Biografia do escritor V.S.Naipaul é motivo de escândalo

Londres, 15 Abr (Lusa) - "The World is what it is", a biografia de V.S.Naipaul por Patrick French, originou um escândalo nos meios literários pelo pouco abonatório retrato moral do biografado, Nobel da Literatura em 2001.

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Ao contrário do que poderia pensar-se, a biografia foi autorizada: Naipaul permitiu que French consultasse todos os seus papéis, cerca de 50.000 documentos que se conservam na Universidade de Tulsa (Oklahoma), respondeu a todas as perguntas, leu o manuscrito e não levantou quaisquer objecções à sua publicação.

Naipaul já por várias vezes escandalizou a opinião pública inglesa com as suas declarações, longe de politicamente correctas e por vezes directamente ofensivas, sobre o Islão, os países em desenvolvimento, em especial os africanos, e o multiculturalismo.

As revelações da biografia agora publicada, sobretudo as respeitantes às relações com as mulheres da sua vida, são as que mais chocaram os círculos intelectuais do Reino Unido.

O mais ofensivo moralmente para muitos está no que o livro conta sobre a relação do escritor com a sua primeira mulher, a britânica Patricia Hale. Conheceram-se em 1952 quando ambos estudavam em Oxford e ela resgatou-o das suas tendências suicidas e sacrificou tudo por ele, para logo depois ser objecto do seu desprezo.

Naipaul e Patricia casaram-se quando tinham 22 anos, mas, como o próprio escritor reconheceu abertamente, Pat não o atraiu nunca sexualmente, até ao ponto de, como contaria em 1994 à revista "New Yorker" numa entrevista, a partir de 1958, ou seja, desde os primeiros anos do casamento, ter recorrido ao serviço de prostitutas.

Quando leu a entrevista, Patricia Hale, que então recuperava de um cancro de mama - tivera de submeter-se a uma mastectomia - sofreu uma recaída que, algum tempo depois, acabaria por a conduzir à morte.

"Poderia dizer-se que eu a matei", confessou ao biógrafo o escritor, que, noutra ocasião, declara :"Sou totalmente indiferente ao que as pessoas possam pensar de mim, pois o meu único serviço é a isso a que se chama literatura".

Durante aquele primeiro casamento, Naipaul conheceu em 1972 uma argentina de origem britânica chamada Margaret Murray, com a qual viajaria ao longo de mais de 20 anos pelo mundo, satisfazendo todas as suas fantasias sadomasoquistas.

Murray, que estava casada com um executivo, foi, segundo a biografia, objecto voluntário e complacente das suas agressões, mas, se lhe servia como objecto sexual, Naipaul, que a considerava ignorante e grosseira, nunca aceitou casar-se com ela, apesar de ter abandonado o marido e os três e ficado três vezes grávida do escritor.

Da primeira vez, Naipaul mandou-lhe um cheque para a ajudar a pagar as despesas com o aborto, mas, nas duas outras ocasiões, nem isso fez e acabaria por afastar-se dela, entregando-lhe uma quantia em dinheiro em jeito de compensação.

O livro termina quando, na companhia da sua actual mulher, uma jornalista paquistanesa 20 anos mais jovem chamada Nadira Alvi, Naipaul vai a um bosque depositar as cinzas da sua primeira e fiel esposa.

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