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Bianca da Costa leva a resistência da Amazónia à cenografia de Villa-Lobos

Bianca da Costa leva a resistência da Amazónia à cenografia de Villa-Lobos

A artista visual brasileira Bianca da Costa quis fugir à representação imediata da floresta na cenografia de "Floresta do Amazonas", de Villa-Lobos, criando um diálogo entre música, imagens e a realidade contemporânea da Amazónia.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

A cenografia parte de uma estrutura circular, pensada a partir da ideia de que a Amazónia deve ocupar o centro do mundo e da reflexão sobre as questões ecológicas e políticas, inspirada também no livro "A Amazónia é o Centro do Mundo", da jornalista brasileira Eliane Brum.

"É uma ideia de mudar a perspetiva, de trazer para o centro a Amazónia e as questões ecológicas que ela traz, mas também as questões de resistência", explicou à Lusa Bianca da Costa, que procurou construir um espaço onde diferentes mundos pudessem dialogar, através de uma composição de luz, imagens e música.

"Para mim, foi um exercício muito grande não ser realista, não colocar a ideia de sobrepor uma imagem dentro da imagem que ele criou a partir da música", contou, explicando que procurou evitar a redundância de recorrer a imagens convencionais da floresta.

A artista quis afastar-se de uma representação "exótica" ou de "cartão-postal", trabalhando antes com texturas, cores, repetições e sobreposições, numa linguagem visual que acompanha o ritmo e a textura musical da composição.

Essa opção também se traduz na ausência deliberada de imagens em determinados momentos, desde logo no início do concerto, permitindo que o público escute a música e construa o seu próprio imaginário como sugeria o próprio Villa-Lobos.

"É uma escolha justamente para trazer essa possibilidade de sonhar, de sentir a música e de não dar o imaginário direto", afirmou.

A pesquisa de Bianca da Costa, cenógrafa de formação e artista visual, cruza há mais de uma década as relações entre seres humanos e natureza, incluindo animais e plantas, e a dimensão política da exploração dos territórios.

A primeira viagem à Amazónia aconteceu em 2021, para realizar a curta-metragem "Interior da Terra", sobre o avanço da desflorestação durante o Governo de Jair Bolsonaro. Desde então, tem desenvolvido trabalho em ligação com comunidades e lideranças indígenas, cujas cosmologias e formas de relação com a floresta alimentam a sua criação artística.

Para "Floresta do Amazonas", escolheu a sumaúma, uma das árvores mais altas e antigas da região, conhecida em algumas comunidades como "vovozona", pela sua dimensão ancestral.

"Eu trago um pouco essa metáfora dessa árvore, que é uma árvore muito antiga, muito alta", explicou, associando-a também às ideias de resistência e esperança que encontrou no território, onde a sumaúma é a morada do `curupira`,considerado o guardião das florestas.

Mas é na sequência dos barcos de exploração de soja que a cenografia introduz uma das referências mais concretas à realidade política e económica atual da Amazónia.

A imagem nasceu de uma viagem a Santarém, no estado brasileiro do Pará, onde Bianca da Costa subiu o rio Tapajós e encontrou os grandes barcos que transportam soja para mercados internacionais, incluindo a Europa e os Estados Unidos.

A artista recordou a mobilização de lideranças indígenas de várias regiões do Brasil contra um projeto que previa aprofundar os rios para permitir a passagem de embarcações de maior dimensão, uma intervenção que, na sua perspetiva, colocava em causa a proteção dos territórios e dos recursos naturais.

"Quem conhece esses barcos sabe o que se passa, mas, ao mesmo tempo, é uma coisa que está ali, que está a acontecer todos os dias, que toda a gente está a ver e ninguém está a ver com a importância que tem", observou.

A sequência cruza-se com "Veleiros", uma das partes da composição de Villa-Lobos, que Bianca da Costa interpretou também a partir de uma associação entre os barcos amazónicos e os veleiros da colonização.

A artista introduziu imagens dos barcos de transporte de soja com efeitos visuais, procurando tornar visível uma realidade que considera muitas vezes ignorada, apesar do seu impacto sobre a região.

A dimensão política da obra estende-se à situação dos povos indígenas depois das eleições presidenciais brasileiras de 2022, que devolveram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, após quatro anos de governo de Bolsonaro.

Bianca da Costa considera que a mudança de Governo não significou o fim das ameaças sobre as comunidades indígenas, referindo ataques e intimidações atribuídos a setores ligados ao agronegócio e ao bolsonarismo.

"É uma luta ganha e não ganha ao mesmo tempo", afirmou, sublinhando que os povos indígenas continuam a enfrentar violência e ameaças, apesar da mudança política no país.

Na sua leitura, a resistência dessas comunidades é também central para compreender o futuro da floresta, num contexto em que os interesses económicos e a exploração dos recursos naturais continuam a disputar espaço com a defesa dos territórios.

"Por mais que a gente esteja vendo, e hoje, com certeza, todos os dias, os povos indígenas estão sendo mortos e a floresta está sendo explorada, mas quando a gente chega lá, eu fui muito tocada por todas as questões políticas, ecológicas, sociais, que são enormes, mas também fui muito tocada por uma humanidade, uma relação muito íntima com a natureza, de uma resistência, mas também de uma esperança muito grande", contou.

"São os povos indígenas que estão a sustentar essa resistência", dimensão que não faltará na composição cénica criada por Bianca Dacosta para o concerto da Orquestra Sinfónica da Casa da Música dia 14 de novembro.

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