Bairro de Toronto com forte marca portuguesa é assinalado como «lugar histórico»
Toronto, Canadá, 25 Mai (Lusa) - A área do conhecido mercado de Kensington, em plena baixa de Toronto, passa hoje a ser assinalada como "lugar histórico nacional canadiano", na sequência de uma proposta do professor universitário português José Carlos Teixeira.
Numa cerimónia oficial que decorre esta tarde, será descerrada uma placa que declara a área "lugar histórico nacional", na presença de representantes dos Governos federal e da província do Ontário, da cônsul-geral de Portugal em Toronto e do proponente do projecto - José Carlos Teixeira, entre outras individualidades.
Este antigo docente da Universidade de Toronto e actual professor na Universidade da Colúmbia Britânica/Okanagan (UBCO), foi o autor do pedido feito em 2003 para o reconhecimento do valor histórico do mercado de Kensington à escala nacional.
A proposta, após a análise da comissão que tutela os monumentos de interesse histórico no Canadá, foi aceite pela então ministra federal do Ambiente, Rona Ambrose, em Novembro de 2006, a qual deu, de imediato, início ao processo de elaboração e colocação da placa alusiva respectiva, que hoje será oficialmente inaugurada naquele bairro.
"Sinto-me muito feliz pelo reconhecimento do mercado de Kensington como lugar histórico canadiano, onde a comunidade portuguesa desempenhou um papel importante, e também porque penso ter sido o único português a fazer uma proposta [do género]", declarou à Lusa José Carlos Teixeira.
O professor de Geografia Social da UBCO não escondeu que o facto de ser português e a zona de Kensington ter forte marca portuguesa "pesaram" na sua motivação para iniciar, em 2003, o processo de pedido.
Área de forte pendor multiétnico, "o mercado de Kensington foi uma das grandes portas de entrada de imigrantes no país e em Toronto. Entre eles, italianos, chineses e também portugueses, tendo estes ali desempenhado papel de rejuvenescimento urbano nos anos 60, impedindo a sua demolição", frisou o investigador português.
"A área de Kensington foi o embrião da comunidade portuguesa em Toronto. Desde logo, foi o primeiro ponto de concentração dos portugueses quando começaram a chegar à cidade em meados dos anos 50", nos primórdios da emigração oficial lusa para o Canadá, referiu à Lusa.
"O primeiro comércio português em Toronto nasceu em Kensington, na rua Nassau, na década de 50. Era o Restaurante Sousa, de António de Sousa. Assim como as primeiras mercearia, agência de viagens portuguesas e o Primeiro Clube Luso-Canadiano também ali foram criados", enunciou.
Paulatinamente, ao longo dos anos 60 e 70 a presença lusa foi crescendo, escolhendo a zona para residência e negócio, a ponto de vir a deter "a maior parte dos comércios na zona" e uma das suas artérias principais, a avenida Augusta, ser conhecida como a "rua dos Portugueses".
Mas, os imigrantes portugueses tiveram igualmente um papel activo e de relevo na preservação urbana da área que estava para ser demolida, ao pintarem e renovarem os prédios e edifícios, tal como os portugueses fizeram no bairro São Luís, em Montreal, realçou.
Este paralelismo entre o desempenho dos portugueses em prol da do urbanismo em Kensington e no bairro São Luís, em Montreal, este já declarado como local de interesse histórico canadiano, reforçou em José Carlos Teixeira a ideia de avançar com o pedido com a mesma finalidade.
Hoje em dia, a presença portuguesa naquela zona de Toronto, localizada paredes-meias com a famosa "Chinatown", é diminuta.
Assistiu-se, nas últimas décadas, à deslocação da comunidade para outras zonas da cidade, principalmente as ruas Dundas e College, conhecidas actualmente como as áreas de maior confluência lusa, onde se situam o "Portugal Village" e a "Rua Açores".
Mesmo assim, há emigrantes e negócios portugueses que não arredam pé de Kensington, a par muitos outros vestígios visíveis em nomes de lojas e casas, muitas vezes já pertencentes a proprietários de outras origens.
É frequente, por entre os transeuntes com que nos cruzamos nas apertadas ruas do típico mercado, sermos surpreendidos ao ouvir falar o Português, sobretudo dos Açores.
Por momentos, vem ao pensamento que, afinal, há ainda quem prefira a língua-mãe num local de vivências e resquícios lusos, como Kensington, apesar de a grande maioria dos portugueses e luso-canadianos em Toronto, há muito, ter adoptado o inglês para a expressão corrente.
EF.
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