Biografia de Mouzinho de Albuquerque questiona apropriação de feitos por regimes políticos
Mouzinho de Albuquerque (1855-1902) “seria hoje condenado por crimes contra a humanidade”, sustenta o historiador Paulo Jorge Fernandes. O autor de “Mouzinho de Albuquerque – Um soldado ao serviço do império” apresenta o biografado como “figura ilustrativa de uma certa maneira de pensar e olhar para o país num contexto de crise e de questionamento das instituições”.
A captura "foi um golpe de sorte e não passou de uma bravata militar em que não participaram mais de meia centena de homens e não houve qualquer chacina dos dois lados", conta Paulo Jorge Fernandes. O régulo africano foi despojado dos seus haveres, afastado das tradições, transportado para Portugal, onde sofreu humilhações públicas. Com a captura, o regime monárquico garantia o domínio sobre Moçambique (Gaza).
Regimes políticos apropriam-se de um "crime contra a humanidade"
Os feitos do militar português "foram transformados em algo mais do que aquilo que representam", no âmbito da construção do imperialismo português, em que pontuam a Conferência de Berlim (1884-1885) e o Ultimato Inglês (1890).
"Há um interesse não tanto pela sua acção, que foi extraordinária, mas pela apropriação que fazem três regimes políticos: a Monarquia, a I República e o Estado Novo", acrescenta o investigador. O livro "não traz novos factos, mas vale pela nova perspectiva em que enquadra o militar", justifica o autor da biografia.
Paulo Jorge Fernandes quis "contextualizar Mouzinho na mentalidade da época em que viveu", quando o exército português tinha voltado a combater e as campanhas em África eram "uma razão para se afirmar enquanto corporação".
A captura de Gungunhana teve repercussão no coração do reino e o militar ambicionava cargos que nunca chegou a desempenhar. Mouzinho de Albuquerque foi nomeado preceptor "contra da sua vontade" de D.Luís Filipe, função de que não gostava mas que proporcionou "mais que uma relação formal com a Rainha D.Amélia, sem nunca encurtar a distância que os princípios morais dos dois e o espírito da época impunham".
Suicídio, roubo ou assassinato político
As hipóteses aventadas para a morte de Mouzinho de Albuquerque, com dois tiros, num coupé alugado na estrada das Laranjeiras, em Lisboa, a 8 de Janeiro de 1902, não excluem dos motivos a proximidade da rainha. A tese oficial aponta para suicídio, embora "ninguém se suicide com dois tiros", mas a imprensa da época referia roubo comum.
Paulo Jorge Fernandes acrescenta o "suposto assassinato político", uma vez que "havia uma trama política em torno da figura de Mouzinho, coadjuvado por outros militares". O enredo "contava com o apoio do próprio Rei D.Carlos e de políticos como João Franco" e "visava instaurar em Portugal um regime com forte ascendência militar". Algo que tinha a oposição de alguns sectores monárquicos, e desta forma Mouzinho pagava por essa ousadia".