Arte entra no hospital S. Francisco Xavier

A imagem de um passadiço que convida o olhar à imersão num rio tranquilo chama discretamente a atenção dos doentes que esperam na urgência do hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, sugerindo algo novo neste espaço monocordicamente amarelado.

Agência LUSA /
As Urgências do hospital Lusa

Na sala de triagem, as cores explosivas da enorme tela de Sofia Areal comprovam definitivamente a mudança que se operou desde há três semanas na Urgência da Zona Ocidental de Lisboa, onde são diariamente atendidos 260 doentes, com a instalação de 89 obras de 22 pintores, fotógrafos e médicos do hospital, pelas paredes do serviço.

Luís Campos, director do serviço de urgência do hospital, mentor da iniciativa e fotógrafo que expõe desde 1982, é um defensor acérrimo do que se designa +Ambiente para a Cura+, em que a presença de arte nos hospitais é um componente essencial.

"Basta de os hospitais serem todos monocromáticos", advoga, e justifica esta iniciativa inédita com o estar "demonstrada a importância que as questões do ambiente têm para a recuperação dos doentes".

"Sabia que o azul tem uma acção calmante, que o vermelho pode provocar ataques epilépticos em alguns doentes, que o amarelo pode prejudicar o sono, ou que o laranja é mais adequado para áreas sociais?", questiona.

"Pode-se utilizar a paleta de cores" para modificar o ambiente de uma urgência hospitalar e é "completamente diferente entrar num serviço com paredes monocromáticas ou estar junto de um quadro, que indica dignidade, alegria", sublinha Luís Campos.

Ao longo do corredor da urgência o olhar é guiado por obras de Fernanda Fragateiro, Julião Sarmento, João Paulo Feliciano e Suzanne Themlitz, mas no frenesim da passagem de macas os olhos dos doentes transportados miram, sem expressão, as luzes fluorescentes do tecto.

Na sala do balcão das mulheres, médicos e enfermeiros afadigam- se em torno de vários doentes, a maioria idosas de olhos cerrados.

Carla está sentada numa cadeira de rodas, a cara baixa escondida sob o cabelo longo acastanhado, e afirma que não notou diferença nenhuma na urgência do S. Francisco Xavier desde que cá veio pela última vez.

Sobre as obras de Pedro Falcão e Xana instaladas nesta sala diz que "não trazem grande vantagem por aqui estarem", mas "ajuda.

Pelo menos olha-se para alguma coisa, em vez de coisas que fazem confusão".

Os doentes "podem não olhar", admite Luís Campos, "mas é completamente diferente passarem por um ambiente com paredes sempre iguais, ou passaram e forem vendo estas manchas de cor".

No corredor do Serviço de Observação que dá acesso às várias salas, macas com doentes, móveis carregados de equipamento, calhas de fios eléctricos, cartazes sobre programas de saúde e inúmeros papeis colados com as mais variadas indicações criam um ruído visual intenso, que parece abafar qualquer obra de arte.

Tal não é a opinião da enfermeira-chefe, Maria Lurdes Almeida:

"toda a gente dá por eles".

Noémia está deitada há várias horas por baixo de uma obra de Jorge Martins e "sim, já tinha reparado nela. Dá outro aspecto" à sala pequena que partilha com mais duas doentes, "um pouco a sensação de estar em casa".

"Se houvesse música ainda era melhor", atira Sandra, noutra sala acanhada, onde está desde manhã, com a maca estacionada de frente para uma tela de Pedro Falcão. "Faz diferença, se não estava a olhar para a parede creme", diz.

Simplesmente doadas, ou entregues em depósito ao serviço de urgência, as obras que vão passar a acompanhar permanentemente os doentes, e cuja exposição o ministro da Saúde inaugura terça-feira, foram "bem recebidas pela generalidade" dos 170 profissionais fixos e 485 que aí efectuam turnos semanais, conta Luís Campos.

Mas "houve alguns que reagiram mal, porque acham que existem outros problemas mais importantes que têm de ser resolvidos primeiro.

Estou de acordo, mas são problemas que nos ultrapassam, e isto está nas nossas mãos".

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