Associação de realizadores considera grave estreia de "Corrupção" em versão "amputada e sem realizador"
A Associação Portuguesa de Realizadores (APR) considera grave que o filme "Corrupção", cuja antestreia está marcada para hoje nos cinemas Freeport, em Alcochete, se apresente ao público "numa versão amputada e sem realizador".
Num comunicado enviado à Agência Lusa, a direcção da APR afirma que tem acompanhado "com pesar e preocupação" o desenrolar do caso, que provocou polémica pelo desentendimento entre o produtor, Alenxandre Cebrian Valente, e o realizador, João Botelho, acabando este por se recusar a assinar a autoria da longa-metragem.
Filmado em Lisboa, Porto e Santiago de Compostela, a longa-metragem é baseada no livro "Eu Carolina", de Carolina Salgado, ex-companheira de Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto, e tem nos principais papéis os actores Nicolau Breyner e Margarida Vilanova.
No comunicado, a APR - cuja direcção é composta por realizadores como João Mário Grilo e Alberto Seixas Santos - entende ser seu dever "alertar para a gravidade da situação" e assinala que "é a primeira vez que tal acontece em Portugal".
"Tais práticas não favorecem a qualidade do cinema português nem protegem os direitos dos seus autores e dos seus espectadores, independentemente do fundamento que as tornem contratualmente legítimas", sustenta a APR.
Por isso, a entidade reivindica que, "num futuro próximo, possa ser acessível ao público a versão original deste filme, escrita, filmada, montada e assinada pelo realizador João Botelho".
Devido às divergências com o produtor, João Botelho acabou por anunciar em comunicado que não assinaria o filme porque a Utopia Filmes tinha optado por "uma versão diferente de imagens e de sons" na qual não reconhecia a linha fundamental do argumento, de que é co-autor (com Leonor Pinhão) e o cinema que há 30 anos defende.
Por seu lado, o produtor Alexandre Valente, comentou na altura que as divergências com o realizador, nomeadamente sobre a montagem final e banda sonora, já eram esperadas desde o início do projecto, e por isso celebrou "um contrato muito claro".
No contrato, a montagem era a única área em que o realizador não era soberano, segundo o produtor, que assegurou, por outro lado, não ter alterado o contexto do filme.
Contactado pela Agência Lusa, António-Pedro Vasconcelos, presidente da ARCA - Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisuais, escusou-se a tomar posição sobre o caso.
"Não vamos tomar nenhuma posição porque, tanto quanto sei, o realizador parece ter assinado um contrato em que abdica dos seus direitos de autoria e decidiu não assinar a obra", comentou.
Com estreia nacional marcada para quinta-feira num número recorde de 55 salas de cinema, o filme "Corrupção", segundo as previsões da distribuidora BWorld Entertainment, espera 100.000 espectadores nos primeiros quatro dias de exibição.