Aumentam visitas aos locais de inspiração de Miguel Torga em Trás-os-Montes e Alto Douro

No ano do centenário de Miguel Torga duplicaram os visitantes que se deslocam à região transmontana para ver os locais - como São Martinho de Anta, o rio Douro ou as serras - que serviram de inspiração ao escritor.

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Adolfo Correia da Rocha, que se tornou conhecido como Miguel Torga e se impôs com um dos maiores escritores portugueses do século XX, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa.

O presidente da Junta de Freguesia de São Martinho de Anta, Mário Vilela, disse à Agência Lusa que cerca de 5.000 pessoas visitam anualmente a terra natal do escritor transmontano "guiados" pela obra do autor e em busca dos locais que lhe serviram de inspiração.

"No ano do centenário o número de visitantes já duplicou, entre estudantes, turistas e até visitantes estrangeiros", afirmou o autarca.

Apesar da obra de Torga ter sido retirada dos programas escolares, são, segundo Mário Vilela, muitas as escolas que realizam visitas escolares a São Martinho de Anta.

A viagem dos visitantes ou estudantes pelo "reino maravilhoso de Torga" poderá começar na sua terra natal, a Agarez que surge no livro "A Criação do Mundo", e que funcionou como o espaço privilegiado de inspiração do escritor.

Do largo do Eirô, onde fica o velho negrilho que o poeta admirou e eternizou na sua escrita, pode seguir-se até à ermida de Nossa Senhora da Azinheira ou visitar o santuário rupestre de Panóias, já em Vila Real.

O Douro inspirou numerosos poemas, dispersos pelos sucessivos volumes do seu "Diário", e foram vários os locais escolhidos pelo autor para contemplar a paisagem, designadamente o miradouro de São Leonardo da Galafura, onde, como descreve o escritor, "se avista o rio ao fundo a serpentear entre as montanhas".

Aqui o visitante está em pleno Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO como Património Mundial, e pode ainda subir ao miradouro de São Salvador do Mundo, em São João da Pesqueira, e admirar o "paraíso suspenso" de Torga, constituído pela quintas da região, produtoras de Vinho do Porto.

Vila Real, Montalegre, Chaves, Vinhais, Bragança, Miranda, Freixo de Espada à Cinta, Barca de Alva, Régua ou Lamego, foram também outros locais calcorreados pelo autor.

Este itinerário permite identificar as especificidades físicas desta região e ainda dá a conhecer os valores tradicionais da cultura local, nomeadamente as vindimas e as antigas rogas (grupos de pessoas que desciam das aldeias para as quintas para realizar as vindimas), as músicas e cantos tradicionais que ainda hoje alegram as encostas durienses durante os meses de Setembro e Outubro.

Para acolher os visitantes na sua terra natal, vai ser construído o Espaço Miguel Torga, num projecto assinado pelo arquitecto Eduardo Souto Moura e que vai custar cerca de 1,7 milhões de euros.

A direcção técnica da estrutura ficará a cargo do escritor António Pires Cabral, também responsável pelo Grémio Literário de Vila Real, pretendendo-se que funcione em articulação e um trabalho em rede com outros centros literários.

Esta iniciativa da Câmara de Sabrosa, acolheu todo o apoio por parte do primeiro-ministro, José Sócrates, que, no decorrer de uma visita a São Martinho de Anta em Junho, afirmou ter sido "através de Torga" que aprendeu a conhecer-se a si próprio e ao país.

A filha do poeta, Clara Rocha, também se associou ao projecto e disse esperar que esse espaço se transforme num centro de cultura que interaja outros espaços de homenagem aos escritores Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco.

Miguel Torga nasceu no seio de uma família de camponeses, emigrou para o Brasil aos 13 anos, regressou com 18 e, já em Coimbra, concluiu o curso do liceu e formou-se em Medicina, tendo falecido a 17 de Janeiro de 1995.

Na mesma rua onde nasceu o poeta ainda vive o padre Avelino Silva, com 93 anos, amigo e companheiro de caça de Torga, actividade que era uma das suas maiores paixões.

O padre Avelino apenas lamenta que Torga nunca tenha ganho o Prémio Nobel da Literatura, porque considera que "era o reconhecimento que ele merecia".

"Era um homem titânico, vertical, onde não havia mentira", revela o padre.

Na terra onde nasceu Adolfo Rocha não era "estimado nem reconhecido". "As pessoas achavam-no mal educado, duro, agreste. E a verdade é que era um homem de poucas palavras e pouco simpático", frisou.

Mas era também, segundo Avelino Silva, um homem "solitário". "Ele tinha consciência do movimento adversário que lhe era dirigido e a única coisa que respondia era: eles um dia me dirão", salientou.

E o reconhecimento da sua obra chegou mais tarde. Torga foi o primeiro escritor português a receber o prémio Camões em 1989.

Com o reconhecimento da obra foram muitas as homenagens prestadas ao autor. Hoje a principal rua de São Martinho de Anta tem o nome do escritor, existe um Círculo Cultural em sua homenagem na localidade e, em breve, abrirá o Espaço Torga.

Entre as suas obras destacam-se os "Contos da Montanha", "Bichos", "A Criação do Mundo", "Senhor Ventura" ou "Vindima", e na poesia "Rampa", "Abismo", "Lamentação", "Libertação" ou "Poemas Ibéricos", além dos seus 16 volumes de "Diários".

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