Artistas perdem meses de trabalho e galerias sofrem danos - associação
Obras de arte danificadas por inundações ou infiltrações nos ateliês de artistas e exposições retiradas de galerias são o resultado de semanas de mau tempo, segundo um primeiro balanço da presidente da Exhibitio - Associação Lusa de Galeristas, Vera Cortês.
"Tenho conhecimento de muitos artistas e ateliês que tiveram problemas graves de exposições inteiras [em preparação] que foram destruídas porque entrou água de tal maneira que as peças se estragaram", revelou a responsável contactada pela agência Lusa.
De acordo com a presidente da Exhibitio -- que representa 34 galerias do continente e ilhas -- "há várias galerias com problemas de infiltrações", dando o exemplo do seu próprio caso, a Galeria Vera Cortês, em Alvalade, a Miguel Nabinho, em Campo de Ourique, ambas em Lisboa, e da galeria Duarte Sequeira, em Braga.
Instalada num primeiro andar de um edifício na Rua João Saraiva, a Galeria Vera Cortês está com "dois buracos no teto, baldes a apanhar água da chuva, e desumidificadores nas instalações, mas, felizmente nada aconteceu às obras" de arte expostas.
"Houve várias galerias com problemas, mas somos empresas profissionais que cumprem as regras e estão atentas para que as situações do género não cheguem a tornar-se problemas graves. Há danos, mas nada de dramático, porque temos condições para poder operar que nos protegem", comentou a galerista.
Algumas galerias tiveram de encerrar temporariamente os seus espaços expositivos ou desmontar exposições, como foi o caso da galeria Duarte Sequeira, em Braga: "O espaço expositivo principal foi encerrado devido a infiltrações e ainda estamos a avaliar os danos. Felizmente as obras encontram-se a salvo", disse fonte da galeria contactada pela Lusa.
O maior problema, segundo a presidente da Exhibitio, é a situação de muitos artistas que trabalham em ateliês mais vulneráveis ou desprotegidos.
"Há artistas que estavam a trabalhar para preparar exposições e, de repente, caiu-lhes água em cima pelo teto ou o espaço foi inundado. Muitos perderam trabalho de meses", lamentou a presidente da Exhibitio, acrescentando que a associação está concentrada em apoiar estes casos "para que se minimizem os danos".
Num contexto de mau tempo que se prolonga há dois meses, "as galerias estão relativamente protegidas, mas os artistas não têm acesso às condições das empresas, com equipas, [que] conseguem minimizar a destruição".
"Mesmo assim, nada é comparável com o que está a acontecer em zonas do país como Pombal, Leiria ou Coimbra. É pior ainda quando se vê metade do país a sofrer desta forma", lamentou, acrescentando "também o mundo das artes não estava preparado para intempéries desta dimensão".
Mais de 120 museus e monumentos sofreram danos causados pelas tempestades nas duas últimas semanas, com cinco equipamentos da Rede Portuguesa de Museus e quatro do património classificado, como o Convento de Cristo, em Tomar, a apresentarem "danos graves", segundo o último balanço do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, divulgado na quinta-feira.
Equipamentos culturais como o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, em Mação, o Museu Municipal de Santarém - Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire, o m|i|mo - museu da imagem em movimento, em Leiria, e o Museu Municipal de Ourém sofreram "danos graves", segundo a mesma fonte.
Na área do património classificado, também apresentam "danos graves" a cerca do Convento de Cristo, em Tomar - monumento classificado como Património da Humanidade da UNESCO -, a Casa Museu Afonso Lopes Vieira, em São Pedro de Moel, para a qual a Câmara da Marinha Grande deu alerta de dorrocada, no início da semana, a Capela de Nossa Senhora da Encarnação, em Leiria, e a igreja matriz de Cernache do Bonjardim, na Sertã.
Dezasseis pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o encerramento de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.