Arquivo digital Humberto Delgado

Cerca de 20 mil documentos sobre Humberto Delgado, que foi assassinado em 1965, vão ficar disponíveis no arquivo digital com o nome do "General Sem Medo", que hoje foi apresentado na Torre do Tombo, em Lisboa.

Agência LUSA /

O site, com o endereço www.humbertodelgado.pt, reúne um espólio facultado por diversos arquivos, nomeadamente o Arquivo Oliveira Salazar, o Arquivo Histórico Militar e o Arquivo Histórico da Força Aérea.

Do Arquivo Histórico Militar foram disponibilizados 1.049 documentos, do Arquivo Histórico da Força Aérea 2.210 e do Arquivo Histórico Diplomático 2.630 documentos, enquanto 7.465 foram recolhidos junto do Arquivo da PIDE/DGS e de outras fontes em Portugal e no estrangeiro e várias de cariz particular.

"Humberto Delgado tinha os maiores processos individuais na PIDE, o que mostra que era realmente encarado como o inimigo número um do regime de Salazar", disse na cerimónia Frederico Rosa, coordenador do arquivo digital.

Em declarações à Agência Lusa, Frederico Rosa esclareceu que "para já estão disponíveis cerca de 70 por cento dos 20 mil documentos, pois os restantes 30 por cento estão ainda a ser digitalizados para entrarem no site".

Presente na Torre do Tombo ao final da sessão, a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, enalteceu a "importância histórica ímpar" da figura "destemida" de Humberto Delgado, tendo recordado a sua faceta de memorialista e de autor de textos teatrais radiofónicos.

Sobre o arquivo digital, uma das iniciativas do centenário do nascimento de Humberto Delgado, a ministra salientou que a disponibilização do espólio na Internet é uma acção de "formação para a cidadania".

Além da apresentação do arquivo digital, a sessão incluiu o lançamento do livro "Uma Brasileira contra Salazar", que parte de textos de Arajaryr Campos, a secretária de Humberto Delgado no exílio que viria a morrer com ele a 13 de Fevereiro de 1965, na fronteira entre Portugal e Espanha.

A apresentação desta obra, com uma longa nota introdutória de Iva Delgado, filha do general, esteve a cargo de Luísa Moura, da Confederação de Mulheres do Brasil, que se mostrou emocionada com o reconhecimento de que Arajaryr Campos, companheira de luta de Humberto Delgado que "acreditou na causa da liberdade portuguesa" foi "uma heroína".

Também divulgado hoje na Torre do Tombo foi o documentário "Meu Pai, Humberto Delgado", realizado por Francisco Manso e no qual Iva Delgado, filha do general, recorda alguns dos momentos mais emblemáticos da vida do político, aviador e pai de família.

O documentário, que será divulgado na televisão a 15 de Maio, quando passam 100 anos sobre o nascimento do general, mostra a sua paixão pela aviação, e refere a sua participação no Golpe de Beja, em 1962, que falhou na tentativa de depor o regime.

O filme recupera ainda o perfil político do general, célebre pela frase "Obviamente, demito-o", que disse a 10 de Maio de 1958, na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura à Presidência da República.

Humberto Delgado respondia assim a um jornalista da Agência France Presse, que lhe perguntou o que faria em relação a Salazar se fosse eleito.

Porém, a 08 de Junho de 1958, dia das eleições, o "General Sem Medo" perdeu para Américo Tomaz devido a uma fraude eleitoral.

A sua situação tornou-se mais complicada e seguiu-se o exílio para o Brasil e posteriormente para a Argélia, país a partir do qual se deslocou a Portugal em 1965, julgando que se ia reunir com camadas comunistas quando, afinal, o esperava uma cilada da PIDE.

O homem que queria "pacificamente conquistar a paz", mas que reconheceu estar pronto a "morrer pela liberdade" tem esta mesma frase inscrita num monumento erguido em Villanueva del Fresno, Espanha, onde o seu corpo e o de Arajaryr Campos foram encontrados a 13 de Abril de 1965, dois meses após o assassinato.

Além das iniciativas de celebração dos cem anos do nascimento do general hoje apresentadas, outras irão ter lugar ao longo de 2006.

Em Maio, Humberto Delgado, que fundou a TAP em 1945, quando era director do Secretariado de Aeronáutica Civil, vai ser objecto de uma exposição itinerante intitulada "Humberto Delgado e a Liberdade dos Céus", promovida pela ANA - Aeroporto e Navegação Aérea.


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