Betume judaico faz corar virgens e santos nas mãos de José Matos
Em plena Beira Alta, o betume judaico dá cor a imagens de virgens, santos e mártires da igreja católica, num "casamento" entre duas vertentes religiosas que se consuma em simples estatuetas de madeira esculpidas artesanalmente.
Essa "união" desperta mais interesse quando se sabe que, apesar do mesmo Deus, na religião judaica não existem os santos que caracterizam a religião católica.
Mas é nestes, ou melhor, nas suas imagens de madeira, que o betume judaico - líquido escuro, usado para tapar poros da madeira e colorir, inventado por judeus - faz "milagres".
O "casamento" é consumado por José Mendes Matos, 69 anos, antigo chefe da estação da CP de Vila Franca das Naves (Trancoso), a mais nova vila do distrito da Guarda, para onde se mudou há 35 anos desde a freguesia de Alcaide (Fundão), mercê da profissão.
É o Santeiro de Vila Franca das Naves. Sentado num banco "mocho", cobre-lhe a cabeça um boné cinzento. Um avental de ganga azul, onde são visíveis os cortes e as nódoas castanhas claras da madeira, protege-lhe a roupa do dia-a-dia, e uns óculos graduados apuram a vista que perscruta as linhas ideais dos cavacos informes que hão-de renascer em arte.
Num espaço iluminado pela luz que entra pela porta, entre um labirinto de paus carcomidos, cavacos empilhados, pedaços de madeira informe e a banca de trabalho, brotam das mãos do artista peças religiosas que percorrem Portugal, mas também a Europa e as Américas.
José Matos nunca pensou ser "santeiro". Nunca tinha trabalhado madeira, nem de tal fazia ideia. Mas desde garoto que é "curioso" destas coisas, que faz qualquer coisa, é "engenhoca".
Por isso, sabe um pouco de tudo: já consertou rádios numa arte que aprendeu por correspondência, palmilhou "à antiga" sapatos - o que aprendeu "mirando os outros" -, soldou ferramentas...
"Tudo começou num serão à lareira. Vi um pedaço de madeira de castanho em vias de ir para o lume. Tinha uma forma engraçada. Puxei da navalha e comecei a cascar no pau, donde me surgiu a ideia de esculpir um Cristo que lá saiu a jeito. Depois, foi a imaginação de novo que me fez desenhar e esculpir na outra face o Papa João Paulo II", recorda.
Como se de um troféu se tratasse, José exibe essa primeira peça acabada em 1998, que busca escondida por entre um desfile de crucifixos, santos e mártires num improvisado mostruário. Demorou dois dias a fazê-la.
Desta experiência - e "em vez de andar de café em café" - nasceu a vocação que o ocupa quase de sol a sol na oficina improvisada numa garagem, fronteira à Linha da Beira Alta.
Numa mesa centrada por um oratório, estão Santo António, S.
João Baptista, S. Sebastião, Santa Marinha, São Francisco, Santa Rita, São Gonçalo de Amarante, Santa Eufémia de Braga, S. Macário do Alcaide, a Senhora do Ó, os pastorinhos e beatos Jacinta e Francisco Marto.
Numa prateleira coberta de pó empilham-se outros "bonecos" de uma recriação de tourada, centrada por um touro a que já caiu um corno, o bandarilheiro ainda direito a desafiar o animal, uma vaca já tombada, os cabrestos. Falta o cavaleiro, que "seguiu já viagem para outras mãos apreciadoras de artesanato".
Também estas foram das primeiras peças executadas, em castanho, pelo "santeiro" de Vila Franca das Naves. Pintadas a preceito.
Primeiro, porém, foram os presépios, assentes em duas "velas" de um qualquer pipo velho, entretanto reaproveitadas, que hoje figuram em catálogos como o "Cultos", do Instituto de Emprego e Formação Profissional.
A tília, o carvalho, a oliveira, o freixo, o amieiro, o castanheiro, o sangrinho - já raro - e o pinho partilham as esculturas e composições religiosas de José Matos. O carinho especial vai para o castanho velho, quantas vezes sobrante da remodelação ou demolição de casas, onde vai buscar traves carcomidas exteriormente ou tábuas já desgastadas que servem de matéria-prima.
Uma dessas pranchas de madeira vai servir de moldura para um espelho e outras semelhantes para o fabrico de oratórios ou assentamentos para os santos.
Mas José precisa de instrumentos e eles nascem também das suas mãos. De limas fazem-se goivas, de pedaços de aço das molas dos carros e das limadoras das serrações surgem formões e de um pedaço de freixo foi feita a maceta para bater o material. Contudo, nunca a navalha foi dispensada.
Os santos são esculpidos à medida e segundo a imaginação do artista, que rebuscou nas enciclopédias a vida de mais de dois mil eleitos da Igreja.
Foi há meia dúzia de anos que uma "senhora de Pinhel" viu as estatuetas sacras do "santeiro" e sugeriu a sua exposição na Feira Internacional de Lisboa.
"Era 1999. Levei uns Passos de Cristo. Estavam muito toscos, muito mal feitos, até me envergonhava de os mostrar. Estavam numa caixa. O consultor das Nações Unidas, Paulo Trindade, pediu-me então para os mostrar e expor...passada uma hora já não estavam lá, já tinham sido comprados por alguém", relembra o "santeiro".
S. Miguel é o santo que mais trabalho dá que fazer a José Matos. Demora uns quatro dias, porque "é preciso pôr uma figura em cima da outra, o santo em cima do diabo, ou então, nas Alminhas, o santo rodeado das almas".
Uma das mais viajadas pelo país é a Senhora do Ó, de barriguinha grande, esperando o nascimento de Cristo, já levada para o Hospital Militar do Porto, mas também para Espanha, assim como o Santo António de Lisboa, uma das figuras maiores que possui no escaparate que prepara para a Feira das Tradições de Pinhel e para outras mostras.
Agora, à entrada da garagem ergue-se um tronco já trabalhado em espiral. Vai representar os "Passos de Cristo", na Via Dolorosa de Jerusalém. Primeiro, o artista define as formas, as figuras, depois coloca-as na espiral que terminará no Calvário.
Meticulosamente esculpidas, polidas no torno, as figuras são enceradas, definidas com um pouco de "vioxene" e... eis que casam então as cores de madeira mais envelhecida e mais escura, mais corada ou mais branca.
Algumas faces precisam de cor e, nestes casos, nada melhor que o betume judaico para as fazer corar.