Artefactos megalíticos descobertos na Coudelaria de Alter do Chão

Perto de duas dezenas de ídolos-placa para colocar ao pescoço dos mortos, com cinco ou seis mil anos, representando a deusa-mãe, símbolo da fertilidade, foram descobertos recentemente na Coudelaria de Alter do Chão, Portalegre.

Agência LUSA /
DR

A descoberta destes artefactos, a maioria dos quais com a representação da deusa-mãe a três dimensões e não apenas esquemática, como era habitual nos achados anteriores no Alentejo, resulta de uma investigação que uma equipa de arqueologia da Universidade de Évora está a desenvolver na Coudelaria de Alter do Chão.

Um território com 850 hectares murados, onde nunca existiu prática agrícola que implicasse o revolver do solo, sendo por isso propício a esta investigação arqueológica, financiada através do ministério da Agricultura e de programas comunitários.

"O projecto está a decorrer desde 2001, por convite da Coudelaria, e é uma área especial porque, como sempre foi zona de pastagens, sem agricultura e ainda para mais murada, os vestígios arqueológicos estão conservados", explicou hoje o coordenador da investigação, Jorge de Oliveira.

Em declarações à Agência Lusa, o mesmo responsável, que coordena a Área Departamental de Arqueologia da Universidade de Évora, adiantou que, de entre "os muitos vestígios" já encontrados no local, a "maior riqueza" prende-se, precisamente, com os ídolos-placa.

Os primeiros dados relacionados com esta descoberta vão ser apresentados nas terceiras Jornadas de Arqueologia do Norte Alentejano, que começaram hoje e se prolongam até sábado, em Fronteira, no Centro Cultural.

Até ao momento, segundo Jorge de Oliveira, os trabalhos incidiram em dois dos "oito ou nove dolmens (ou antas, monumentos funerários)" que foram identificados na Coudelaria, tendo já sido encontrados "quase duas dezenas de ídolos-placa", datados do III ou IV milénio antes de Cristo (a.C.).

"Ficámos espantados porque não estávamos à espera de tanta riqueza patrimonial. Encontrámos de tudo um pouco, mas o mais interessante são estas placas, oriundas do período Neolítico, das primeiras comunidades agro-pastoris que, ali, se sedentarizaram", explicou.

Representando a fertilidade e fecundidade, os ídolos-placa eram colocados, no Alentejo, nos monumentos funerários desse período, para acompanharem os mortos que, acreditava-se, "iniciavam uma viagem para, depois, renascer", sublinhou Jorge de Oliveira.

"Estas placas são exclusivas do Alentejo, tendo apenas sido encontradas, uma ou outra, na Beira Baixa e na Estremadura espanhola.

Andamos sempre à procura de uma imagem ou logotipo para a região quando, afinal, se há algo que marca exclusivamente o Alentejo, ao longo do tempo, é esta ligação à deusa-mãe e à terra", frisou.

O conjunto agora descoberto tem a particularidade de quase todas as placas serem tridimensionais, ou seja, a representação é escavada e moldada em arenito.

"Os muitos ídolos-placa descobertos na região são, normalmente, esquemáticos, já que a deusa-mãe é desenhada em placas de xisto. Só que estes são em relevo e possuem pormenores anatómicos, como os olhos, nariz, tatuagens faciais, mãos e o triângulo púbico, que era o símbolo da fecundidade, muito evidentes", realçou.

Também conhecidas, por exemplo em França ou em Inglaterra, como "placas alentejanas", dada a sua predominância na região, sobretudo no Alentejo Central, estas representações não foram a única descoberta importante da equipa da Universidade de Évora.

"Além disso, conseguimos identificar também o santuário e os espaços onde viviam as pessoas que edificaram as antas. Perante locais de morte tão monumentais, pensávamos que os habitats teriam a mesma grandiosidade mas, afinal, tratavam-se de buracos nos afloramentos graníticos, pequenos núcleos e cabanas paupérrimas", adiantou.

Neste momento, esta investigação na Coudelaria está suspensa, a aguardar a aprovação de novos apoios para que o trabalho de campo possa prosseguir.

"Estamos parados porque apresentámos uma candidatura, no âmbito da Acção Integrada do Norte Alentejano, a programas comunitários para novo financiamento. A reunião para aprovação da mesma deve realizar-se este mês", explicou Jorge de Oliveira, convicto de que o trabalho vai ter continuidade.

Para já, os participantes nas terceiras Jornadas de Arqueologia do Norte Alentejano vão poder conhecer os primeiros resultados do projecto, bem como outras intervenções, já realizadas ou em curso na região, a cargo de vários arqueólogos.

Organizado pela Câmara Municipal de Fronteira e Região de Turismo de S. Mamede, o evento deve reunir, até sábado, mais de uma centena de participantes, encontrando-se as conferências divididas por períodos históricos, desde a pré-história até ao período medieval.

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