Biografia de Günter Grass procura mostrar "o homem por detrás da obra"

O convite a Miguel Oliveira para realizar uma palestra sobre "a vida e obra" de Günter Grass no Funchal, em 2004, resultou, três anos depois, num livro que, além da biografia e de uma cronologia, inclui uma análise de "A passo de caranguejo".

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Ao longo dos três anos que levou a escrever a biografia, Miguel Oliveira contactou o escritor, "que foi muito colaborante" DR

Esta é, para o autor da biografia, a mais representativa obra do Nobel da literatura alemão 1999.

"Na minha opinião - disse à Lusa -, esta é a mais representativa obra do seu legado literário, na medida em que, além do valor literário inerente, corresponde a uma síntese do seu pensamento enquanto cidadão empenhado".

Compreender a obra de Günter Grass e "conhecer melhor o homem que existe por detrás dela" é o propósito da biografia, "tanto mais - argumenta Oliveira - que não havia muitas publicações sobre o autor germãnico".

Ao longo dos três anos que levou a escrever a biografia, Miguel Oliveira contactou o escritor, "que foi muito colaborante", e vários amigos seus, críticos e estudiosos da sua obra.

O livro, editado pela A.M. Parceria Editores, inclui os testemunhos de Yvette Centeno, Mário Soares e João Barrento, entre outros.

A biografia, de 133 páginas, divide-se em seis partes, desde uma "infância vulgar" na antiga Danzig, actual Gdansk, até ao "caso Günter Grass", quando o escritor revelou ter pertencido às Waffen-SS.

Sobre "o caso", Miguel Oliveira escreve na biografia que Grass foi um dos impressionados "pela propaganda ideológica nacional-socialista" numa altura em que "qualquer um entrava", sem serem averiguados os antecedentes familiares, designadamente se havia deficientes ou origens judias.

"É fácil hoje julgar, sem termos vivido naquele tempo. Tanto mais que ele tinha já admitido ter pertencido à Wehrmacht, que era ao mesmo nível criminosa. Não se entende a reacção gerada, pois eram as duas igualmente criminosas. Acontece que às Waffen estava associada a sigla das SS que tinham ligações com a Gestapo [polícia secreta] e que lançaram um clima de terror", sublinhou.

Reconhecendo que a obra literária de Grass "é já suficientemente biográfica", Miguel Oliveira enfatizou: "Todavia, não a podemos entender como tal e nunca deixa de ser ficção".

Daí o seu interesse, explicou, "em dar a conhecer o ser humano que está por detrás da obra, sem as teias da ficção e da metáfora".

Miguel Oliveira, 28 anos, nascido em Hamburgo, é actualmente conselheiro cultural da sociedade austríaca Dialogues among Civilizations, que trabalha em conjugação com o Ministério da Cultura de Viena. Anteriormente, tinha sido professor no Liceu Emil-Krause e também na Universidade da Madeira.

A autobiografia de Günter Grass, "Descascando a cebola", será editada em Outubro pela Casa das Letras.

Quando começou a escrever o seu livro, Grass informou por carta Miguel Oliveira de que iria estar "muito ocupado pois estava a escrever um livro". Esse livro seria, precisamente, a sua autobiografia.

Miguel Oliveira enviou já a sua biografia ao autor de "O tambor" mas ainda não recebeu qualquer resposta, "o que é natural - observou - pois ele tinha uma agenda muito carregada no mês de Maio".


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