Bergman, de encenador de teatro a cineasta do drama humano
Ingmar Bergman, que hoje morreu com 89 anos, foi durante toda a vida um homem de teatro que escolheu o cinema para melhor exprimir, de forma inovadora e com grande riqueza emocional, a face trágica da condição humana.
Apaixonado pelo teatro, sobretudo do clássico, já na universidade dirigia uma companhia de estudantes e, findos os estudos, centrou logo a sua actividade no palco, como autor e encenador.
Depois de ter sido assistente de encenação no Teatro Real da Ópera de Estocolmo, dirigiu o Teatro Municipal de Helsinborg (1944-1946), de Goteborg (1946-1949), de Malmö (1954-1963) e do Real Teatro Dramático de Estocolmo (1963-1966 e 1985-1995).
Em 1976 fixou residência em Munique, na Alemanha, onde continuou a desenvolver o seu talento criativo, tendo regressado à Suécia em 1985.
A partir dessa época montou em 1986 "Menina Júlia" e "O Sonho", ambos de August Strindberg, seu ídolo de juventude, "Hamlet" (1987), de Shakespeare, o "Longo Caminho para a noite" (1988), de Eugene O`Neill, "Casa de Bonecas" (1990) e "Peer Gynt", ambas de Ibsen, e "Conto de Inverno", de Shakespeare.
Bergman, cujo filme "Fanny e Alexander" (1982) ganhou um Óscar para o melhor filme estrangeiro, realizou mais de 60 películas antes de se retirar em 2003, com "Saraband".
Abordando temas difíceis como a praga ou a loucura com técnica inventiva e diálogos incisivos, tornou-se um dos mais influentes cineastas do sec. XX.
Numa homenagem pelo seu 70/0 aniversário, Woody Allen, seu admirador confesso, disse que ele terá sido "porventura o maior artista do cinema desde a invenção da máquina de filmar".
Bergman alcançou fama internacional com a comédia "Sorrisos de uma noite de Verão, em 1955, e o seu último trabalho foi "Saraband", um filme de 2003 feito para televisão em alta definição com Liv Ullman e Erland Josephson, dois dos seus actores favoritos que retomaram os seus papéis anteriores em "Cenas de um Casamento", de 1974.
Foi no entanto em "O Sétimo Selo", lançado dois anos mais tarde, que atraiu a atenção da crítica e do público. Esse filme, uma alegoria dos anos da Peste Negra da Idade Média, contém uma das cenas mais famosas da história do cinema - um cavaleiro a jogar xadrez com a Morte.
"Tinha imenso medo da morte", disse Bergman sobre o seu estado de espírito quando realizou aquele filme de 1957, nomeado pela Academia de Hollywood para a categoria do melhor filme.
Numa entrevista divulgada em 2004 pela televisão sueca, o cineasta admitiu que não gostava de rever os seus filmes.
"É raro voltar a ver os meus filmes. Fico tão agitado e à beira das lágrimas...e infeliz. Acho isso horrível", disse Bergman.
Entre outras distinções, recebeu os prémios Erasmus (1965), Internacional de Teatro Luigi Pirandello (1971) e Goethe (1976), a medalha de Ouro da Academia Sueca (1977), o título de Comendador da Legião de Honra francesa (1985) e a Palma de Outro do Festival de Cannes pela sua carreira (1977).
É autor das suas memórias, intituladas "A Lanterna Mágica" (1987), do livro "Imagens" (1990), do autobiográfico "A Boa Vontade" (1991), do romance "O Quinto Acto" (1994) e de "Conversas privadas" (1996).
Pai de oito filhos, Bergman casou-se cinco vezes. A primeira com Elsie Fischer, com quem teve uma filha. Depois com Ellen Lundstrom, que lhe deu quatro filhos, entre eles uma actriz, Anna. A terceira e quarta mulheres foram, respectivamente, Gun Agberg, mãe do seu filho Daniel, também realizador de cinema. A quinta, Ingrid Karlebo, morreu em 1995.
Á margem destes casamentos, Ingmar Bergman viveu relações sentimentais com as actrizes Harriet Andersson e Liv Ullman, com a qual teve a sua filha Linn, jornalista.
Depois do desaparecimento da sua última mulher, Ingrid, Bergman passou a viver sozinho durante grande parte do ano na ilha de Faarö (Gotland), no Mar Báltico, que serviu de cenário a muitos dos seus filmes.
Depois de ter definido a vida como "um inferno insuportável", deu a entender numa entrevista à televisão sueca em 2002 que deixara de temer a morte.