Ateliês de artistas dos Coruchéus fazem 50 anos de atividade em 2020
Lisboa, 03 set 2019 (Lusa) - Os ateliês de artistas do complexo dos Coruchéus, primeiro no género a ser criado em Lisboa, cumpre 50 anos em 2020, e a sua atividade será assinalada "nos próximos anos", segundo o diretor das Galerias Municipais, Tobi Maier.
"Algumas das mostras nos próximos anos vão referenciar o passado da praça e do conjunto como polo do punk, a história da Galeria Quadrum e apresentar obras de artistas que ocupam ou ocuparam ateliês", disse o responsável, em entrevista à agência Lusa.
O Centro de Artes Plásticas dos Coruchéus, no bairro de Alvalade, só foi inaugurado oficialmente no dia 03 de agosto de 1971, mas alguns dos ateliês já tinham sido ocupados por artistas durante o ano anterior.
Tobi Maier ressalvou que não está a ser planeada, por enquanto, nenhuma celebração oficial, mas nos próximos anos a ligação do conjunto edificado à arte, nomeadamente através da histórica Galeria Quadrum, vai estar em foco.
O Palácio dos Coruchéus foi adquirido em 1947 pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) com o objetivo de ser depósito das publicações da autarquia, e o complexo onde se insere é composto ainda por dois blocos edificados de 50 ateliês projetadas a norte e a este.
Integrada neste complexo, no rés-do-chão do Bloco B, está a histórica Galeria Quadrum, nascida de um sonho da artista Dulce d`Agro, que a geriu, e apresentou a exposição inaugural, em novembro de 1973.
Projetada pelo arquiteto Fernando Peres, a Quadrum, que encerrou portas em 1995, reabriu em 1998, mas ao fim de poucos anos voltou a encerrar, e passou a ser gerida pela CML, que a reabriu e a devolveu à atividade expositiva, em 2010.
Considerada o laboratório da arte experimental portuguesa nas décadas de 1970 e 1980, acolheu nomes da arte nacional, tais como Alberto Carneiro, Ana Hatherly, António Palolo, Ernesto de Sousa, Fernando Calhau e Helena Almeida, entre outros, e artistas estrangeiros como Vasarely, Karel Appel, Gina Pane, Ulrike Rosenbach e Dany Bloch.
O objetivo da criação dos ateliês foi disponibilizar espaços aos artistas de Lisboa a preços acessíveis, uma atividade que tem sido renovada através da realização de concursos.
Tobi Maier considera que, "com a pressão imobiliária existente atualmente em Lisboa, a manutenção dos ateliês é um ato de resistência".
"Muitos artistas não têm outra opção senão viver fora da cidade. É preocupante. O meio criativo, apesar da presença de algumas galerias comerciais, ainda depende de um rendimento menos estável", comentou, na entrevista à agência Lusa.
Maier esteve no Brasil até ao início de setembro de 2018, onde concluiu doutoramento, e saiu um dia após a abertura da mostra dedicada a Ernesto de Sousa no consulado de Portugal, no quadro da 33.ª Bienal de São Paulo.
Na altura, lançou a revista "OEI #80--81: The zero alternative. Ernesto de Sousa and some other aesthetic operators in Portuguese art and poetry from the 1960s onwards", editada em colaboração com Jonas Magnusson, Cecilia Groenberg e Hugo Canoilas.
A revista - que resulta de uma investigação sobre Ernesto de Sousa, a exposição "Alternativa Zero", de 1977, e os artistas que lhe estiveram associados - tinha sido lançada meses antes em Lisboa, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), no Porto, no Museu de Serralves, e em Coimbra, no Círculo de Artes Plásticas.
Na exposição e na revista - com cerca de 600 páginas, coeditada com Hugo Canoilas - usa a obra de Ernesto de Sousa como eixo para uma antologia sobre a arte portuguesa de 1960 a 1980, com contribuições de vários artistas e autores.
Tobi Maier foi curador no Frankfurter Kunstverein (2006-2008), na Manifesta 7 em Rovereto (2008) e no MINI/Goethe-Institut Curatorial Residencies Ludlow 38, em Nova Iorque (2008-2011).
Foi também curador associado da 30.ª Bienal de São Paulo (2011-2012) e organizou o espaço de exposições "Solo Shows", nesta cidade brasileira (2015-2018).
As suas curadorias recentes incluem mostras individuais com obras de Ernesto de Sousa, Ursula Böckler, Sidsel Meineche Hansen, Marssares, Tobias Madison, Karin Schneider, Pablo Pijnappel, Wlademir Dias-Pino, Joen Vedel e Anne-Mie van Kerckhoven.
Tobi Maier sucede à curadora Sara Antónia Matos, na direção das Galerias Municipais de Lisboa, que por sua vez substituiu João Mourão, em janeiro de 2017, acumulando funções com a direção do Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, onde se mantém desde 2012.