Bibliotecas itinerantes vão hoje além da leitura e prestam também apoio social

Bibliotecas itinerantes vão hoje além da leitura e prestam também apoio social

As bibliotecas itinerantes, uma das mais reconhecidas marcas da Gulbenkian, vão hoje além da leitura e prestam também apoio social a algumas populações, como estudantes e idosos, assinala Maria Helena Borges, que dirigiu a rede criada pela fundação.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: Raylor Photo - Unsplash

Quando, em 1958, a Fundação Calouste Gulbenkian arrancou com o Serviço de Bibliotecas Itinerantes, Portugal era feito de "miúdos descalços, mulheres com lenços na cabeça e saias até aos pés, soldados a irem para a guerra", e também de "falta de cultura e de literacia", recorda a bibliotecária, em entrevista à Lusa.

O país evoluiu e em 2002 - era Maria Helena Borges diretora daquele serviço - o projeto que promoveu a leitura junto das camadas da população portuguesa com menos acesso à educação deixara de fazer sentido.

Até porque a Fundação Calouste Gulbenkian, a completar 70 anos, tem como premissa desempenhar um papel suplementar e não substituir-se ao Estado: as bibliotecas itinerantes surgiram "para suprir uma falta enorme que havia no país, que era a literacia, e levar os livros no sentido de reforçar o ensino não formal", recorda.

Mas o projeto, que durou mais de quatro décadas, deixou lastro até hoje, mantido de forma adaptada por dezenas de bibliotecas municipais, com um serviço itinerante que visita escolas e presta apoio aos idosos, por exemplo.

Convicta de que "um serviço deste género pode, mais uma vez, levar às pessoas aquilo de que elas precisam realmente", Maria Helena Borges assinala que, "para além dos livros, que podem ir aqui ou ali ou acolá buscar, há um serviço social que está a ser prestado, em paralelo com o serviço de leitura", o que é "fantástico".

As bibliotecas da rede municipal são "de primeira água a nível europeu" e "estão sempre na crista da onda", elogia, destacando que "os serviços que prestam vão mudando conforme as necessidades".

Acresce ainda que a criação das bibliotecas escolares veio também "pôr a leitura num lugar muito importante para os miúdos".

De acordo com dados da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas integra atualmente 263 municípios, num total de 493 bibliotecas fixas e 70 itinerantes, que continuam a assegurar o acesso aos livros e à informação em territórios mais isolados ou junto de populações com maiores dificuldades de acesso aos equipamentos culturais.

Este contexto é muito diferente daquele maio de 1958, quando foram apresentadas as primeiras 15 carrinhas Citroën, em Lisboa, na presença de Azeredo Perdigão, o primeiro presidente da Gulbenkian, e o então ministro da Educação Nacional, Francisco Leite Pinto.

"A ideia era simples e extremamente eficaz: equipar carrinhas com livros e fazê-los chegar a vários pontos de um país pobre, onde o contacto com o livro e a leitura eram praticamente inexistentes", descreve-se numa publicação da Gulbenkian datada de 2008.

As "regras de ouro" do projeto -- idealizado por Branquinho da Fonseca, que seria diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes desde a sua criação até 1974, data da sua morte -- eram: acesso livre às estantes, empréstimo domiciliário e serviço gratuito.

"Embora a Fundação [Gulbenkian] tenha feito coisas extraordinariamente importantes e extraordinariamente marcantes para muita gente, [...] não há dúvida nenhuma de que aquelas carrinhas [...], que começaram por ser cinzentas e depois no fim já eram cor de tijolo, [...] ficam na memória das pessoas como um legado incontornável", destaca Maria Helena Borges.

"De repente, aparecerem umas carrinhas que tinham cerca de dois mil livros dentro do seu habitáculo, [onde] qualquer pessoa de qualquer idade podia entrar, podia mexer, podia escolher, podia levar para casa e ficar com os livros até [...] à visita seguinte da biblioteca. [...] Obviamente criou um impacto enorme sociocultural na população do país", constata.

Através dos livros, "as pessoas tinham acesso a coisas que nunca pensaram ter" e "a mundos que nunca pensaram visitar". Isso gerou "uma grande alteração de comportamento", sobretudo nas crianças.

A bibliotecária lembra um concurso de desenho nas escolas, realizado na década de 1990, em que se pedia aos alunos para refletirem o seu olhar sobre a fundação: quem era de Lisboa desenhou jardins, anfiteatros, a estátua do fundador, o engenheiro britânico-arménio Calouste Gulbenkian; no resto do país todos desenharam as carrinhas-biblioteca.

Mais de quatro décadas depois, quando a Gulbenkian decide terminar com o programa das bibliotecas itinerantes, o país já era outro: "As aldeias começam a ficar desertificadas, com a rede viária, que é ótima, as pessoas deixam de viver nas aldeias, vão viver para os centros urbanos, as crianças passam a ter hipótese de ir para a escola, saem de manhã e vêm à noite e, de repente, digamos assim, não havia público. Havia oferta, mas não havia procura."

Com uma rede de bibliotecas municipais a funcionar desde os anos 1980, a situação evoluíra.

"As bibliotecas itinerantes repensaram-se e realinharam-se com o que estava a passar, passaram a ter um papel mais de apoio à leitura, de incentivo à leitura" e as carrinhas, juntamente com os livros, acabaram por ser entregues às câmaras que os quiseram.

Quando o serviço foi extinto, as bibliotecas itinerantes tinham disponibilizado cerca de 97 milhões de livros a quase 29 milhões de leitores espalhados por 3.900 povoações.

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