Assalto à expedição Lisboa-Luanda em 1992 vai ser recordado em livro
Companheiros de aventura do líder do Geoclube do Porto vão editar o livro que João Moutinho tinha terminado, antes falecer recentemente, sobre a malograda expedição Lisboa/Luanda, que terminou em 1992 com um assalto no deserto do Mali.
Rui Pires, um dos seus mais recentes companheiros de aventuras africanas, adiantou à Lusa que João Moutinho já havia terminado o texto do livro intitulado "Crónica de uma emboscada anunciada" e procurava um editor.
No livro é evocado o assalto armado à expedição por um bando de tuaregues, junto à fronteira entre a Argélia e o Mali, e que resultou no desaparecimento de quase duas dezenas de jipes e de milhares de contos em dinheiro e outros bens.
"Esta é uma forma de amigos e antigos membros do Geoclube o homenagearem", sublinhou, adiantando que alguns deles vão também relançar o clube por ele criado nos anos 90 no Porto, "com actividades de descoberta geográfica e cultural".
João Moutinho, nascido em Cabeceiras de Basto, que residiu na maior parte da sua vida na cidade do Porto e ultimamente estava radicado em Braga, faleceu há cerca de um mês, aos 60 anos de idade, sem poder concretizar a ligação Braga/Maputo, que seria a sua última aventura.
Moutinho é considerado o primeiro "homem do norte" duma geração de pioneiros das competições de todo-o-terreno em Portugal e das viagens trans-saharianas das décadas de 70, 80 e 90.
Na década de 80, em parceria com José Manuel Seara Cardoso, conseguiu andar nos primeiros lugares do campeonato nacional de TT, competindo com um jipe UMM de fábrica.
"Era o tempo em que bastava ter mãos para vencer uma prova, porque as marcas ainda não tinham apostado em força na prova", recorda o seu co-piloto.
Para além do gosto pelas provas, João Moutinho começou a aventurar-se pelo deserto argelino, primeiro numa expedição internacional de "dois cavalos", ainda na década de 80, e, mais tarde, nas trans-saharianas, que cruzaram o deserto argelino, e ainda na primeira ligação Lisboa/Bissau.
Em paralelo, fez inúmeras viagens a Marrocos e ao seu deserto, país que o fascinava e onde se terá deslocado pelo menos 40 vezes, "ficando a conhecê-lo de uma ponta a outra", como sublinha Rui Pires.
Entre os amigos que deixou em terras do reino alauita destaca-se o marroquino Achmed, conhecido nos meios do todo-o-terreno como o "português de Chefchaouen" - cidade da zona litoral do país - o qual, em rapaz, estudou em Lisboa no Colégio da família Soares, do pai de Mário Soares.
Na década de 90, e na tentativa de criar uma alternativa de vida à profissão de dentista, pois, segundo Pires, "estava farto de tirar dentes", João Moutinho adquiriu uma frota de cinco jipes Toyota Land Cruiser, com os quais começou a levar passageiros e membros do clube a Marrocos e à Turquia.
Desse modo - recorda Rui Pires - deu a conhecer Marrocos, em especial as montanhas do Alto Atlas e o deserto, a centenas de portugueses, muitos dos quais se tornaram aficionados daquele país.
Em 1994 concebeu um concurso para alunos do Secundário do Porto, promovido pelo Comissariado das Comemorações do Centenário do Infante D. Henrique, tendo os vencedores sido transportados pelo Geoclube numa expedição às antigas praças portuguesas.
As suas duas últimas grandes expedições foram ao deserto líbio, com o navegador Luís Ruivo, embora, pelo menos uma vez por ano, se deslocasse a terras marroquinas.
Organizava também um raid concelhio em Vila Verde, que juntava dezenas de participantes.