre Espanha e Portugal e eram capturados pela polícia portuguesa para serem entregues a Franco. Normalmente o seu destino era o patíbulo".
O USC trabalhou clandestinamente com a Embaixada mexicana para salvar refugiados da Guerra de Espanha iludindo a vigilância hostil das autoridades portuguesas.
A política de Salazar contra os refugiados espanhóis Com efeito, o Governo de Salazar por via de regra entregava à vizinha ditadura de Franco todos os republicanos fugidos, com plena consciência do risco de vida que isso implicava, e com conhecimento dos muitos casos em que significou uma efectiva execução de condenações à morte.
Rara excepção a essa regra foi a ajuda que deu Salazar a Claudio Sánchez-Albornoz, o antigo embaixador republicano em Lisboa. Em 1936, este vira-se expulso pelo ditador e refugiara-se em Bordéus, donde fugiu por mar após a invasão alemã. Após uma viagem acidentada, com escala em Marrocos, viria parar a Lisboa. Aí, Salazar, que se diz ter sido admirador da obra de Sánchez-Albórnoz como académico lusitanista, terá tentado redimir-se da feroz campanha contra o embaixador republicano facilitando ao estudioso a viagem para o México. Albornoz viria mais tarde a ser o presidente do governo republicano no exílio.
A política francesa contra os refugiados espanhóis Também em França, muitos dos refugiados espanhóis se viram confinados ao campo de concentração de Argelès, em condições degradantes. Casos de pessosas biografadas a partir do acervo agora acessível exemplificam um procedimento de deportação de França para Espanha. Um desses casos é o de Ángel Ansareo Grandas, entregue pelas autoridades francesas à ditadura franquista, fugido da cadeia, recapturado em 1940, condenado à morte, indultado em 1943, guerrilheiro na fronteira luso-galega, refugiado clandestino em Lisboa em 1946 e depois exilado no México.
Era conhecida a actividade humanitária de vários diplomatas mexicanos em França, mas, apesar dos exaustivos trabalhos do historiador Patrick von zur Mühlen, supunha-se em versões correntes até agora que essa actividade resultava de iniciativas individuais, ao ponto de se lhes ter atribuído o cognome colectivo de "os Schindler mexicanos". Uma das novidades que a investigação de Luis Prados reflecte é o apoio que os diplomatas tiveram, afinal, do Governo mexicano da altura, presidido por Lázaro Cárdenas.
Esse apoio não diminui, em todo o caso, a coragem pessoal de que por vezes tiveram de dar provas, numa França directa ou indirectamente dominada pelos nazis, sendo conhecido o empenhamento que estes tiveram pela vitória de Franco e o apoio quase solitário que o México concedera à República espanhola.
As personagens do enredoÉ certo que o apoio aos refugiados não era uma atitude dos diplomatas mexicanos independente de filiações políticas. Embora esse apoio se estendesse a outros antifascistas europeus e a refugiados judeus, vindo a ser homenageado posteriormente por organizações judaicas, não deixa de contrastar com a atitude face ao exílio de Trotsky no México de Narciso Bassols, embaixador em França no ano de 1939. Embora Bassols se tenha empenhado no apoio aos refugiados republicanos nesse ano decisivo do seu êxodo para França, ele opôs-se ao exílio do revolucionário russo no México, vindo mesmo a romper com Cárdenas por esse motivo.
Luís Rodriguez, que foi depois embaixador em França no lapso curto mas decisivo entre Julho e Dezembro de 1940, conseguiu a muito custo obter do governo colaboracionista de Pétain salvo-condutos para vários políticos republicanos espanhóis. Rodriguez foi também protagonista de um episódio que o enfrentou com o autarca pétainista de Montauban, decidido a fazer enterrar sob a bandeira franquista o presidente da República espanhola falecido no exílio Manuel Azaña. Rodríguez protestou escandalizado contra essa "blasfémia" e, à falta de poder impor a bandeira da República espanhola, cobriu Azaña com a bandeira mexicana. Anos mais tarde, em 1973, Rodríguez foi a enterrar no México sob a bandeira republicana que Azaña não pôde ter no seu funeral.
Outro diplomata mexicano com uma acção notável em França foi o cônsul-geral em Paris, Gilberto Bosques. Após a capitulação francesa em Junho de 1940, Bosques mudou o consulado para Marselha, na França não ocupada. Aí alugou um castelo onde alojou 850 refugiados espanhóis e outro onde alojou 500. Bosques inspirou uma das personagens do famoso romance Transit, da escritora alemã Anna Seghers, que retrata a luta angustiante, em Marselha, por vistos de trânsito pela Espanha e Portugal, com destino ao México.
Quando o México declarou guerra à Alemanha, a Legação mexicana em França foi invadida pela Gestapo e Bosques foi enviado para uma prisão em Bad Godesberg, na Alemanha. Aí permaneceu durante um ano, até ser deportado para o México.
Gilberto Bosques, o protagonista do capítulo portuguêsNo fim da Segunda Guerra Mundial Gilberto Bosques foi nomeado embaixador em Portugal, e depois em vários países europeus, vindo a concluir a sua carreira em Cuba, onde assistiu no posto à revolução de 1959.
Foi ele o protagonista das mais dramáticas histórias de apoio a refugiados espanhois no nosso país. Sobre essa fase da sua carreira, disse mais tarde que foi encarregado de "auxiliar os refugiados espanhóis que atravessavam a fronteira entre Espanha e Portugal e eram capturados pela polícia portuguesa para serem entregues a Franco. Normalmente o seu destino era o patíbulo".