Assia Djebar, primeira magrebina eleita para a Academia Francesa

A escritora argelina Assia Djebar, a primeira personalidade magrebina a ser eleita para a Academia Francesa, com uma obra romanesca que defende os direitos das mulheres no mundo muçulmano, foi recebida naquela prestigiada instituição.

Agência LUSA /

Assia Djebar, de 69 anos, foi muitas vezes a primeira: a primeira mulher argelina admitida na Escola Normal Superior de Paris, em 1955, a primeira mulher argelina a obter reconhecimento internacional pela sua obra e, por fim, a primeira mulher magrebina a ser admitida, entre os 40 "imortais", na Academia Francesa, criada em 1635.

A 16 de Junho, a escritora foi eleita à segunda volta do escrutínio para ocupar a cadeira número cinco da Academia Francesa, tornando-se, assim, a quinta mulher a ter assento na instituição, depois da eleição de Marguerite Yourcenar, em 1981, e a segunda personalidade africana, após Léopold Sédar Senghor, em 1983.

O novo membro da Academia declarou-se "contente" pela sua eleição, "pelo reconhecimento que tal implica para a literatura francófona de todos os outros países, incluindo, evidentemente, o Magrebe, (Ó) mas também de todos os países africanos".

A escritora expressou ainda a esperança de que esta distinção encoraje, em contrapartida, a tradução para árabe de autores francófonos na Argélia, Tunísia e Marrocos.

Figura emblemática da emancipação das mulheres na Argélia, Assia Djebar encontra-se entre os clássicos da literatura magrebina de língua francesa, galardoada com numerosos prémios internacionais.

Autora prolífica - com uma obra que inclui romances, poesia, novelas, ensaios e teatro - e cineasta, nascida Fatma-Zohra Imalayene em 1936, em Cherchell, é a mais célebre escritora argelina de língua francesa, cuja obra interpela a história e o destino das mulheres nas sociedades muçulmanas.

Sendo argelina, escreve em francês como muitos dos seus compatriotas formados pela escola francesa. Ler e escrever em francês nos anos 50 representou a possibilidade de sair do círculo exclusivamente feminino numa sociedade "em que as mulheres não escrevem".

Iniciou a sua carreira literária em 1956 com "La Soif", a que se seguiram "Les Impatients" (1958) e "Les Enfants du Nouveau Monde" (1962), obra em que a heroína luta pela mudança política e pelos direitos das mulheres.

Em 1985, "L`Amour, la Fantasia" abre uma trilogia que prossegue com "Ombre Sultane" (1987) e "Loin de Médine" (1991).

"Todo o Magrebe recusou a escrita. As mulheres não escrevem.

Elas bordam, tatuam-se, tecem tapetes e com esse papel se conformam.

Escrever é expor-se. Se a mulher, apesar de tudo, escreve, ela tem o estatuto das dançarinas, quer dizer, das mulheres fáceis", declarou a autora quando da publicação de "Ombre Sultane".

Assia Djebar trabalhou também para teatro e cinema. O seu filme "La Nouba des Femmes du Mont Chenoua" recebeu o prémio da Crítica Internacional do Festival de Veneza, em 1979.

Entre 1983 e 1989, fez parte do Fundo de Acção Social (FAS), como representante da imigração argelina.

Na década de 90, a escritora aborda em "Le Blanc de l`Algérie" (1996) e "Oran, Langue Morte" (1997) a violência no seu país e a vida das mulheres sob o jugo do fundamentalismo islâmico.

A partir de 1997, Djebar começou a leccionar literatura francesa nos Estados Unidos, primeiro em Bâton Rouge (Louisiana) e depois em Nova Iorque.

Traduzida em 20 línguas, a escritora foi premiada várias vezes na Bélgica, Estados Unidos, Itália, Canadá, França e Alemanha.

Foram-lhe, nomeadamente, atribuídos o prémio Maurice Maeterlink (Bruxelas, 1995), o Literary Neustadt Prize (Estados Unidos, 1996), pelo seu contributo para a literatura mundial, o Marguerite Yourcenar Prize for Literature (Estados Unidos, 1997), pela obra "Oran, Langue Morte", e o prémio de Palmi (Itália, 1998).

Doutorada "honoris causa" pelas universidades de Viena (1995), Concórdia (Montreal, 2000) e, mais recentemente, Osnabruck (2005), foi eleita em 1999 para a Academia Real de Língua e Literatura Francesa da Bélgica, para ocupar o lugar de Julien Green, antes de ser nomeada Comendadora das Artes e Letras em França, em 2001, e de receber a Grande Medalha (Vermeil) da Francofonia atribuída pela Academia Francesa.

A sua eleição para a Academia Francesa foi também interpretada no quadro das relações entre a França e a Argélia, tendo o Presidente francês, Jacques Chirac, saudado "um novo testemunho da profunda amizade" que une os dois países.

Para a ministra da Cultura argelina, Khalida Toumi, Assia Djebar foi distinguida "por uma obra do espírito".

"É a mulher certa no lugar certo", congratulou-se a romancista Massouda Boubaker, formulando o voto de que a escritora argelina "sirva a identidade e a causa árabes, reforçando os laços entre o Oriente e o Ocidente".

Para o presidente da União dos Escritores Tunisinos, Sallaheddine Boujah, "distinguir um escritor argelino serve a literatura francesa, mas também a literatura magrebina, devido ao número de escritores magrebinos que produzem em francês, o que representa um fenómeno internacional".

"A literatura magrebina, que faz parte da literatura francófona, acrescenta uma nova faceta à língua francesa. É preciso que Assia Djebar amplifique esse movimento", declarou o romancista Ali Becheur, que escreve em francês.

A Academia Francesa, a mais antiga do género em França, foi criada em 1635 pelo cardeal de Richelieu, ministro de Luís XIII, e é composta por 40 membros ("imortais"), cuja principal função é zelar pelo respeito da língua francesa e elaborar um dicionário dela.


PUB