Bar da Figueira da Foz manteve identidade de livraria centenária

Figueira da Foz, 16 jul (Lusa) - A Casa Havanesa, centenária livraria da Figueira da Foz, fundada em 1885, é hoje um bar, cujos proprietários mantiveram a traça original do edifício e promovem a troca de livros, tertúlias e outras manifestações culturais.

Lusa /

Localizada desde a década de 1920 em pleno Picadeiro, no chamado Bairro Novo, perto do Casino - depois de ter sido inaugurada na baixa da cidade - a livraria, tabacaria e casa de artigos fotográficos ali funcionou até 2006, pela mão da família Santos Alves, alvo, na altura, de uma homenagem por parte da autarquia, com base num acervo documental que inclui mais de 18.000 imagens da Figueira da Foz.

"Sinceramente, custou-me um bocado ver desaparecer a livraria Havanesa. Mas, do mal, o menos, deixou o nome, mantiveram toda a fachada e tentam manter o espírito", disse à agência Lusa José Santos Silva, técnico do departamento de Cultura da Câmara Municipal, aludindo à nova função da antiga livraria.

Santos Silva, que esteve envolvido na montagem da exposição evocativa, mantinha, desde criança, uma ligação especial com a Casa Havanesa: foi ali que comprou os primeiros livros de aventuras e a proprietária da altura, Maria Helena Santos Alves, já falecida, franqueava ao então petiz o acesso às prateleiras da cave, um depósito de milhares de livros, ordenados por editora.

"Tantos sítios emblemáticos da Figueira que já vimos desaparecer por completo, varrerem-se da memória das pessoas, os edifícios transformarem-se completamente, que este, mesmo assim, vale mais manter esse espírito, tentar preservar para gerações futuras o que foi a Havanesa. Não sei se conseguirão mas não é mau", argumentou.

No interior do agora bar, restaurante e casa de petiscos, inaugurado em abril, foram recuperados e mantidos os armários envidraçados originais, um dos balcões de atendimento e outros pormenores espalhados pela sala, como um anúncio de uma empresa fotográfica que promete fotos prontas em seis horas ou o papel de parede, reprodução de fotografias do estabelecimento original na década de 1930.

Ao fundo do corredor que leva à cave - onde se situam, hoje, as instalações sanitárias e uma mercearia de produtos `gourmet` - uma estante com livros espera clientes interessados em trocas, deixando um exemplar e levando outro.

"Em termos de espaço e projeto tínhamos de pegar em alguma ideia e aqui era quase impossível não pegar na história do próprio espaço. E é extremamente gratificante, 95 por cento das pessoas dão-nos os parabéns, gostaram muito do espaço e de termos mantido a identidade", afirmou António Guardiola, sócio-gerente da Casa Havanesa.

Considerou que nos dias de hoje "é uma mais-valia os espaços serem multifacetados", assumindo que a ligação à antiga livraria "é para manter", com lançamento de livros, espetáculos musicais e culturais, entre outras iniciativas.

Sentada junto a uma das portas, outrora uma montra da Casa Havanesa, Laura Júlia manifestou-se nostálgica pelo desaparecimento da livraria, um dos únicos locais da cidade onde encontrava determinadas revistas.

"Foi uma surpresa, senti uma certa alegria porque, de facto, o espaço tem outra vida. E depois, por outro lado, senti aquela tristeza daquilo que se perde, já não posso vir cá procurar revistas estrangeiras", frisou.

Ao lado, Dora Marina, disse ter adorado o novo espaço, em especial o facto de o bar ter conseguido "preservar cantos e encantos do passado".

"Acho que conseguiram juntar o passado com o presente e tornaram-no acolhedor", resumiu.

 

 

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